Ressurreição cotidiana

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Às vezes, aqui no Cristo Rei, com o tumulto diário de dois hospitais, ônibus biarticulado, carros e o histérico trem, faz um silêncio absurdo, meio mágico, e é como se eu estivesse dentro d´água. Nessas horas (acabou de acontecer!) eu me levanto, não raro assustado, me perguntando se caiu um meteoro nas redondezas e ninguém me avisou. Vou até a janela e vejo que até as árvores (umas palmeiras que não combinam nada com Curitiba) fazem silêncio. Até que, invariavelmente, passa uma moto ou um Fusca 78 – e saio do meu transe milagroso.

E epifânico. Nesses momentos, sempre me descubro ao mesmo tempo pequeno e grande. Pequeno porque, no silêncio incomum de uma tarde movimentada na metrópole, percebo que não passo de um indivíduo adulto sobre um corpo celeste rochoso que dança elipticamente na imensidão do espaço. Grande porque – milagre dos milagres! – sou essa criatura fantástica capaz de refletir sobre minha própria pequenez – para, logo depois, sentir (e o verbo aqui é importante) que não há absolutamente nada de ordinário neste Homo sapiens que admira o silêncio à janela.

Volto aos afazeres. Mas o silêncio se agarra em mim como maresia. Lavo a louça pensando se alguém mais percebeu que o mundo pareceu parar por alguns segundos? Lavo atrás da orelha, perguntando ao banheiro vazio: será que mais alguém se deu conta da pequena grandeza ou grande pequenez que é a vida?

Passa uma ambulância. E outra. Um mendigo grita algo ininteligível. O ônibus biarticulado acelera. Alguém buzina e outro alguém está calibrando os pneus no posto da esquina. Passa moto, passa Fusca 78. Aos poucos, me transformo no homem confuso de todas as horas. Um homem num diálogo permanente e ruidoso com suas próprias crises e medos e alvoroçadamente entusiasmado com seus sonhos e delírios.

Até o próximo meteoro.

Elogio da alienação

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Há quem comemore a politização extrema do brasileiro contemporâneo. Não faltam aqueles que exaltam o “único lado bom” da atual crise política: o cidadão comum está tão imerso no debate político que sabe o nome de deputados, senadores e até dos ministros do Supremo. O que é, evidentemente, uma tragédia. Povo politizado não é só povo infeliz; é povo oprimido.

O mito do povo politizado faz parte, como não poderia deixar de ser, da narrativa da esquerda. Sempre foi assim. Ainda nos bancos escolares dos anos 1980 eu ouvia dizer que era importante se interessar por política. Fui obrigado a estudar num livro do Frei Betto (apesar de frequentar um colégio católico e de ter por professora de OSPB uma alemã seminazista) que celebrava o interesse popular por conceitos como meios de produção, cultura de massa e outras bobagens.

“Ah, mas brasileiro só gosta de carnaval, futebol e novela”, repetia a linda professora de história na minha oitava séria, o nojinho escorrendo pela boca. Em seu ideal lobotomizado, o povo (esta abstração monstruosa) deveria conhecer profundamente a Constituição de 1988 e, se calhar, até os meandros dos regimentos internos da Câmara, Senado e STF. O povo deveria abdicar da novela para discutir a reforma agrária, a legalização do aborto, a urgência dos banheiros trans.

Ora, se hoje até o cobrador de ônibus sabe quem é o presidente do Supremo (“aquele amigo no Lula, como é o nome? Lewistrowski, sei lá”) é porque vivemos uma verdadeira tragédia. As pessoas só se interessam pelo Governo quando o Estado se torna tão grande que seus tentáculos invadem as casas para assombrá-las. Num país decente, ninguém sabe o nome dos integrantes da Suprema Corte por um só motivo: isso não os afeta.

Povo feliz é povo tão desinteressado pela política que nem vota – até porque em nenhum país decente o voto é obrigatório. Povo feliz celebra o Dia da Marmota e outras efemérides surreais. Povo feliz ri despreocupadamente das comédias de Will Ferrell. Povo feliz bebe sua cachaça e come sua feijoada sem se importar em estar “se apropriando da cultura alheia”.

