Um texto que não propõe
por Paulo Polzonoff Jr.
Sempre que entrava na filial da livraria Saraiva do shopping Ibirapuera, aqui perto de casa, ficava espantado ao perceber que a parte reservada à literatura brasileira fica num cantinho lá nos fundos, escondida como se fosse obrigatório e ao mesmo tempo vergonhoso tê-la. Nunca entendi o porquê de praticamente todas as livrarias reservarem um espaço próprio para a literatura brasileira.
Nos últimos meses, contudo, tive de ler quatro livros da tal literatura brasileira – e acabei por entender o porquê da distinção. Na verdade é muito simples: literatura brasileira não é mesmo como a outra literatura. Aqueles livros lá escondidos têm um propósito bem diferente dos livros expostos ali na entrada da loja. Literatura brasileira é feita para quem gosta de literatura; o resto, bem, o resto é feito para quem gosta de ler.*
E aqui não faço aquela velha pregação em favor da literatura de entretenimento, que teima em opor Harry Potter a Shakespeare. No Brasil, o buraco é bem mais embaixo. O problema aqui é que os escritores dão aos leitores exatamente o que eles querem: virtuosismo, estrutura, composição de personagens – toda esta lenga-lenga. No processo, se esquecem do mais importante: contar uma história.**
A qualidade literária no Brasil é medida levando-se em conta aspectos técnicos. Sintoma, acho, da bakhtinização do meio. O mais engraçado é que cada vez mais me convenço de que na boa literatura estes aspectos técnicos passam despercebidos aos olhos do leitor. Literatura boa, brasileira ou não, é como um espetáculo de ventriloquismo no qual não se percebe o ventríloco mexendo a boca.
Agora é que a porca torce o rabo, porque seria muito fácil acusar os escritores, velhos e novos, de falta de talento crônica. Mas me parece que boa parte da culpa deste fenômeno é dos leitores. Sim! Dos pouquíssimos e minguantes leitores da literatura brasileira. Uma gente pernóstica que adora empinar o nariz para dizer que leu Fulano (repare que nunca se lê o Livro, e sim Fulano) e que ficou impressionada com a estrutura, a técnica, os personagens e o escambau.***
Ao contrário do que se possa imaginar, não proponho nada. Sei que pode parecer difícil para muitos entender a possibilidade de um texto que não propõe nada, que não dita nada. Mas. Não acho que a literatura brasileira tenha de se adequar. Nem acho que as livrarias tenham de misturar seus estoques. Tampouco sugiro que os leitores e os escritores mudem o que estão fazendo.
Apenas constato – e sem sofrimento, apenas com um pouco de raiva pelo tempo perdido – que a literatura brasileira, seus escritores e leitores, o mercado exíguo e cada vez mais dependente do apoio estatal se merecem.
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* Sei que há exceções.
** Sei que há exceções.
*** Sei que há exceções.