Uma boceta de palavrões

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Cresci numa casa onde era proibido falar palavrões. Crime gravíssimo, punido com uma medieval cintada na bunda. Isso, claro, só tornou os palavrões ainda mais fascinantes para a criança algo rebelde que fui. Não entendia o poder transgressor daquelas palavras e ao mesmo tempo me admirava com a capacidade que elas tinham de fazer rir, enraivecer ou ruborizar o ouvinte/leitor, sobretudo a minha avó (que, apesar disso, não hesitava em soltar um nada ingênuo “cazzo”).

Meus primeiros contatos com palavrões se deram graças à falta de educação, deselegância e provocação mesmo de uns tios e primos bocas-sujas nas festas familiares. Eles diziam merda e cu como quem diz pão e leite. E eu ria feito o completo idiota que sempre fui. Quando voltava para Curitiba e tentava reproduzir aquele vocabulário, acabava com a bunda vermelha de tanto apanhar. Ou seja, eu tomava no cu.

O castigo, porém, não funcionou. E os palavrões continuaram a fazer parte da minha rotina proibida na escola, entre amigos. Com o passar do tempo, algumas lições que tive de professores heterodoxos amenizaram o impacto dos palavrões em meus ouvidos e, por consequência, boca e pena. Um professor, por exemplo, me convenceu de que o tom de voz (e do texto) era capaz de transformar um filhodaputa no maior dos elogios. Nunca me esqueci das maravilhosas aulas do Élio – aquele filhodaputa!

Passei muito tempo usando palavrões como quem usa verbos de ligação. Não foi por mal. Acho que me tornei simplesmente insensível a eles. Caralho se transformou em vírgula; porra era só um vocativo. E os palavrões teriam continuado assim para mim não fosse a interferência, ontem, de um algoritmo ou robô pudico que me “repreendeu” por ter escrito a crônica “Um texto de merda”. Passei a noite em claro (mentira), me perguntando se deveria trocar o merda por bosta ou fezes e no efeito que isso teria em mim e nos meus textos.

Acordei e soltei um “foda-se” o mais ingênuo possível. Até porque os palavrões perderam muito da força que tinham há vinte anos. Aliás, quem é que determina o que é ou não palavrão? Quem proíbe ou permite um “putaqueopariu” no meio da entrevista ao vivo ou um jornalista esportivo soltando um “chupa!” no meio de uma mesa-redonda? A reprimenda (não ouso falar em censura) lexical não me parece ter a ver com decoro, bom gosto, refinamento ou puritanismo; me parece algo completamente aleatório e por isso mesmo autoritário. E, vamos combinar, algo datado pra caralho.

Palavrões são um fenômeno fascinante da língua. O que era ontem deixa de ser hoje para quem sabe voltar a ser amanhã. Chato, por exemplo, já foi palavrão – se você não sabe, chato é, na origem, um termo para se referir ao piolho dos pentelhos. Pentelho, aliás, perdeu seu poder de palavrão há tempos, desde que Faustão popularizou a palavra nas tardes de domingo. Por outro lado, boceta (assim, com “o”) não era palavrão na época de Machado de Assis – como constata qualquer adolescente que ri ali nas primeiras páginas de Dom Casmurro. Babaca era termo africano vulgar para a buceta (assim, com “u”), mas, por algum motivo que me escapa, virou sinônimo de alguém ingênuo, idiota, tolo. E biscate sempre foi para mim palavrão dos mais severos, até que um dia ouvi Cid Moreira, em pleno Jornal Nacional, dizer que “Fulano vivia de biscates”.

Há limites para os palavrões, me pergunto? Este texto, por exemplo, seria publicado num jornal? Seria transmitido pelo rádio? E o que os palavrões, a depender do contexto, expressam realmente? A merda do meu texto (sic), por exemplo, não é exatamente merda, ainda que o algoritmo ou robô (e até tu, leitor?) sejam incapazes de notar a diferença. E todo palavrão aqui contido nesta boceta virtual está isento do insulto, da raiva e até da violência que normalmente talvez eles expressassem.