Faço aqui, pois, um elogio da alienação. Espero que, passada esta tempestade, possamos novamente discutir coisas tolas e triviais: o mais recente romance da Grande Promessa da Literatura Brasileira, as curvas deliciosas da protagonista da novela, o estado lamentável da zaga da seleção, o absurdo do churrasco de melancia. E que possamos continuar com a infindável polêmica: o certo é biscoito ou bolacha?

Tolerância (texto curto com plot twist)

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Só consegue ser tolerante quem é pleno em suas convicções. É a dúvida, autodúvida, o que gera essa reação sempre instintiva e raivosa de querer a aniquilação do contrário ou mesmo do diferente. Aniquilação esta que se dá por vários meios, do silêncio ao tiro.

Por isso mesmo é que eu, hétero assumido, sou tolerantíssimo com quaisquer outras manifestações da sexualidade. E, fã de todas as carnes do mundo e viciado em proteína animal, não tenho nenhum problema com o surgimento de açougues veganos, por exemplo.

Se sou intolerante às vezes (às vezes!) é só quando vejo se manifestar perto de mim ela: a burrice. O que é bastante compreensível, se você leu e entendeu o que escrevi no primeiro parágrafo.

O chato

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Eu sou um chato. Por quaisquer medidas que se escolha, Fahrenreit, Kelvin e sobretudo Watts. Na opinião de qualquer pessoa e certamente de alguns felinos mais arredios. Até para os fãs de U2 ou Radiohead ou, meu Deus!, Ivan Lins eu sou um chato. Só de ver o primeiro pê do meu nome, sem falar no segundo e no às vezes esquecido “Jr.”, do outro lado há alguém dizendo ou, pior, lembrando: que chato! E de que serve este parágrafo inicial senão como prova inegável: chato, chato, chato!

Se às seis da tarde alguém comete a besteira de perguntar como foi meu dia, respondo que foi tudo bem – e por isso sou chato. Se digo que foi tudo mal e explico, ressaltando a diferença entre mau e mal, sou ainda mais. Um chato, ah, um chato de galocha do tipo que não sabe o que é galocha e vai pesquisar e volta com alguma curiosidade desinteressante: a galocha foi usada e popularizada por Arthur Wellesley, Duque de Wellington. O produto, uma novidade, foi adotada como vestimenta de caça pela aristocracia britânica do século XIX, etc.

Meus Deus! Como sou chato. Um chato que morre de receio de ser chato e que, de tão chato, tem coragem de explicitar isso para o amigo que, entre bocejos, responde: então não seja.

Pior tipo de chato, aliás, é aquele que acredita ter algo a dizer. E diz. E faz piada. E trocadilho. E usa aquela metáfora esperta que só os chatos reconhecem e só os mais chatos ainda realmente consideram esperta. Sou o chato que ri da piada indevida e o chato que reproduz a piada, na esperança de encontrar no outro alguém que bata no peito (figurativamente, isto é) para se dizer contra essa coisa chata de politicamente correto.

E um chato que no banho matinal, antes mesmo do primeiro gole de café e de escovar os dentes, ri sozinho da própria piada e se pergunta para o vazio tomado pelo vapor: como foi que ninguém pensou nisso antes?! (Alguém sempre pensou nisso antes, eu sei).

Sou um chato que, aparentemente, não gosta de nada e que ao mesmo tempo se esforça para encontrar algo de genial (um chato que usa a palavra “genial” a contragosto) em tudo de que gosta. Um chato que está em dúvida quanto a essa regência, mas que vai arriscar mesmo assim, não sem antes se perguntar mil vezes se “o que gosta” não soaria melhor.

