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Um livro não é um livro não é um livro

Reza a lenda que JD Salinger deixou de publicar suas histórias porque queria que um livro fosse apenas um livro. Isto é, ele queria uma capa sem imagens, nada de orelha ou texto no verso e, evidentemente, nada do próprio nome ali estampado como se fosse, para o leitor, uma garantia de qualidade. Salinger queria que o livro fosse apenas um meio de transmitir histórias e conhecimento, sem o auê todo em torno do objeto e, por consequência e perversão própria do nosso tempo, do autor.

Mas a maior ambição de Salinger com esse projeto natimorto era mesmo a criação de uma espécie de leitor perfeito, puríssimo. Um leitor concentrado nas palavras, vivendo uma experiência de leitura imaculada, sem qualquer mancha ou influência do que disse Beltrano e Sicrano (sem falar no Fulano, aquele idiota!). Um leitor zen de uma literatura idem.

E há livros que conseguem ser assim apenas um livro. Não como Salinger queria, até porque o mercado editorial não pode prescindir de seus autores-estrelas e de seus capistas hipercriativos (e também porque só o zen é zen). Mas ainda assim um livro, uma história que você acompanha com interesse e que, com alguma sorte, vai embalar seus sonhos ainda por algum tempo. Uma narrativa que você vai evocar do nada no meio de uma conversa ou que vai recomendar a um amigo.

Mas há livros que, por circunstâncias alheias tanto ao escritor quanto ao leitor, são muito mais do que um livro. Ou melhor, muito menos. Há livros que são a realização de um sonho; outros, a evidência de um pesadelo, tanto para o leitor quanto para o próprio escritor (mas, neste caso, para o leitor). Há livros que fazem parte de uma iniciativa política internacional (Cem Anos de Solidão e Dr. Jivago, por exemplo). Há livros que são a exaltação de tudo o que há de mau no tempo em que foi escrito ou no tempo em que está sendo lido. Há livros que, sinceramente, e a despeito da qualidade literária inegável, servem mais como peso de porta ou calço para a mesa.

Escrevo isso porque estava lendo um desses livros. Estava. Era minha terceira tentativa de avançar no romance. O livro é bom, talvez até ótimo e excelente, mas a cada página virada eu me arrepiava, me retorcia, me encolhia sob as cobertas, sentindo ao mesmo tempo pena e raiva de mim mesmo, com nojo desse ressentimento que não quero para mim, não, sai daqui, me sentindo pequeno diante de toda a força do mundo, o que quer que isso signifique, me sentindo sobretudo abandonado, irremediavelmente abandonado.

O escritor, coitado, não tem nada a ver com isso. O escritor, neste caso específico, é bom e merece todos os elogios (na verdade nem todos, mas não convém, aqui, fazer crítica de livro abandonado) que já andei lendo por aí. O escritor, eu tenho vontade de conhecê-lo, abraçá-lo, beber uma cerveja com ele, rir e conversar sobre todas as coisas do mundo, inclusive sobre literatura. O escritor, eu o admiro e desde já peço as mais sinceras desculpas.

Mas há livros, insisto, que não são apenas um livro. Você o compra e já à porta da livraria se arrepende. Sente um vento frio que não vem da rua, e sim da própria alma. Olha em torno e, de repente, percebe toda a pequenez, a mesquinharia. Próprias e alheias. Sente nojo de si, do mundo, do tempo. Mais tarde, já em casa, você se deita com o livro na cama e logo na primeira frase se sente sujo, não!, imundo e humano demais com essa inveja que não combina com você – nem com o livro.

Isso não aconteceria se todos os livros fossem apenas livros, como queria Salinger. Ou se todos os autores estivessem mortos. Ou se todos os leitores fossem assim seres puros e elevados. Ou ainda se, naquele dia, naquele exato momento em que abri o livro e li o primeiro parágrafo e as cem páginas seguintes, eu não tivesse me lembrado de uma, dez, mil conversas e quinhentas mil palavras e meia tonelada de rancores que não tinham nada a ver com o livro – e que, no entanto, o impregnavam.

 

(Texto originalmente escrito no Mínimo Múltiplo).

 

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