Você não vai com a minha cara

by Paulo Polzonoff Jr. on December 6, 2016

 

Você não vai com a minha cara. Eu sei, você sabe. Nós sabemos. O que é uma pena. Para mim e para você. Imagino quantas coisas poderíamos fazer juntos, quantas conversas agradáveis, quantas risadas, quantas coisas aprendidas e ensinadas. Mas você não vai com a minha cara – e aparentemente não há nada o que eu possa fazer a respeito.

Como sei? Não é preciso distintivo de detetive particular para perceber os sinais. Faço piada e você não ri. Comento algo e você discretamente revira os olhos. Ou então emposta a voz ameaçadoramente, como seu eu fosse seu inimigo. Não sou.

Por que me importo? Não sei direito. É bem verdade que em outros tempos não me importaria. Muita gente não foi, não vai e nunca irá com a minha cara. Muita gente que nunca falou comigo, mas que “ouviu dizer” que sou assim e assado, mais assado do que assim. E eu sempre dei de ombros. Porque é normal e, se não for, acho que em algum momento da vida me acostumei com a ideia de as pessoas não irem com a minha cara.

Mas, em relação a você, me importo, já disse. Talvez porque tenha me esforçado ao máximo, nos últimos tempos, para ser uma pessoa agradável. Para não cometer a gafe de falar alguma bobagem ultrajante. E sobretudo para não ceder à tentação do chiste.

E também porque é simplesmente injusto.

Mas a vida é assim mesmo. A gente se desfaz em mesuras diante de alguém que nem conhece, por pura gentileza, e para nada. A pessoa não vai com a sua cara e cria toda uma imagem monstruosa de você como alguém que lhe causa repulsa. Não há o que fazer.

Eu era assim também. Não ia com a cara dos outros. Por nada. Fulano falava comigo com um tom de voz desagradável e eu já não ia com a cara. Sicrano usava óculos, eu não ia com a cara. Beltrano usava sapatênis e eu não ia com a cara. Arranjar desculpas é fácil. Se bem que nem sempre é necessário. Não vou com a cara porque não vou com a cara. Acredito ter dito isso um bocado.

Hoje em dia, porém, penso em quantas pessoas boas passaram pela minha vida sem que eu prestasse atenção porque não ia com a cara delas. Porque revirava os olhos diante de comentários bobos. Porque não ria de piadas sem graça, mas esforçadas. Porque não era capaz de admirar a simpatia – nada mais do que uma expressão, ainda que mais pobre, da generosidade.

Você não vai com a minha cara. Só me resta esperar que você desarme essa fortaleza de tolices aí, que se deixe seduzir. Não só por mim, claro, mas por todo um Universo de pessoas que não conseguem causar uma boa impressão, por mais que tentem.

Mas, se isso não acontecer, espero ao menos que um dia você perceba que não vai com a minha cara simplesmente porque de alguma forma eu ressalto algum aspecto negativo seu. É sempre assim. E vovô Freud nunca se engana.