Um texto também ele nublado

by Paulo Polzonoff Jr. on October 15, 2016

 

Cabe a mim, neste espaço, resenhar ou criticar, como queiram, livros de autores paranaenses. À procura de um livro que se enquadrasse nesse critério simples, me deparei com Dias Nublados (Arte & Letra), de Luis Felipe Leprevost. Me encontrei por acaso com ele numa livraria e, conversa vai, conversa vem, recebi o livro autografado “ao meu irmãozinho”, com total liberdade para escrever a respeito.

Foi uma conversa agradável, como sempre é com Leprevost. Conheço-o desde que ele era um estagiário no Jornal do Estado. Sempre fomos amigos, apesar das nossas diferenças quanto à arte. Resenhei um livro dele para o Jornal do Brasil, dizendo que era um poeta com potencial. Hospedei-o em minha casa quando morava no Rio e até consegui para ele uma ponta num seriado da Globo. É alguém a quem estimo. E alguém a quem não quero mal nenhum – até porque não desejo mal para ninguém.

Foi com esse espírito que escrevi a crítica de Dias Nublados. Era uma crítica negativa – não porque o considere um escritor incapaz; era uma crítica negativa só porque não houve comunicação entre mim e o livro. Na crítica eu tentava, como sempre, usar um pouco de humor para falar das coisas que não me agradaram. E ressaltava, já no título, que era uma infelicidade o fato de não ter gostado do livro.

Leprevost nunca leu a crítica. Mandei-a para meu editor e, no mesmo dia, pedi ao escritor uma entrevista, avisando que seria algo leve, pedindo que ele abusasse do humor nas respostas. Estava diante do computador, pensando em perguntas absurdas que fugissem do lugar-comum, quando recebi uma enorme mensagem de Leprevost dizendo que não responderia a nenhuma pergunta minha e me pintando como um monstro repugnante por ser amigo dele e não ter gostado de nenhum de seus livros.

A mensagem me destruiu. Principalmente por ter vindo de um amigo, mas não só. Me destruiu porque serviu para confirmar meus maiores temores: (i) o de que os escritores ainda se levam a sério demais e (ii) o de que as pessoas acham que sou mau-caráter ou, para usar uma terminologia psicanalítica que me é cara, perverso ao escrever sobre livros de que não gostei. Como se eu causasse dor aos escritores por mim resenhados – e sentisse um prazer sádico com isso.

O primeiro destes temores é, como não poderia deixar de ser, uma imensa decepção. Realmente esperava que escritores ou poetas, sejam eles curitibanos, acreanos ou nigerianos, não se levassem tão a sério.  Sei que escrever um livro é algo mágico e muitas vezes sofrido, sei que alguns escritores se expõem demais e pagam caro por isso, sei que outros depositam naquele objeto toda a sua esperança de reconhecimento e autoafirmação. Mas no meu mundo nada é assim. No meu mundo, que é um mundo essencialmente infantil, sempre imagino o escritor lendo uma crítica, principalmente uma crítica negativa, como uma possibilidade de aprendizado ou, melhor ainda!, uma reafirmação das opções estéticas do autor. Porque minha palavra nunca teve pretensões absolutistas – nem nunca terá.

O segundo temor é mais complicado. Já perdi muitas noites de sono pensando nas escolhas erradas que fiz na vida – e não foram poucas. Eu poderia ter sido mais “político” – e hoje talvez não vivesse num melancólico ostracismo. Poderia ter optado pela crítica “científica”, sem adjetivos ou humor, aquela crítica que considero inútil e enfadonha. Poderia muitas coisas, mas resolvi ser fiel a mim mesmo e, pior, resolvi apostar na maturidade dos meus interlocutores. Mais uma das muitas escolhas erradas que fiz na vida.

Não. Eu não quero o mal de ninguém ao escrever uma crítica negativa. No meu mundo, que já reconheci ser infantil, o autor que se deparar com um texto meu vai, na melhor das hipóteses, rir aqui e ali de alguma imagem que construí, concordar com algo ou não concordar com nada, deixar a revista ou jornal de lado e seguir com a vida feliz. Confesso-me patologicamente incapaz de imaginar alguém se sentindo magoado com palavras que certamente não foram escritas para magoar.

Foi assim que pedi ao editor que não publicasse a crítica que escrevi a Dias Nublados. Sei que é tarde demais para reparar danos pretéritos, mas que ao menos se estanque aqui a hemorragia. Porque não, não sou cruel, mau-caráter ou sádico; sou, no máximo, um idiota (e chato) que tenta fazer o certo escrevendo textos é são apenas uma forma de diálogo entre almas leves. E sobretudo alguém que tem consciência da própria insignificância.