Se esparrama pelo chão


Tive o prazer imensurável, inenarrável e inesquecível de ler o manuscrito de “Se Esparrama Pelo Chão”, segundo volume da aguardada Tetralogia da Batata, do poeta, ensaísta, dramaturgo, mecânico e, só por acaso, meu amigo Hugo Peretti. Trabalhando oito horas por dia numa ancestral máquina de escrever, ouvindo Leandro & Leonardo e parando aqui e ali para ir ao banco ver se, nas palavras dele, “pingou mais um dinheirinho” proveniente de seu incrível livro de estreia, “Batatinha Quando Nasce”, Peretti espera concluir a tetralogia daqui a dois ou três anos.

“Batatinha Quando Nasce” vendeu trezentas e cinquenta e duas cópias e, embora não tenha chegado ao tipo da lista dos mais vendidos, durante vinte vezes ocupou o honroso segundo lugar, atrás apenas do não menos genial “Mamãe pro cafezá” (conhecido em alguns lugares pelo título alternativo de “Mamãe foi trabaiá”), de Vânio Karlos. Como Vânio Karlos não vai com a minha cara, porém, e está me devendo uma cerveja, sou obrigado a dizer que seu livro é uma bosta, mesmo não sendo.

Mas voltemos ao “Se Esparrama pelo Chão”, que é o que importa. Se você se emocionou, no primeiro livro da tetralogia, com a saga da Batatinha que nasceu numa plantação no interior de Santa Catarina, e tenho certeza de que você chorou muito, a não ser que você não tenha um coração, eu o aconselho a ir preparando a garrucha velha para cometer suicídio, porque “Se Esparra pelo Chão” é, como o próprio título indica, um soco no estômago, no fígado ou no queixo, o que doer mais.

A história gira em torno da infatigável Batatinha que, tendo nascido, agora passa inacreditáveis cento e vinte páginas se esparramando pelo chão. O talento de Peretti é tamanho que nem nos damos conta do esforço necessário para realizar tal empreitada. Ele se inspira nos épicos gregos, romanos, hindus e até nos obscuros relatos de guerreiros urdus para compor uma epopeia de apelo universal. Já na primeira página você, leitor, percebe que é a Batatinha, que você nasceu e que agora não há o que fazer se não se esparrar pelo chão.

A força poética da prosa dramatúrgica de Hugo Peretti é tamanha que gerou até um problema na editora que tem a honra de publicá-lo. Dois funcionários que estavam na empresa há vinte anos se engalfinharam numa luta insana, um tirando sangue do outro e sem que nenhum vencesse realmente a contenda, depois de uma acalorada reunião na qual um deles ousou propor que o livro fosse intitulado “Espalha a Rama pelo Chão”. Por fim, a questão foi resolvida por sorteio e o funcionário que havia iniciado a dissidência acabou por se matar. Que Deus o tenha.

Como sou uma pessoa importante, influente e manipuladora, consegui convencer o grande Peretti a me adiantar algo sobre seu trabalho futuro. Bêbado e na sarjeta, como é adequado a um gênio, ele me confidenciou que suas ideias ainda estão um tanto quanto confusas, mas que provavelmente o terceiro livro da tetralogia traga uma reviravolta na história da nossa querida Batatinha (tão querida que deve receber o título de Patrimônio Imaterial do Brasil até o fim do horário comercial). “Não posso adiantar muita coisa. Primeiro porque não quero e depois porque não sei direito. Mas é bem possível que no próximo livro haja uma menininha ou criancinha ou qualquer coisa polêmica assim. Sabe como é, eu gosto de surpreender”.

“Se Esparrama pelo Chão” será lançado no próximo dia oito, às dezesseis horas, no Estádio Couto Pereira. Não há ingressos disponíveis, mas se você quiser eu arranjo um para você.