D.

por Paulo Polzonoff Jr. em 16 September 2016

Na faculdade, eu era completamente apaixonado por uma menina muito magra e loira, a despeito da boca fina demais e do nariz estranhamente rechonchudo naquele rosto anguloso. Hoje sei que, a despeito do clichê, ou melhor, justamente por causa do clichê, o que me encantou nela foi a boina que usava numa aula do Hélio Puglielli.

Passei quatro anos atrás da moça, sem sucesso. Depois da faculdade, ela se mudou para a Itália. Insistente ou persistente, não sei, continuei tentando conquistá-la por e-mail, que era como os homens das cavernas se comunicavam. Deu certo. Assim que ela voltou ao Brasil, começamos a namorar.

Mas era um relacionamento fadado ao fracasso. Ela era evangélica atuante; eu… Bom, eu sempre fui uma confusão espiritual e naquela época não era diferente. Para um menino de 22 anos, porém, a diferença religiosa não tem nada a ver com um conflito espiritual. É a parte moral que entra em conflito com os hormônios em ebulição.

A moça, entre beijos mais ardentes, entre lençóis amarrotados, insistia em me evangelizar. Havia um estranho componente erótico nisso. Ela falava de céu e inferno bem reais depois do amor e eu me sentia deliciosamente pecador (com o perdão da rima) – um pecador abençoado pela presença dela.

Um dia, ela me convidou para uma festa com os amigos da igreja. Fui, claro. Gente chata, mas havia bebida e, naquela época, bebida resolvia praticamente todos os meus problemas de sociabilidade. Bebi e conversei e bebi e conversei e não me lembro de ter feito absolutamente nada de errado além de beber e conversar.

O problema é que o simples fato de eu estar bebendo parecia incomodar alguns. Ou melhor, algum. Em certo momento, um menino com cara de idiota (mentira, nem lembro da aparência dele na época) me puxou pelo braço, diante de todo mundo, e começou a falar alto demais sobre Deus e Jesus e bebida e inferno. Eu, que sou uma pessoa calma, fiquei ouvindo. Até o momento em que deixei de ouvir.

Uma das mãos segurava o copo de uísque; a outra se fechava num soco improvável. O menino (imberbe até hoje) soltando perdigotos cheios lá da virtude dele, enquanto eu estudava o cenário. Um soco naquela cara seria dramaticamente lindo, mas romanticamente desastroso. Meu namoro com a moça não era dos melhores, mas naquele momento eu queria que ela fosse a mãe dos meus filhos. Acho.

Não bati no sujeitinho. Deixei que ele terminasse a ladainha, voltei para o sofá e fiquei ali, admirando a moça que era infinitamente melhor quando habitava só meus sonhos, não a realidade.

Lembro do episódio e do menino (a quem chamarei apenas de “D.”) sempre que o vejo na televisão, o sotaque carregado demais, o narcisismo messiânico, o rosto imberbe, o humor sem graça, os olhinhos encantados com a própria virtude, guiando a turba em sua cruzada contra a corrupção.

E, com algum arrependimento, concluo: aquele soco que nunca dei e ele nunca levou teria feito bem a ambos. Quem sabe ele não estaria tão certo de si mesmo. Quem sabe a moça, aquela, estaria aqui ao meu lado agora: gorda e chata e amargurada. Mas ainda usando aquela boina.

Dossiê Geneton

por Paulo Polzonoff Jr. em 5 September 2016

 

Estou há sete horas tentando escrever algo sobre meu querido amigo Geneton. Na verdade, sete horas só hoje, porque há duas semanas penso que deveria escrever algo para homenageá-lo. Um texto que só poderia receber o título de “Dossiê Geneton”.

Mas não consigo. Já pensei em falar um pouco do amigo que me ligava todos os meses para jogar conversa fora e até, pasmem!, para me pedir conselhos. Já pensei em contar nossas aventuras pela noite fria de Curitiba, há não muito tempo. Já pensei em simplesmente descrever a última conversa que tive com ele, a conversa que torna tudo absolutamente mais difícil. Mas não consigo.

Há quinze anos esse amigo improvável entrou na minha vida e se fez presente em todos os momentos, bons e ruins. Em meus delírios e angústias profissionais, na minha doença, que ele chamava carinhosamente de “polzonoffite”, na adoção do Davi, na minha separação. Geneton sempre tinha algo para dizer que me fazia rir ao telefone, algo que tangencialmente me fazia acreditar que todas as dificuldades valiam a pena quando se tem amigos.

