Só um pouquinho

Eu sei que não devo me preocupar. Que, diante da adversidade, a primeira coisa a fazer é respirar fundo e ritmadamente. Sei que devo espantar os pensamentos ruins e substituí-los por formulações mais racionais. Sei que devo me perguntar “O que posso fazer quanto a isso?”. Sei que tudo é impermanente. E, na minha parede, há um quadro bem bonito no qual se lê “This too shall pass”.

Sei que a mente nos “prega peças”, como se dizia antigamente. Que é preciso meditar. E “entregar-se ao Acaso” ou simplesmente “surrender!”. (Aliás, quero fazer um quadro enorme e bonito com “Surrender!” para pôr na parede do quarto). Sei que os maus pensamentos, de acordo com a mecânica quântica (seja lá o que for isso!) atraem o Mal. E que, ao pensar bons pensamentos, faço com que o Universo conspire a meu favor.

Sei que a recompensa pela virtude é a virtude em si. Sei que não há justiça, que nosso desejo por justiça é o que nos torna essencialmente maus, que todo o conceito terreno de justiça gira em torno do ressentimento e da vingância. Sei que preciso perdoar – e não uma vez só; todos os dias perdoar e perdoar e perdoar.

Sei que as outras pessoas (e eu também, claro) são guiadas por um sistema complexíssimo, cheio de meandros que me escapam. Sei que não tenho controle. Jamais ousaria ter controle. Sei que é preciso coragem e força para abdicar do controle (olha o “Surrender!” aí de novo!) e que se deve combater o bom combate. Sei que é preciso se resignar diante da realidade. E aprender a admirá-la.

Sei que não sou nada, nunca serei nada e que, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Sei que só existe paz dentro de si. Sei que quem deseja sofre. Sei que quem sabe sofre. Sei que o que não tem remédio remediado está. E sei que, no fim, tudo acaba bem e que, se não acabou bem, é porque não chegou ao fim. Sei que, vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

O problema é que, mesmo sabendo tudo isso, há dias em que acordo com um peso sobre o peito e as costas curvadas demais às chibatadas do mundo. A voz falha, a respiração se torna errática. Não há como dormir e os sonhos despertos são pesadelos. Mesmo sabendo tudo isso – e mais um pouco –, às vezes me escapa a indignação que reconheço herética: por que as coisas não podiam ser um pouquinho mais fáceis?

Só um pouquinho.

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