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Sonhos

Quando estava no fundo mais fundo do poço profundo em que me enfiei por umas tristezas que nem vale a pena comentar, costumava dizer às pessoas que não tinha mais sonhos. E por um motivo simples: eu havia realizado todos os meus sonhos até então.

E não falo dos sonhos bobinhos que todo mundo tem. Se bem que esses também (com o perdão pela rima). Plantei minha primeira árvore ainda criança, no colégio. Passei por lá outro dia e vi que as árvores deram lugar a um condomínio, mas isso não é problema meu. Livros antes dos trinta eu já tinha escrito dois. E filho eu tenho um que é muito mais do que eu poderia ter sonhado um dia.

Para todos os efeitos, e a despeito da tristeza assustadora por trás daquelas cortinas pesadas e escuras, eu era um homem ultrarrealizado. Tinha amado todas as mulheres que quis amar, tinha conhecido todas as pessoas que quis conhecer, tinha escrito tudo o que sonhei escrever e tinha até trabalhado nas empresas que quis. E isso era um grande problema que eu não via como solucionar, a não ser morrendo e nascendo outra vez – equação da qual eu só conhecia a primeira parte.

Não sei se morri e nasci de novo. A imagem é muito comum e pobre, até mesmo para um texto apressado destes. Só sei que, nos últimos anos, me peguei tendo uns sonhos novos e deliciosos que só pecam por um motivo: eles não têm nada a ver com o sonho de todo mundo, o que me deixa com uma sensação incômoda de isolamento existencial que talvez um dia (provavelmente nunca) eu explore.

O fato é que hoje em dia tenho sonhos tinindo de novos, dentre os quais vou mencionar três que me ocorreram ainda agora há pouco no banho. Na verdade pensei em muito mais do que três sonhos, mas entre o banheiro e o escritório eu me esqueci da maioria. O que me faz pensar que um sonho bom para o futuro é ter uma memória melhor, mas só se eu puder continuar esquecendo tudo o que não vale a pena lembrar.

Onde estava mesmo? Ah, sim. Sonhos. O primeiro deles é pilotar (não sei se este é o verbo exato) um daqueles jatos d’água antimanifestantes. Imagino que hoje em dia o sistema seja todo automatizado, mas em meu sonho estou lá no alto, segurando a bazuca d’água, muito compenetrado, como convém, mirando nos manifestantes lá embaixo e jogando baldes e mais baldes de água fria neles, independente da causa que estejam defendendo.

O segundo sonho é mais simples e realizável, ainda mais se algum produtor rural estiver lendo este texto. Quero e vou, antes de morrer (a não ser que o avião caia amanhã), dirigir uma colheitadeira. É provável, contudo, que na vida real eu tenha de dirigir todo certinho, guiado por um sofisticado sistema de GPS. Mas, como sonho bom é sonho insano, minha vontade mesmo é de guiar a colheitadeira feito um louco por sobre hectares e mais hectares cobertos de trigo.

Por fim, mas não menos importante, ah, de jeito nenhum, talvez mais importante do que qualquer sadismo aquoso ou insanidade agrícola, sonho em um dia poder dormir abraçado a uma preguiça. Sim, bicho-preguiça. Dormir de conchinha, eu spoon e ela spoonee, estes dois seres magníficos numa disputa acirrada para descobrir quem dorme mais.

(Eu, claro).

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