Hoje, o eco da risada do meu amigo é o que dói mais. O que mais me assusta na morte é a impossibilidade do riso. A eternidade é insuportavelmente séria.

Um dia talvez eu consiga escrever o “Dossiê Geneton”, nem que seja para fazer jus à coisa mais linda que ele me disse naquela nossa última conversa. Mas não hoje. Talvez um dia eu consiga explicar que Geneton não foi apenas um profissional incrível, um jornalista dono de uma curiosidade infantil que fazia meus olhos brilharem. Talvez um dia eu consiga explicar que só não me sentia um completo desgraçado porque tive a graça de conhecer um ser humano como ele.

A vidraça não-existente

por Paulo Polzonoff Jr. em 17 August 2016

 

Recebi a incumbência de escrever sobre O Homem Que Matou Luiz Inácio, romance de estreia do crítico e chato-mor curitibano Paulo Polzonoff Junior. A princípio, quis discutir com meu editor e argumentar que o livro simplesmente não existe. Mas não consegui convencê-lo. Tive, pois, de pôr o rabo entre as pernas e voltar me arrastando para casa. Fazer o quê? Trabalho é trabalho, como dizia o poeta.

Além da minha má-vontade confessa em relação ao autor, a falta de uma chancela editorial para o livro também me fez pegar o minguado e mal-acabado volume com todos os receios do mundo. Ora, num país onde se publica qualquer porcaria, por que Paulo Polzonoff Junior não conseguiu uma editora para seu romance, tendo de publicá-lo no sistema on demand e o disponibilizando também em edição eletrônica?

A única explicação possível para isso é também a mais óbvia: o romance, na verdade uma novela, é ruim. Tão ruim, aliás, que nem o título oportunista é capaz de despertar o interesse dos editores e, por consequência, dos leitores.

Mas eis que lá pela metade do livrinho já estou intrigado. Crítico chato, ranheta e formalista, capaz de implicar com coisas mínimas como escolhas de advérbios e estruturas sintáticas nas obras alheias, Polzonoff até que não se sai mal em sua tentativa de escrever ficção.

O livro começa com um humor autodepreciativo surpreendente, com um narrador nos apresentando o personagem ao mesmo tempo em que interage com o leitor e vai explicando a composição da história. Não é, claro, recurso novo. Machado de Assis (quanta pretensão!) já fazia isso, ele próprio inspirado em Sterne. De qualquer modo, interessante notar que Polzonoff procurou se afastar dos vícios da literatura nacional por ele mesmo apontados em O Cabotino.

O estilo é aquele de sempre: frases curtas, preferência por afirmações categóricas, economia extrema de recursos, mas aqui e ali abusando de um adjetivo ou advérbio para enfeitar a paisagem. Em alguns momentos, Polzonoff tenta conferir certo humor à narrativa – o que novamente é surpreendente, levando em conta a famosa chatice do autor. Dá para rir, sim, das desgraças de Ernesto Unslovt, o protagonista do livro destinado a matar Luiz Inácio.

Aliás, fica evidente o oportunismo de Polzonoff ao abordar em seu livro o assassinato de uma figura pública – ou, na melhor das hipóteses, do homônimo fictício de uma figura pública. Se com isso ele esperava chamar a atenção dos leitores, fracassou. A verdade, porém, é que Luiz Inácio é figura secundária no livro. Está mais para um alvo inanimado do que para uma figura com a qual se possa se identificar.

Duas coisas me incomodaram no livro. Primeiro, a epifania de Ernesto Unslovt ao decidir matar Luiz Inácio. Ainda que Polzonoff tente fazer humor ali, reduzindo toda a decisão a um monte de sinapses que ocorrem ao acaso, a solução parece farsesca e apressada demais. E a opção do autor por deixar o fim do romance em aberto (eu tomaria cuidado com spoilers aqui, mas, em se tratando de um livro não-existente, acho que falar em spoilers não faz muito sentido) também incomoda, deixando no leitor a impressão de preguiça, ainda que Polzonoff seguramente dirá que foi intencional, que a ideia era estimular a imaginação do leitor.

Sobre isso e mais, tentei contato com Polzonoff, que se recusou a falar. Ao que parece, ele se acha importante demais para dar quaisquer esclarecimentos a quem demonstra interesse por seu trabalho.

Dito isso, até que O Homem Que Matou Luiz Inácio não é mesmo um mau livro. Não é uma obra-prima, claro, mas tampouco é livro que se joga na parede depois da vigésima página. Há alguns dias o jornalista Hélio Puglielli, um dos poucos a reconhecer a existência do livro, disse que, com o romancete, o crítico chato se tornava vidraça. Resta saber se haverá alguém disposto a quebrá-la ou se restará ao aspirante a contador de histórias o tradicional e cruel desprezo curitibano.

