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Ressurreição cotidiana

Às vezes, aqui no Cristo Rei, com o tumulto diário de dois hospitais, ônibus biarticulado, carros e o histérico trem, faz um silêncio absurdo, meio mágico, e é como se eu estivesse dentro d´água. Nessas horas (acabou de acontecer!) eu me levanto, não raro assustado, me perguntando se caiu um meteoro nas redondezas e ninguém me avisou. Vou até a janela e vejo que até as árvores (umas palmeiras que não combinam nada com Curitiba) fazem silêncio. Até que, invariavelmente, passa uma moto ou um Fusca 78 – e saio do meu transe milagroso.

E epifânico. Nesses momentos, sempre me descubro ao mesmo tempo pequeno e grande. Pequeno porque, no silêncio incomum de uma tarde movimentada na metrópole, percebo que não passo de um indivíduo adulto sobre um corpo celeste rochoso que dança elipticamente na imensidão do espaço. Grande porque – milagre dos milagres! – sou essa criatura fantástica capaz de refletir sobre minha própria pequenez – para, logo depois, sentir (e o verbo aqui é importante) que não há absolutamente nada de ordinário neste Homo sapiens que admira o silêncio à janela.

Volto aos afazeres. Mas o silêncio se agarra em mim como maresia. Lavo a louça pensando se alguém mais percebeu que o mundo pareceu parar por alguns segundos? Lavo atrás da orelha, perguntando ao banheiro vazio: será que mais alguém se deu conta da pequena grandeza ou grande pequenez que é a vida?

Passa uma ambulância. E outra. Um mendigo grita algo ininteligível. O ônibus biarticulado acelera. Alguém buzina e outro alguém está calibrando os pneus no posto da esquina. Passa moto, passa Fusca 78. Aos poucos, me transformo no homem confuso de todas as horas. Um homem num diálogo permanente e ruidoso com suas próprias crises e medos e alvoroçadamente entusiasmado com seus sonhos e delírios.

Até o próximo meteoro.

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