Sou um chato que sempre tem uma observação a fazer, um “mas” na ponta da língua. Alguém que acredita, veja só, que o diálogo, mesmo o virtual, só acrescenta. O chato que compartilha trechos de livros no Goodreads na esperança de encontrar interlocutor. Que convida para um café na esperança de encontrar um Amigo. (E que faz distinção entre amigo e Amigo). Que tenta ser o mais educado possível nas suas interações pessoais na esperança de que lhe reconheçam alguma nobreza cotidiana. Sou o chato que acredita que nossas conversas, essas mesmas interrompidas pelo Grande Silêncio que se segue sempre que você me reconhece como chato, serão de alguma forma evocadas quando morrermos.

Sou o chato que não consegue decidir o que jaz no próprio túmulo. Afinal, o que jaz aqui senão um chato?

Sou o chato que ama demais, de perto, intensamente. E que assim espera ser amado de volta. Chato que acha que nunca é demais sorrir, mesmo com os dentes amarelados, que todas as palavras são necessárias e que a vida, absurdo dos absurdos, é feita de cotidianos. Sou o chato que vê valor, nem que seja irônico, em platitudes como essa.

Sou chato que lê poesia. E que acha que você deveria ler também. Por quê? Por isso e por aquilo. E, depois, me diga o que achou.

Sou o chato que nunca percebe que você tem mais o que fazer, que está ocupado demais preenchendo o formulário do Imposto de Renda, que não tem tempo agora, mais tarde te ligo, não, não, ainda não tive tempo de ler o que você escreveu.

Sou o chato que faz a mesma piada de sempre com a caixa da loja de bebidas (“Vocês trocam produto com defeito? Se eu beber e não ficar bêbado o bastante posso vir aqui trocar?”) só para vê-la sorrir, na esperança tola (e chata) de tornar aqueles segundos um pouco melhores do que os resmungos curitibanos que a coitada tem de ouvir. Que canta Legião Urbana no meio da farmácia, que começa a dançar ao ouvir Steve Wonder. O chato que para o filme no meio a fim de pesquisar na Wikipedia a bibliografia de Ismail Kadaré e que meia hora mais tarde ainda está falando disso.

Sou o chato tão chato que as pessoas me usam como referência geográfica. “Onde fica o banheiro?” “Tá vendo aquele careca atrás do anão e ao lado do careca? Tem um corredor ali que leva ao banheiro”.

Sou o chato que está achando que você riu disso. Uma risadinha contida. De leve.

Sou o chato que escreveu este texto na esperança – e a esperança do chato é sempre vã – de que alguém apareça para previsível e melancolicamente dizer: “não, você não é chato”. Sou o chato que, veja´só, acredita que alguém realmente chegou até aqui.

Pior de tudo: sou um chato com um espelho cruel que diariamente me grita: você é chato. E que, diante de minha reação, emenda, naquele tom filosófico que só os espelhos sabem evocar: o pior chato, meu amigo, é aquele que não sabe ser diferente.

Um estoico distraído

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Essa luta contra o ressentimento, contra o desejo de vingança, contra a inveja que dá origem a regimes totalitários (sem falar naquele seu câncer), meus amigos, essa luta é uma luta que não vale a pena lutar. Ao menos não às claras, ao menos não destemidamente, ao menos não com essa ridícula pontinha de esperança. Porque essa luta já foi lutada – e perdida – há milênios.

Os ressentidos, vingativos e invejosos (conscientes ou não) encontram conforto nessa curiosa cama de pregos. Ora (odeio textos que têm “ora”, mas… ora!), nada mais agradável – não, nem pipoca, edredon e friozinho! – do que poder culpar aquela pessoa que supostamente puxou seu tapete ou aquela pessoa que você supõe ter uma vida per-fei-ta; e nada mais motivador do que a vingança – algo que qualquer pessoa que assistiu a uma novela sabe.

O ressentimento nos torna para sempre crianças desprotegidas, procurando o colo do pai ou mãe simbólicos, sempre pedindo um carinho eternamente insuficiente e dando em troca um gracejo, quando não a ameaça de um ataque de birra. Mas (insira aqui mais um “ora!”) crianças são puras, você dirá; há beleza neste ser eternamente indefeso, impotente, vítima. O ressentimento é nossa recusa em abandonarmos o Paraíso – e quem pode nos culpa, não é mesmo?

