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Senta que lá vêm dúvidas

É estranha a lógica das redes sociais e o fascínio que essa mesma lógica, ou melhor, falta de lógica, desperta nos usuários – eu entre eles. A coisa toda nasceu como uma forma de você expor ao mundo suas ideias mais interessantes e seus sentimentos mais aflorados, da tristeza à raiva, passando aqui e ali por um segundinho de felicidade. As redes sociais, portanto, seriam uma forma de comunhão, embora sem a Graça e a empatia. Mas qual o propósito dessa exposição? Ou, para usar uma imagem eclesiástica, o que pretende o Grande Confessor (e o que esperamos dele) que recebe de braços abertos nossos pecados cotidianos narrados com ou sem erros de ortografia e entremeados por emojis?

Lógica estranha, insisto e desenvolvo. Penso naquela pessoa que agora mesmo está abrindo esta rede social para escrever que está triste, que passou por uma decepção amorosa qualquer, que está prestes a ser demitida ou pedir demissão ou que está cansada. O que ela espera realmente ao expressar todas essas coisas? Qual o cenário que ela mentalmente projeta a ponto de justificar a exposição de suas mazelas?

Aqui escrevo sobre uma “pessoa”, assim sem qualquer resquício de personalismo, mas obviamente tenho a mim mesmo como exemplo. Passei anos (anos!) registrando tristezas e alegrias em redes sociais. E o que eu queria exatamente? Pior: o que eu esperava que acontecesse com o leitor que, em São Paulo, Natal ou Macapá, lesse as agruras e arroubos do meu cotidiano?

Na época eu não sabia, mas hoje sei bem o que eu esperava. Porque tive a oportunidade de parar e pensar. Quer saber? Eu esperava por um milagre. Esperava que, ao me dizer cansado, a porta de casa se abrisse e por ela entrasse uma mulher para passar a mão na minha cabeça, tirar meus sapatos apertados e me pôr na cama – para dormir. Ao me dizer triste, esperava que o telefone tocasse e que do outro lado alguém me confortasse com chavões necessários. Ao registrar minhas maiores e angústias e preocupações, imaginava o milagre da mão amiga dizendo: “Eis aqui a oportunidade pela qualquer você tanto ansiava”.

Ao mesmo tempo, ao registrar momentos alegres (sempre mais raros), que iam desde epifanias complexas até o prazer de comer uma fruta-do-conde pela primeira vez, esperava que do outro lado alguém abrisse o sorriso mais largo do mundo ou que, no caso da fruta, salivasse. Esperava que alguém aparecesse para me dizer que agora – agora! – eu era uma pessoa digna de estima e companhia, você não quer tomar um café comigo e ser meu amigo para sempre ou até casar comigo, sei lá?!

Há quem também registre os sentimentos cotidianos como forma de arquivo pessoal. E os que percebem em tudo o que escrevem nas redes sociais um potencial literário. Aqui, novamente, sou obrigado a perguntar uma pergunta que também é para mim: você realmente acha que alguém vai ler o post ou texto brilhante (e às vezes é mesmo brilhante, fazer o quê?) que você escreveu e sair por aí exaltando suas qualidades?

Você acha que alguém vai mesmo amá-lo, no sentido mais amplo da palavra, porque você escreveu O Melhor Microconto do Mundo, porque ficou feliz ao comer fruta-do-conde pela primeira vez ou porque está cansado depois de um dia de trabalho?

Você acha que alguém se importa?

E não, a ironia de estar escrevendo este texto e o divulgando as redes sociais não em escapa. Tampouco me incomoda. Porque agora, neste exato momento, o que prevalece no autor não é a esperança de encontrar solidariedade (quase escrevi cristandade), compaixão, generosidade, curiosidade e de vivenciar todo aquele sonho que ganha forma em nossa cabecinha assim que apertamos o botão de “compartilhar”.

Se escrevo o que escrevo é para propor ao outro uma dúvida que ele provavelmente nem sabe que tem e eu, por acaso, acabei de ter: que lógica é essa que nos move a existir para além de nossas vidas, a ponto de muita vezes nos identificarmos mais como avatares e arrobas do que como aquilo que somos quando não há sinal de wi-fi no ambiente?

Como odeio terminar texto com ponto-de-interrogação, escrevo este último parágrafo para dizer que, sei lá, tô cansado.

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