Um Outro e Desprezível Paulo

by Paulo Polzonoff Jr. on April 5, 2017

 

Para CG, meu “algoz” nesta história

 

Era 1998 ou 1999. (Ou até mesmo 2000 ou 2001. Sinceramente, que diferença faz?) Eu estudava pela manhã (quando a universidade não estava em greve) e passava as tardes escrevendo e mandando rudimentares e-mails e jogando SimCity ou coisa assim. Numa destas tardes, abro meu paleontológico e-mail do Yahoo! para nele descobrir uma mensagem de alguém que, para mim, até então era um conhecido cordial com que tive discordâncias muito superficiais sobre qualquer coisa idiota. A missiva era violenta, ou pelo menos é assim que me lembro dela. E culminava com uma “acusação” incisiva: “Você não tem cacife para ser um Paulo Francis”.

Sim, na época queria mesmo ser Paulo Francis. Mais por ingenuidade do que por temperamento. Gostava da ideia de falar das coisas que considerava boas e ruins com liberdade e humor. De cunhar expressões que se tornassem assim bordões intelectuais. De escrever frases curtas, de ter um estilo quase telegráfico. Gostava de muitas coisas em Paulo Francis e sonhava, sim, em ser como ele. Era o Norte de que dispunha na época. Não me envergonho.

A mensagem se perdeu, mas a frase ficou. A vida seguiu e eu fui lá tentar ser o Paulo Francis. A meu modo. Acertei no varejo e errei no atacado. Tive lá meus momentos de pequena glória. E experimentei algumas das maiores decepções da minha vida. Disse o que queria sobre as coisas que queria. Ri muito. Mas acho que chorei mais.

“Você não tem cacife” ficou na minha cabeça este tempo todo. Como um alerta. Ou melhor, como uma maldição. Certa vez, numa mesa redonda com outros escritores e críticos, passei a maior parte do tempo calado ou respondendo a tudo com monossílabos. Não era timidez; era a frase ecoando na minha mente. Me chicoteando. Depois do debate, um amigo se aproximou e disse que eu estava irreconhecível. Me senti um covarde e vi a profecia se realizar: eu não tinha mesmo cacife.

Não tinha. Nunca tive. E hoje sei que nunca pretendi ter. Paulo Francis era somente um personagem idealizado por aquele imberbe aspirante a qualquer coisa que precisava desesperadamente ser aceito. Era um papel que sonhei interpretar somente até vivenciar a realidade daquele palco sujo e escorregadio.

Mas o que ainda hoje me pergunto é outra coisa: por que dizer uma coisa dessas a um estudante de jornalismo evidentemente empolgado? Por que destruir um sonho, por mais ridículo que seja? Por que esfregar na cara de outra pessoa toda a sua fragilidade e insegurança? Por que marcar tão negativamente a vida de alguém?

Concedo que meu interlocutor era também ele jovem e impetuoso e que as palavras são mesmo umas diabinhas. Além disso, há na minha fixação pelo ocorrido um bocado de sensibilidade exacerbada, aquilo que um bom amigo chamava de polzonofite. Fica, porém, a dúvida: a perversidade permanece ou seria hoje motivo de risadas e de um abraço afetuoso numa mesa de bar?

Seja qual for a resposta, tenho de dizer aqui que, se um dia quis ser como Paulo Francis, de certa forma consegui. Estando “tecnicamente morto”, como ele dizia. E ouvindo Wagner. E rindo de comédias tolas. E lendo Shakespeare num dia e tramas policiais noutro. E tirando sarro daquilo que achava digno de riso (tudo?). E sobretudo tentando ignorar minha evidente e majestosa irrelevância.

Ou seja, tendo cacife para ser apenas quem sou: um outro e desprezível Paulo.