A inveja já foi cantada em prosa, verso e para-choque de caminhão. Mais do que filha do ressentimento e prima da vingança, a inveja é o trunfo perverso da imaginação sobre a realidade, tendo sempre como ponto de referência alguém que você crê indigno de fortunas com as quais você faria mais e melhor, e como ponto de fuga a própria autoestima – o que independe desse seu nariz empinado aí.

A vingança, ah, a ardilosa vingança que se traveste de justiça, essa não vai começar num belo e sempre futuro dia de primavera. Ela está em curso desde que abandonamos as cavernas. Ao mover mundos para tornar a vida do inimigo miserável, o homem se sente realizado, sua vida parece ter propósito e Deus indica estar a seu lado, independente do lado em que você estiver.

Daí porque a “nobreza” despertada por certa “sabedoria” é sempre melancólica, encolhida, triste, impotente, silenciosa, fria e escura. A verdade, a dura verdade, a verdade verdadeira e espinhosa, a verdade que evitamos diariamente ao nos olhamos no espelho, a verdade que nos tiraria o sono se não nos entorpecêssemos de doces mentiras, a verdade que só enxergamos quando os olhos se fecham para sempre é bastante simples: os estoicos só rimos quando estamos distraídos.

Marielle Bandida

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(Leia antes de espernear)

A ideia lhe veio como um milagre mal disfarçado de acaso. Ele se levantou e se amaldiçoou por não ter papel e caneta por perto. Quem foi que pegou minhas coisas, quem mexeu na minha bagunça?, perguntou ele para o apartamento vazio. E a cada segundo o medo de que o milagre se cansasse da fantasia e saísse, entre o tédio e exaustão, do decadente Salão das Ideias Festivas.

Ao encontrar finalmente – e no lugar de sempre – a caneta e o caderninho surrado de anotações estéreis, ele hesitou antes de dar concretude ao milagre ainda fresquinho. Imaginou ali a ideia solta, sem contexto, toda órfã do tempo em que foi concebida, toda despida da pretensa relevância, flutuando num futuro de suposições perversas, para ser lida por uma gente que nem nasceu e que lá da antessala da vida mesmo talvez já tenha uma opinião sobre ele: canalha!

Que se foda!, concluiu ele com a obviedade das pálpebras pesadas. E, por respeito a si e ao milagre cuja coroa já lhe rasgava as entranhas, anotou com a caligrafia apressada da genialidade madrugueira: “Marielle puta!”.

Já ia deixando o caderninho de lado para se afundar no travesseiro das ideias natimortas (uns milagres mancos, estropiados, aos quais faltavam dentes e vida) quando, incomodado pela pulga da vaidade, acendeu de novo a luz do abajur, abriu o caderninho, municiou-se da caneta e, sem esperar pelas ordens do general Superego, foi logo rabiscando o recém-anotado, esculpindo no milagre (na verdade, sob o milagre) uma forma menos virulenta. “Marielle bandida”, escreveu, aliviado*. E, como já estivesse ali semiacordado e abençoado, achou por bem desbastar um pouco mais o mármore.

Assim nasceu Tonhão do Cavaco, um sambista polaco gente boa cujo sobrenome verdadeiro era uma casca de vogais recheada por consoantes. Gordo como se não houvesse amanhã, o sorriso sempre aberto para as piadas menos engraçadas, a voz rouca de cigarros que lhe davam o devido ar boêmio e, claro, o irônico cavaco no nome de um analfabeto instrumental, Tonhão era um desses gênios que só os aficionados por samba conheciam. E morreria assim e seria enterrado ao som de uma cuíca triste numa gaveta do cemitério Água Verde, não fosse por um detalhe: Tonhão do Cavaco era agora também protagonista de uma história infame. Ficcional, nunca nos esqueçamos, mas infame.

