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Um humilde estudo da arrogância

Existem palavras simples que a gente usa sem atentar para o significado exato dela. “Arrogância”, por exemplo. Hoje me chamaram de arrogante (não pela primeira vez) e lá fui eu, num exercício humilde de autocrítica, pesquisar o significado de “arrogância” para entender o que sou.

O que li me surpreendeu.

Me informa um dicionário qualquer aí (Google) que arrogância é a “qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez”.

São muitos os problemas dessa definição.

Para começar, há a questão da suposta superioridade. Suposta aos olhos de quem? Do Outro, claro. Que, por motivos óbvios (alguém arrogante diria que “por suposta inferioridade moral, social, intelectual, etc”), pode muito bem sofrer de uma terrível falta de auto-estima.

A definição, por sinal, parte de um princípio igualitário que me parece perigoso. Ao “criticar” a ideia de uma superioridade (moral, intelectual, social e de comportamento), a definição de arrogância pressupõe a existência de um “meio ideal”, isto é, de um nível qualquer no qual todas as pessoas são igual e idealmente virtuosas. Qualquer coisa acima deste meio ideal seria, portanto, sinal inequívoco do grave crime de arrogância.

A arrogância parece também ser definida somente a partir de uma ação. Porque, veja bem!, o arrogante é aquele que “assume atitude prepotente ou de desprezo em relação aos outros”. Ora, mas e se a pessoa que se arvora a tal superioridade moral, intelectual, social e de comportamento ficar quietinha no seu canto? Ela deixa de ser arrogante? Ou a arrogância é assim como uma piada interna?

E aqui, mais uma vez, vale a pena humildemente estudar o Outro, isto é, aquele que parece identificar a arrogância na voz passiva. Meu amigo, será que você não deveria ter um pouco de orgulho próprio, de altivez, de “confiança no próprio taco”? Deixe de ser inseguro, menino!

Depois tem aquela parte lá do “orgulho ostensivo”. Ah, você quer me convencer de que o orgulho mudo, velado, é mais nobre e admirável? Isto é, aquele que se considera superior em silêncio deixa de ser arrogante?

Tudo isso para dizer que fui chamado de arrogante por aí. O que, evidentemente, me incomodou bastante. O suficiente para eu escrever este texto. Eu queria “pedir desculpas” dizendo que minha arrogância é sobretudo irônica, mas daí pensei que vão dizer que estou me considerando intelectualmente superior por pressupor que o Outro não entende ironia.

Não. Não desprezo aqueles que considero moral, intelectual e socialmente inferiores a mim. Ao contrário, vejo-os com extremo interesse, me perguntando constantemente como conseguem viver neste vácuo moral, nestas trevas intelectuais e nesta pobreza social.

(E agora, veja só que desgraça, estou me achando arrogante por supor que ninguém vai entender a ironia – inclusive autoironia – do parágrafo acima).

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Publicado comoUncategorized