Vida mesmo, com vê maiúsculo

Hoje eu acordei certo de que iria passar boa parte do dia escrevendo a respeito da absurda decisão da Justiça de proibir comemorações do Golpe Militar de 1964. Mas daí.

Mas daí eu resolvi dar uma volta na tradicional Feirinha do Largo da Ordem, também conhecida como o Inferno Curitibano. Só para olhar a vida, sabe como é? Aí passei na banca de um amigo filatelista e estava todo animado vendo postais antigos quando resolvi comprar o Olho de Boi – o segundo selo mais antigo do mundo! E ao realizar esse sonho de infância eu meio que percebi que, se falasse o que tinha para falar sobre a Justiça e o golpe e Bolsonaro e essa tralha toda, provavelmente gastaria todo o meu parco latim para ser mal-entendido em minha defesa simples da liberdade.

Já com o Olho de Boi na sacola e imaginado como eu o exporia, desci o Largo da Ordem rumo ao Cavalo Babão e lá me deparei com alguns senhores e senhoras de preto, ostentando cartazes com “DITADURA NUNCA MAIS” e “LULA LIVRE” e gritando “Marielle Presente!” e outros slogans do gênero. Num domingo. De sol. Antes mesmo das dez horas da manhã.

E me lembrei do menino de dez anos que fui um dia. O menino que, sem autorização da mãe e sem entender direito o sistema, comprou revistas de filatelia por Reembolso Postal. O menino que achava que um Olho de Boi valia tanto quanto um carro, uma casa, um iate! O menino que jamais imaginou um dia ter de gastar seu latim para defender algo tão óbvio quanto a liberdade de alguém defender uma ideia – por mais equivocada que essa ideia seja.

À minha volta, turistas, atores com camisetas do Festival de Teatro, sotaques diferentes com camisetas do Paul McCartney. Todo mundo com algum comentário sobre os infinitos e quase sempre inúteis produtos da feirinha. Imagine isso na nossa sala? Que tipo de gente usa uma coisa dessas? Olha aquilo, que horrível! Nossa, lembra quando isso era moda?

Todos olhando, pensando, fazendo um zilhão de referências mentais para justificar para si mesmo a compra ou não de um badulaque qualquer, estudando mais um pouco, pechinchando, pedindo para parcelar, pagando, recebendo, embrulhando, contabilizando mentalmente se o capital investido vale a pena.

Ou seja: vivendo o milagre que só é proporcionado pelo capitalismo atrelado à liberdade. O milagre a que chamamos simplesmente de vida. Vida mesmo, digo. Vida com vê maiúsculo.

Aí eu tive vontade de ir lá até as pessoas que falavam de ditadura e pedir que elas olhassem em volta e olhassem para si mesmas e olhassem para frente, para tudo de bom que com certeza vai acontecer se elas deixarem de olhar obsessivamente para o passado, se perdoassem o que aconteceu e que não cabe a elas reparar, simplesmente porque não há reparação capaz de satisfazer o infinito ressentimento histórico.

Mas não fui, claro. Porque tive medo de ser identificado como o Grande Inimigo da Liberdade ou como o lambe-botinas que evidentemente não sou. Pior: temi ser visto como um patriota. Logo eu, que não vejo nenhuma diferença entre os homens que vivem do lado de cá e do lado de lá da fronteira (qualquer fronteira).

Temi ser visto como qualquer coisa diferente do que eu era naquele instante: um menino de quarenta anos munido de um Olho de Boi, sentindo o sol queimar deliciosamente sua careca, ouvindo a anarquia de conversas, inalando odores de cem mil tipos de incensos e duzentas mil marcas de desodorante, enfim, absorvendo a vida  – vida mesmo, com vê maiúsculo – ao redor de si.

E imediatamente perdi a vontade de escrever que a liberdade de expressão pressupõe também a liberdade de ser canalha, de expressar a canalhice, de defendê-la, de propô-la e de, com alguma sorte, vê-la se transformar em motivo de riso e escárnio. Desisti de mencionar a liberdade de expressão como cláusula pétrea da Constituição – e de dar um jeito de dizer que essa cláusula foi esculpida em pedra-pomes. Abdiquei de ser elogiado pelo meu bom-senso por meia-dúzia e incompreendido por meu evidente adesismo ao neofascismo tupiniquim por dúzias de dúzias.

Agora o Olho de Boi está devidamente pendurado na parede da minha casa. E eu estou de pé diante de dele, admirando aquele pedacinho de papel que deve ter uns cento e cinquenta anos. Imaginando o que dizia a carta da qual um dia ele fez parte. Quem era o remetente e quem era o destinatário. E qual a reação deles se eu lhes dissesse que, cento e cinquenta anos depois daquela carta, as pessoas (algumas) desperdiçariam a manhã do domingo para lutar contra moinhos de vento, ignorando a liberdade e a abundância ao redor de si.