Ele (não Tonhão, o outro) levou a caneta à boca, pensativo. Tonhão do Cavaco, personagem que é parte memória, lhe apareceu lá no fundo (da mente!), rindo aquele sorriso cheio de tolice e autoengano, cercado por duas mulheres que ele sonha mas nunca vai comer, vociferando platitudes para um bando de puxa-sacos de seu sobrenome, acurralado pela própria vaidade. Ele (não Tonhão, o outro) quase teve pena do destino que daria a seu personagem.

Quase. Porque, sim, é quase bem provável que ele quase escrevesse a quase história cujo quase argumento rascunhava no caderninho. Mas quase mais provável ainda é que quase tudo quase ficasse quase confinado quase à quase fantasia de uma noite insone, sem maiores consequências para ele, autor, para os leitores e muito menos para o pobre-diabo do Tonhão do Cavaco, que Deus o tenha!

Não dessa vez! Lá fora, sem que nosso autor visse, um taxista distraído entrou na preferencial sem olhar e, por isso, recebeu uma buzinada indescritível (como é que se descreve uma buzinada, meu Deus?!) de outro motorista qualquer, atento e nervoso demais para aquela hora. O barulho acabou por afugentar os íncubos e súcubos que tentavam de todas as formas levá-lo ao Reino do Sono, Condado da Desistência, Vila de Nossa Senhora da Procrastinação.

E ele se pôs a anotar retalhos que no dia seguinte pretendia coser (!) num texto provocativo, conciso-mas-eloquente, sereno-mas-indignado e inteligente-mas-nem-tanto. Um texto que sua (dele) irmã vai ler, mas não vai entender (e se entender não vai gostar e vai me ligar perguntando se eu acho que ela é burra e incapaz de entender o texto), que um tiozinho velho vai curtir sem ler e que sua namorada vai chamar ironicamente de instigante, antes de um delicioso ataque de riso.

Naqueles rabiscos estaria tudo de que ele precisaria na manhã seguinte (ou na outra, ou na outra, ou nunca): o título (“Marielle bandida”), o protagonista (Tonhão do Cavaco), o argumento e a estrutura: o sambista acorda todo feliz e tranquilo, sem se importar com o celular que não para de tocar. Assim que entra no banho, Tonhão ouve a campainha, seguida por batidas violentas na porta. Ele mal tem tempo de se enrolar na toalha quando ouve a porta sendo arrombada por uma turba enfurecida acompanhada por um policial meio entediado e claramente constrangido que o manda se vestir para poder prendê-lo com alguma dignidade.

Papo vai, papo vem, Tonhão fica sabendo que está sendo preso por difamar a honra de uma tal Marielle Franco, você não assistiu ao Jornal Nacional, não?!

— Não. Eu fui dormir cedo ontem e…

— Dormir cedo? Como alguém pode dormir cedo quando as pessoas estão morrendo nesse sistema capitalista opressor das minorias?! Isso só piora sua situação! O senhor não tem vergonha de ser uma marionete? Um alienado? – pergunta o Delegado Indignado. – Você é um pulha, seu… seu… Tonhão do Cavaco.

— Mas qual foi meu crime? – pergunta Tonhão, numa referência ridiculamente explícita ao pesadelo kafkiano.

— O nome Marielle não significa nada para o senhor? Marielle Bandida, por acaso?

E é assim que o personagem bonachão, distraído, alienado e meio retardado fica sabendo que seu crime foi ter composto, com o finado Simeão do Alto Boqueirão, o samba “Marielle Bandida”, história em fá maior de uma secretária executiva, Marielle, que rouba o coração do Everaldo, chefão do jogo do bicho. O samba foi gravado por um grupo de sambacore chamado “Os Diáconos do Pandeiro”. Dizia o refrão:

Marielle bandida,

Saudade infinita,

Meu coração você roubou.

Posso ser contraventor

Mas você é bandida,

Marielle bandida.

