Vírgula mas infelizmente

by Paulo Polzonoff Jr. on October 13, 2016

 

Quando o crítico começa um texto com uma afirmação positiva, pode acreditar que a ela se seguirá uma vírgula e um “mas” que funcionam como comportas abertas para uma torrente de defeitos e problemas encontrados no livro (ou filme ou peça ou música) analisado. É uma estrutura de pensamento comum e que alguns podem ter por preguiçosa, mas que, para mim, expressa uma profunda cordialidade e respeito pelo autor e pela obra.

Luis Felipe Leprevost é um autor que sabe escrever [vírgula] mas que escorrega no Zeitgeist. Escorrega, perde o equilíbrio e cai de bunda no chão. Se você está presente à cena, tem duas opções: correr para ajudá-lo ou rir da trapalhada. Ou, como no meu caso, ajudar rindo.

O maior elogio que posso fazer a Dias Nublados (Arte & Letra) é que se trata de um romance em consonância com seu tempo. Tá, não é exatamente um elogio. Porque o tempo a que me refiro é, para a literatura brasileira, de trevas. Textos obtusos e bizantinos, sem qualquer aspiração à grandeza, destinados, na melhor das hipóteses, a conquistar uma menininha no Largo da Ordem. Há quem veja nisso um propósito nobre. Que seja.

Ao terminar o livro de apenas 111 páginas que me consumiram um bom mês de vida, fiquei me perguntando que tipo de pessoa leria Dias Nublados. A menininha querendo impressionar o autor, talvez. Um adolescente, ainda que tardio, tentando entrar para a turma da literatura curitibana. Mas nunca, em hipótese alguma, um leitor comum minimamente intelectualizado em busca de alimento para a alma, daqueles que não precisam provar nada para ninguém.

Leprevost, que já foi poeta com algum potencial, ao enveredar pela prosa cai na armadilha das firulas estéticas que servem apenas para camuflar a falta do que dizer. Neste sentido, Dias Nublados parece até mesmo uma caricatura. Estão presentes ali as frases de efeitos, a pontuação caótica (caos proposital, quero crer, porque a alternativa é o desconhecimento das mais básicas regras de pontuação), as referências pequenas e, claro, a autorreferência narcisista mais adequada à sala de uma psicanalista freudiana ortodoxa.

A história o leva do nada ao lugar nenhum, os personagens falam platitudes, e a narrativa dialoga (num arroubo de generosidade do leitor) com o tédio do romantismo oitocentista, numa espécie de spleen curitibano. Sinceramente, não tenho mais idade para isso.

O fato é que livros como Dias Nublados contribuem apenas para a construção da literatura brasileira como uma torre de marfim acessível tão-somente a seres especiais, iluminados cujas almas, contrariando Bandeira, se comunicam num dialeto lá só delas. É um movimento suicida que reproduz o que aconteceu com as artes plásticas na segunda metade do século XX. Leprevost, com sua prosa poética críptica e com as dores minúsculas de seus personagens planos, compôs uma instalação literária destas que atraem intelectualóides a bienais em cidades do Terceiro Mundo. Há artistas para os quais este tipo de aplauso provinciano basta. Fazer o quê?

Abri Dias Nublados assim que o recebi das mãos do autor, com dedicatória querida e tudo. Queria – ah, como queria! – encontrar ali algo além de uma emulação de Faulkner ou Antônio Lobo Antunes, com pitadinhas daqueles poetas marginais que nos importunam nos bares. Mas a vírgula ameaçadora e a implacável conjunção adversativa prevaleceram, dando lugar, como sempre, ao mais triste dos advérbios de movo: infelizmente.