Uma leitura ruidosa
por Paulo Polzonoff Jr.

Mulher de um homem só, de Alex Castro, é um bom livro. O problema é que o romance (ou novela, como preferem alguns) é uma daquelas obras impossíveis de serem admiradas por si só. É um trabalho contaminado por ruídos de vários tipos. Eu gostaria muito de ter lido Mulher de um homem só sem pensar em todas as coisas extraliterárias que o livro evoca. Porque, repito, o livro é bom.
Comecei a lê-lo ainda na tela do computador, numa cópia digital a mim enviada pelo autor. Abri o arquivo sem nenhuma intenção de ir além da segunda página e, quando vi, já estava no meio do livro. Mulher de um homem só parece ter um cuidado todo especial com a velocidade da narrativa. O fato de não ter divisões pode, num primeiro momento, assustar, mas depois se percebe que esta estrutura combina perfeitamente com o estilo do autor: rápido como um fluxo de pensamento, mas coerente como toda boa narrativa tradicional.
O maior trunfo do livro, claro, é a narradora e as ambigüidades por ela evocadas. Ao usar a primeira pessoa onisciente, Alex Castro acaba por fazer com que duvidemos de tudo o que Carla nos conta. Este filtro pouco confiável é que dá profundidade a um romance que, na superfície, parece conter apenas algumas boas e engraçadas discussões sobre as relações amorosas atuais e sobre o conflito íntimo de uma mulher ao mesmo tempo moderna e conservadora.
Como disse anteriormente, o problema do livro são os ruídos. Impossível chegar ao fim de Mulher de um homem só e não se perguntar, por exemplo, por que o romance não foi publicado com o aval de uma grande editora – uma questão levantada pelo próprio autor já há alguns anos. Assim como é impossível lê-lo sem se deixar contaminar pelas muitas palavras de Alex Castro em outros textos.
Não sugiro, aqui, que se cale o autor nem que se encerrem as discussões sobre o mercado editorial. Mais do que um romance, de certo modo Mulher de um homem só e todo o seu entorno são sintomáticos de uma nova maneira de se fazer literatura. É um fenômeno, por assim dizer. Um livro ao redor do qual orbitam luas que, infelizmente, acabam por eclipsar o planeta.