O maldito gosto do sabão

por Paulo Polzonoff Jr. em 15 July 2016

“Seu livro é ruim”. “Seu livro tem defeitos”. Imagino como deve ser desagradável para um escritor ouvir esse tipo de coisa. Sobretudo numa época em que autor e obra tanto se confundem, fazendo da literatura (e de outras expressões artísticas) tão-somente uma expressão do eu infantil, isto é, do narcisismo.

Conheço o contista Márcio Renato dos Santos de outras épocas, outros cafés e cervejas. Sempre me pareceu um homem dedicado e esforçado, com um riso fácil. Não tenho motivo algum para denegrir o trabalho dele como escritor. Pelo contrário. Ao abrir Finalmente (Tulipas Negras, 2016), meu encantamento anterior à leitura era claro. Sempre me fascina a ideia de ter amigos talentosos.

Na tentativa de encontrar algo que se salve a coletânea de contos, fiz algo que me é raro: li o livro três vezes. Quis, queria e quero aqui usar de toda a generosidade possível. Mas às vezes os fatos (neste caso, as frases, as histórias e as muitas vírgulas desnecessárias) se impõem para além da boa-vontade do leitor. É uma pena. Sempre é.

O conto que abre a coletânea, Pimenteira, é um vislumbre desse potencial não aproveitado. Há nele um quê de A Morte de Ivan Ilitch, o que não é pouca coisa, como sabem aqueles que já tiveram contato com a obra-prima de Tolstói. O autor (Márcio, não Tolstói) capta bem a capacidade humana de ampliar problemas banais e conferir ao cotidiano simples ares de batalhas épicas, com um quê de sobrenatural.

Seria bom, ou melhor, seria ótimo, não fossem as falhas técnicas que pontuam toda a narrativa, bem como a completa ausência de pathos. As frases se acumulam e se amontoam sem levar o leitor a qualquer tipo de transcendência estética. Parece o relato de um cartorário com inclinações literárias. Um cartorário que também precisa dominar a técnica narrativa, sobretudo no que diz respeito aos tempos verbais. Porque há uma diferença entre confundir tempos narrativos propositadamente, fazendo a história avançar, retroceder e parar, e confundi-los por descuido ou desconhecimento, o que só revela um louvável mas estéril esforço de se comunicar com o leitor.

O problema dos tempos verbais pontua todo o livro. A narrativa começa no presente, passeia pelo passado e, ao voltar para o presente, continua no passado. Ou está no passado e, do nada, flerta com o presente. É algo tão recorrente que, a certa altura, achei que pudesse ser algum toque de genialidade à la Nolan. Não é.

Assim como não é nenhuma genialidade a tentativa fracassada de retratar o banal usando, para tanto, uma narrativa também banal. Principalmente em narrativas curtas, todas as frases importam e precisam ter relevância, fazer sentido na história. Aqui, muitas vezes se tem a impressão de que, mais uma vez, o narrador é apenas um cartorário tentando preencher páginas de um relatório que por acaso chama de conto. A banalidade e irrelevância das informações (e o problema dos tempos verbais) podem ser exemplificados neste parágrafo de “Com Açúcar, Com Afeto”:

 

“Lembro que ela costumava oferecer coxinha de frango. Casca crocante, feita e frita na hora. Com um recheio de tempero que nunca mais encontrei em nenhum bar, restaurante ou feira livre. O bolinho de carne também é inesquecível”.

 

Não há, pois, densidade, apesar de as narrativas bem curtas pressuporem justamente isso. O conto proposto pelo autor não é uma “short story”; é conto no sentido mais brasileiro do tempo, algo que em muitos casos se aproxima, ainda que indevidamente, da prosa poética. E, no entanto, não há nenhuma sugestão elevada ou mesmo bela nas frases de Finalmente. Que, em muitos casos, parecem somente um amontoado de informações que qualquer editor um pouco mais exigente cortaria do texto final. A questão é: em fazendo isso, o que sobraria do texto final?

Arriscaria dizer que sobrariam… vírgulas. Algum professor mal-intencionado deve ter dito ao autor que ele deveria usar vírgulas para separar quaisquer advérbios que estivessem fora de lugar. O resultado é algo gramaticalmente correto, vá lá, mas que interrompe o ritmo das frases – que já não é dos melhores. É, sobretudo, algo que não passa em nenhum teste de oralidade, como se vê nesta frase do conto “Um a Um”:

 

“A sensação de que a vida está acelerada para todos Benício percebe, realmente, por contraste, agora, em dias de jogos da seleção”.

