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Quem sou eu

Sou este homem que diz sempre “muito prazer” ao conhecer um estranho, mesmo que seja mentira. E que, ao longo da conversa, sempre dá um jeito de encaixar um “tô cansado”, mesmo não estando. Porque, no fundo (ou nem tão no fundo assim, vai), sinto uma inveja danada daquelas pessoas que chegam ao fim do dia sem tempo ou energia para refletir sobre a singularidade ou para criar super-heróis heterodoxos em textos que não encontram leitores nunca.

Sou este homem louco para conversar com alguém, eternamente carente de amigos ou mesmo de colegas ou conhecidos ou não. Ao me deparar com essa figura mítica que é o Amigo, sou daqueles que falam atabalhoadamente, como se precisasse expressar tudo o que penso de tudo numa única frase, a fim de que ele, o amigo, me admire ou quem sabe me ame um pouquinho. A coisa está tão feia neste sentido que, na atual conjuntura, confesso que sinto falta até de um não-amigo, desses bem falsos mesmo, para tomar um café no fim da tarde e depois sair falando mal de mim por aí.

(Sou alguém que abriu este parêntese antes de continuar porque não consegue pensar numa forma de prosseguir com o texto sem insistir na fórmula narcisista do “sou este homem” no começo de cada parágrafo. Pois é… Sou alguém que tem esse tipo de preocupação).

Sou este homem (às favas os escrúpulos estilísticos!) que adora ouvir histórias, desde que você não arraste muito as palavras. Gosto ainda de contar essas mesmas histórias, mas se você me permitir vou mudar um pouquinho aqui e ali para ficar mais interessante – e também para esconder esse seu péssimo hábito de não usar os plural. Quando estou assim de bobeira, sou também o homem que cria histórias – você saberia disso se largasse de vez em quando as redes sociais para me ler!

Sou este homem assim meio triste, mas com uns arroubos espetaculares de alegria. Digo a todos que fiz as pazes com o passado, mas ninguém acredita (é verdade!). Apesar de já ter pensado muito em me matar (e de me arrepender por ter exposto este tipo de pensamento ao mundo), amo absurdamente a vida e, às vezes, assim antes de dormir, me imagino escrevendo sobre coisas prosaicas como o ato de respirar. Me falta a veia messiânica, infelizmente, mas tenho, não nego, essa mania de querer que as pessoas percebam o grande milagre que é a vida.

Sou este homem que já leu alguns livros, já assistiu a alguns filmes (sou este homem que usa esta regência em desuso), já ouviu umas musiquinhas por aí. Quem comeu diz que meu feijão é o melhor do mundo, mas orgulho mesmo eu tenho é do meu strudel. Só falo de política em casa e entre amigos (mas, se você leu o segundo parágrafo, a essa altura já sabe que amigo é um recurso escasso por aqui), de preferência rindo de tudo e de todos. Falo palavrão demais (se bem que até agora nada) e não bebo refrigerante há vinte… dias.

Sou, enfim, este homem que é só um homem entre três bilhões e meio de homens – e que no entanto é, de alguma forma, especial. Porque estou vivo, porque me interesso, porque recebo e retribuo, porque rio mais do que choro, porque me preocupo às vezes demais com umas coisas bobas e sobretudo porque sou este, e não aquele, homem.

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