Tão-somente

Tão-somente andava acabrunhada, os ombros curvos, uns olhos que sugeriam choro recente. Não saía mais de casa e seu limite no cartão de crédito estava quase estourado por causa dos pedidos no iFood. Alguém tinha que ir lá, puxar Tão-somente pelo braço, perguntar a ela o que aconteceu, porque alguma coisa aconteceu, e lhe dizer a única coisa que se pode dizer nessas horas: vai passar.

Eu fui. E a encontrei exatamente como o leitor imagina: Tão-somente estava sentada no sofá, usando calça de moletom e uma camiseta folgada sob uma coberta felpuda que lhe fazia as vezes de afeto. Ao me ver, ela abaixou a cabeça, envergonhada. Naquele gesto, entendi tudo, mas mesmo assim quis saber dos detalhes, porque sou alguém curioso, quando não enxerido. Queria detalhes, em parte por perversidade, reconheço, mas em parte porque sabia que os detalhes fariam com que Tão-somente olhasse para si e, com alguma sorte e um quê de pieguice, renascesse.

Ela contou e não me surpreendi. Andava Tão-somente na rua com o Autor Apalermado, o Tão ornado com umas maquiagens caras, o hífen envolto em rendas chinesas feitas à máquina, mas que queriam ser francesas feitas à mão, e o somente que balançava de um lado para o outro, exalando lascívia. E assim os dois, Tão-somente e Autor, passeavam nos finais de semana, depois do amor matinal e antes do vespertino. Às vezes ele lhe dava uma flor; às vezes ela lhe dava uma revista do Pato Donald. Estavam inegavelmente apaixonados – era o que diria qualquer detetive macabro de romance noir.

As andanças, contudo, se tornaram tão frequentes que começaram a importunar quem ali estivesse para testemunhar o amor colorido demais, felpudo demais, cremoso demais. Houve quem vomitasse ali na esquina mesmo ao ver, pela centésima quadragésima vez, o Autor Apalermado entregar a Tão-somente a mesma rosa comprada da mesma vendedora com cara de enfado e o mesmo espinho a lhe furar o dedo rechonchudo.

Tão-somente, então, entregava ao Autor Apalermado o dedo suculento, que ele sorvia como cavalheiro de outras eras. Sem perceber que ali, naquele momento, enamorado de Tão-somente, ele sem querer prestava homenagens ao demônio do ridículo.

Coube à Editora Severa, num dia assim como hoje, chamá-lo num canto e fazer o alerta. Tão-somente estava lhe consumindo a dignidade, o respeito, a admiração, essas coisas todas que o Autor Apalermado exibia no peito como broches do Clube da Vaidade. Tão-somente, com o tão tão maquiado, o hífen vulgar e barato, e o somente que não lhe negava a baixa origem. Fosse antes uma Apenas ou ainda uma Meramente. Mas Tão-somente era tão-somente uma tão-somente, indigna do Autor Apalermado, disse a Editora Severa.

E por mais severa que fosse, o Autor sabia que ela tinha razão. Lembrou-se de imediato, quase sem querer, como se a lembrança fosse um espirro daqueles que não dá para segurar, de quando andava para cima e para baixo com Todavia – e sua fala assobiada que mais tarde virou motivo de riso nas rodas com os amigos.

“E foi tão-somente por isso que ele não quis mais saber de você?”, perguntei a uma Tão-somente mergulhada num pote de sorvete.

Ela não precisou responder.

No dia seguinte, houve a tragédia. A tragédia que me traz a essa confissão tão cheia de culpa e remorso. Se ao menos eu não tivesse ido até a casa de Tão-somente para lhe dizer que eram belos o tão, o hífen e o avantajado somente. Se ao menos eu a tivesse deixado lá com o sorvete sabor abandono, assistindo a mais uma reprise de Law & Order SVU. Se ao menos eu não tivesse mentido, dizendo que ela era linda e poderosa e outros adjetivos assim exagerados que as pessoas usam diante do espelho para se convencerem de que são mais do que simples pessoas, de que são purpurina.

Se ao menos eu tivesse calado a minha boca, Tão-somente não teria saído de casa no dia seguinte para encontrar o Autor Apalermado na rua, de mãos dadas com uma soberana Apenas, os cabelos curtos na altura da nuca, muito pretos e muito elegantes; o nariz cheio de arrogância e a boca num sorriso tímido que era pura sensualidade. Apenas era advérbio de alta estirpe, aristocrata de origem remota. Contra Apenas, Tão-somente só podia fazer o que fez.

Ela saiu correndo, gritou meia-dúzia de palavrões que chocaram os ali presentes, fez ameaças que não faziam sentido, se jogou no chão, rezou, prometeu o que não tinha, cobrou o que o Autor Apalermado não lhe devia e, no auge do desespero, pediu:

“Me apaga”.

Foi o que o Autor Apalermado, num gesto de cruel caridade, se é que isso é possível, fez. Soltou a mão de Apenas que, alheia a tudo, contava quantos likes tinha no Instagram, sacou do bolso o Backspace que trazia preso a uma correntinha de ouro, e com toda a calma do mundo, como se fosse normal, como se a ele coubesse decidir sobre a existência ou não daquela criatura patética diante de si, começou a apagá-la de trás para frente.

Ao primeiro golpe, o “e” caiu no chão com um baque seco. Por sobre ele caíram o “t” e o “n”, e o outro “e” saiu rolando pela rua e caiu num bueiro. Sem demonstrar qualquer sentimento que não o de dever a ser cumprido, o Autor Apalermado deu mais um golpe e viu o “o” e o “s” e o hífen formarem já uma poça de letras na calçada. Ele parou para recuperar o fôlego, olhou em volta para ver se alguém o admirava, mas não, claro que não, nunca ninguém o admirava nessas horas, e com três movimentos cadenciados apagou o “o”, o “a” e o “t”.

Restou o til, que ele soprou e que saiu voando até pousar sobre um janelão.

Tão-somente, reduzida tão-somente a um amontoado de letras (sem o til), viu seu sofrimento se perder no Universo.

Apenas ajeitou os cabelos, riu sedutoramente, estendeu a mão para o Autor Apalermado e disse aquilo que todo homem sonha ouvir:

“Vamos embora daqui. Antes que surja um Entretanto para estragar tudo”.