 

Aliás, uma boa forma de submeter qualquer texto ao teste da oralidade é analisar diálogos. Tarefa supostamente fácil em Finalmente, já que alguns contos são compostos basicamente por diálogos. No que, para minha decepção, o livro também fracassa. Os contos-diálogos são marcados por um monossilabismo constrangedor que, mais uma vez, revela apenas a banalidade e a irrelevância narrativa. São diálogos rápidos, sim, mas estéreis. Cadê o humor, o wit? Ou, por outra, cadê aquela constatação fatídica que nos faz querer ficar de cama a semana inteira?

Pior ainda é constatar que, nos poucos momentos em que o contista tenta beber em águas mais profundas, acaba caindo no lugar-comum e na escatologia. O humor autodepreciativo e autorreferente de “É Um Táxi Que Chega Inesperadamente”, ainda que seja um suspiro de vitalidade na coletânea, nada mais é do que a velha e ensimesmada narrativa do escritor vivendo a literatura cotidianamente. E “Bem-Estar, Poucos Passos” e “Simeticona” recorrem à dupla Fezes & Flatos que, sinceramente, já não despertam nem nojo no leitor minimamente experiente.

Por fim, não posso deixar de mencionar o trecho em que se lê “duzentas gramas de queijo e de presunto”. Com todo o respeito, um escritor (e editor e revisor) não pode deixar passar algo assim.

É com tristeza e decepção que fecho Finalmente. Ao lê-lo, e diante da impossibilidade de aplaudi-lo, por mais que realmente quisesse, me senti como uma criança que abocanha o pudim só para descobrir que, na verdade, era uma barra de sabão. Não vou abdicar do pudim, claro. Mas sempre me lembrarei do maldito gosto do sabão.

A ruína das catedrais imensas

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 June 2016

 

Este mês, pretendia escrever uma longa matéria sobre poesia. Liguei para umas cinco pessoas, amigos antigos e supostos leitores de poesia contemporânea. Nenhuma das conversas rendeu coisa que valesse a pena ser publicada. E o motivo é muito simples: a poesia morreu. Se esqueceram de enterrar o cadáver é outra história.

Não que eu me surpreenda, claro. Há algum tempo, quando ainda atuava como crítico, desconfiava. Ao meu redor havia muitos poetas e pouca poesia. E, aos poucos, os poetas também deram lugar a uns sujeitos que são uma mistura de palhaços e animadores de uma plateia composta por secretárias bilíngues solteironas.

Nada contra as secretárias, claro. Quero dizer que o leitor comum esclarecido simplesmente desapareceu. Se uns poucos adolescentes esquisitões leem poesia é porque o versinho é bonito (aquela balela quintanesca do passarão/passarinho). Você até encontra uns adultos que se dizem leitores de poesia, mas eles estão bêbados demais para conversar a sério sobre o assunto.

Se pareço reclamão e nostálgico, me perdoe. Não sou disso. Reconheço que a poesia se tornou algo tão anacrônico quanto a ópera ou a música erudita. É coisa para iniciados reunidos numa maçonaria informal. O leitor contemporâneo não tem tempo para a poesia. Não tem tempo para decifrar os versos do passado nem paciência para aguentar os trocadalhos do presente.

Falta, sobretudo, aspiração espiritual. Porque a boa poesia é aquele que dá um nó na corrente que prende a palavra ao fundo do mar. O verso não se compreende como a frase. É algo que talvez interesse aos neurologistas: poesia atiça aquela porçãozinha do cérebro a que damos o nome impreciso de alma.

E a situação, claro, não vai mudar. Meu filho não aprende poesia. Seu filho não aprende também. E, quando as crianças aprendem, aprendem errado. As salas de aula e os professores de literatura cada vez mais estúpidos são verdadeiros abatedouros de leitores em potencial. Até porque não há como a ignorância lançar luz sobre a ignorancinha.

Uma pena. Mas não para mim.

Porque eu tive a sorte de aprender a consumir poesia. Meu professor foi o dr. Autodidata – o melhor de todos. Como tutor, guiou-me um pendor natural ao bom-gosto e a busca pela elevação. Poesia, a rigor, não me serve de nada. A não ser quando, à noite, me bate o desespero para o qual encontro consolo na imagem poética: meu coração, afinal, tem catedrais imensas.