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Um estoico distraído

Essa luta contra o ressentimento, contra o desejo de vingança, contra a inveja que dá origem a regimes totalitários (sem falar naquele seu câncer), meus amigos, essa luta é uma luta que não vale a pena lutar. Ao menos não às claras, ao menos não destemidamente, ao menos não com essa ridícula pontinha de esperança. Porque essa luta já foi lutada – e perdida – há milênios.

Os ressentidos, vingativos e invejosos (conscientes ou não) encontram conforto nessa curiosa cama de pregos. Ora (odeio textos que têm “ora”, mas… ora!), nada mais agradável – não, nem pipoca, edredon e friozinho! – do que poder culpar aquela pessoa que supostamente puxou seu tapete ou aquela pessoa que você supõe ter uma vida per-fei-ta; e nada mais motivador do que a vingança – algo que qualquer pessoa que assistiu a uma novela sabe.

O ressentimento nos torna para sempre crianças desprotegidas, procurando o colo do pai ou mãe simbólicos, sempre pedindo um carinho eternamente insuficiente e dando em troca um gracejo, quando não a ameaça de um ataque de birra. Mas (insira aqui mais um “ora!”) crianças são puras, você dirá; há beleza neste ser eternamente indefeso, impotente, vítima. O ressentimento é nossa recusa em abandonarmos o Paraíso – e quem pode nos culpa, não é mesmo?

A inveja já foi cantada em prosa, verso e para-choque de caminhão. Mais do que filha do ressentimento e prima da vingança, a inveja é o trunfo perverso da imaginação sobre a realidade, tendo sempre como ponto de referência alguém que você crê indigno de fortunas com as quais você faria mais e melhor, e como ponto de fuga a própria autoestima – o que independe desse seu nariz empinado aí.

A vingança, ah, a ardilosa vingança que se traveste de justiça, essa não vai começar num belo e sempre futuro dia de primavera. Ela está em curso desde que abandonamos as cavernas. Ao mover mundos para tornar a vida do inimigo miserável, o homem se sente realizado, sua vida parece ter propósito e Deus indica estar a seu lado, independente do lado em que você estiver.

Daí porque a “nobreza” despertada por certa “sabedoria” é sempre melancólica, encolhida, triste, impotente, silenciosa, fria e escura. A verdade, a dura verdade, a verdade verdadeira e espinhosa, a verdade que evitamos diariamente ao nos olhamos no espelho, a verdade que nos tiraria o sono se não nos entorpecêssemos de doces mentiras, a verdade que só enxergamos quando os olhos se fecham para sempre é bastante simples: os estoicos só rimos quando estamos distraídos.

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