Tonhão é preso, enviado para uma penitenciária clandestina na Amazônia (referência clara ao clássico Papillon), acaba espancado e violentado por um traficante metaleiro que odeia samba e é solto três meses depois, sem alarde nem maiores consequências. Marielle Bandida cai na obscuridade, de onde, aliás, nunca tinha realmente saído.

Mas, disse algo dentro dele. Mas, mas, mas. Havia tantos mas. E alguns entretantos e uns poréns – se bem que nenhum todavia. Mas para que se dar ao trabalho? Mas e se um amigo lhe mandar uma mensagem indignada com seu oportunismo disfarçado de ousadia? Mas para que se incomodar? Mas o que realmente você espera com isso? Mas você não tem coisa melhor para fazer? Mas e se você tiver toda a sua inexistência esfregada em sua cara mais uma vez – não a última?

Em parte cedendo ao peso das adversativas e em parte se rendendo ao cansaço, ele deixou as anotações de lado, apagou a luz e dormiu, não sem antes compor e cantarolar mentalmente “Marielle Bandida” e pensar num final para o texto, algo que expressasse uma característica curiosa sua, como o fim abrupto assim.

 


*  E depois acrescentou “(Leia antes de espernear)”. Porque nunca se sabe.

Dorme, Caim, e descansa!

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Quando o homem acorda Caim, é só uma questão de tempo até encontrar seu Abel. E, na era dos sucessos minuciosamente registrados nas redes sociais, mais evidente do que nunca parece a preferência de Deus por alguns de seus filhos. O Caim contemporâneo fica descaralhado da vida, joga o celular na parede, clama por justiça e tenta entender a lógica divina. A conclusão óbvia é a de que deve haver algo de errado com as oferendas. Não há.

Ao invejar Abel – qualquer Abel –, Caim constrói sempre uma versão idealizada do irmão. É como se Abel tivesse sido devolvido ao Paraíso. Veja o sorriso dele na foto e os amigos e os abraços e a certeza pairando no ar de que Abel é essencialmente melhor em tudo, sem falar no sorriso de quem só aduba pensamentos bons, de quem, ao nascer, recebeu do anjo a marca da virtude. Veja a certeza com que ele pisa, a segurança com que olha, ou melhor, admira o futuro.

A ideia equivocada que Caim faz de Abel é uma fantasia com a qual ele terá de conviver quando for condenado a errar (no sentido de “ser errante”, mas não só) eternamente. Não só é seu maior engano como também seu verdadeiro castigo. Caim, por algum motivo imune à misericórdia divina, para sempre verá seu irmão como O Mais Agraciado.

Coisa que Abel evidentemente não é. Eis o problema da narrativa bíblica: falta ao personagem Abel um irmão ainda mais afortunado do que ele, o Mais Agraciado Ainda, Agraciado pra Caralho Mesmo, alguém para Abel invejar, se ressentir, duvidar do seu próprio valor e do valor de suas oferendas a Deus – mas alguém para Abel não matar.

Assim talvez Caim seja* capaz de perceber que Abel está longe do Paraíso e que a predileção divina é sempre relativa. Aliás, não há exatamente predileção. O que existe é assim uma distribuição desigual de Graças e desgraças, umas dádivas aqui, uns revezes ali, uma conta bancária que não conhece o vermelho e um câncer de pulmão.

Sem inveja, e sim com compaixão (e com paixão), Caim pode aproveitar esse calor insuportável e se encostar preguiçosamente numa árvore a fim de pensar nos sacrifícios que Abel teve de fazer para conquistar essa predileção fantasiosa. Inclusive e principalmente o sacrifício de não poder se encostar preguiçosamente numa árvore para pensar.

Simplesmente porque nossa vida – essa rotina aqui e ali entremeada por tragédias, essa sucessão de pensamentos que nos faz duvidar da Graça, essa porção de tempo em que, de olhos arregalados, nos perguntamos se tudo não passa de um pesadelo –, nossa vida, imperfeita e conturbada como é, é sempre o sonho de alguém.

 


  • Não deveria explicar, mas explico mesmo assim que não, não errei o tempo verbal.