O maldito gosto do sabão

por Paulo Polzonoff Jr. em 15 July 2016

“Seu livro é ruim”. “Seu livro tem defeitos”. Imagino como deve ser desagradável para um escritor ouvir esse tipo de coisa. Sobretudo numa época em que autor e obra tanto se confundem, fazendo da literatura (e de outras expressões artísticas) tão-somente uma expressão do eu infantil, isto é, do narcisismo.

Conheço o contista Márcio Renato dos Santos de outras épocas, outros cafés e cervejas. Sempre me pareceu um homem dedicado e esforçado, com um riso fácil. Não tenho motivo algum para denegrir o trabalho dele como escritor. Pelo contrário. Ao abrir Finalmente (Tulipas Negras, 2016), meu encantamento anterior à leitura era claro. Sempre me fascina a ideia de ter amigos talentosos.

Na tentativa de encontrar algo que se salve a coletânea de contos, fiz algo que me é raro: li o livro três vezes. Quis, queria e quero aqui usar de toda a generosidade possível. Mas às vezes os fatos (neste caso, as frases, as histórias e as muitas vírgulas desnecessárias) se impõem para além da boa-vontade do leitor. É uma pena. Sempre é.

O conto que abre a coletânea, Pimenteira, é um vislumbre desse potencial não aproveitado. Há nele um quê de A Morte de Ivan Ilitch, o que não é pouca coisa, como sabem aqueles que já tiveram contato com a obra-prima de Tolstói. O autor (Márcio, não Tolstói) capta bem a capacidade humana de ampliar problemas banais e conferir ao cotidiano simples ares de batalhas épicas, com um quê de sobrenatural.

Seria bom, ou melhor, seria ótimo, não fossem as falhas técnicas que pontuam toda a narrativa, bem como a completa ausência de pathos. As frases se acumulam e se amontoam sem levar o leitor a qualquer tipo de transcendência estética. Parece o relato de um cartorário com inclinações literárias. Um cartorário que também precisa dominar a técnica narrativa, sobretudo no que diz respeito aos tempos verbais. Porque há uma diferença entre confundir tempos narrativos propositadamente, fazendo a história avançar, retroceder e parar, e confundi-los por descuido ou desconhecimento, o que só revela um louvável mas estéril esforço de se comunicar com o leitor.

O problema dos tempos verbais pontua todo o livro. A narrativa começa no presente, passeia pelo passado e, ao voltar para o presente, continua no passado. Ou está no passado e, do nada, flerta com o presente. É algo tão recorrente que, a certa altura, achei que pudesse ser algum toque de genialidade à la Nolan. Não é.

Assim como não é nenhuma genialidade a tentativa fracassada de retratar o banal usando, para tanto, uma narrativa também banal. Principalmente em narrativas curtas, todas as frases importam e precisam ter relevância, fazer sentido na história. Aqui, muitas vezes se tem a impressão de que, mais uma vez, o narrador é apenas um cartorário tentando preencher páginas de um relatório que por acaso chama de conto. A banalidade e irrelevância das informações (e o problema dos tempos verbais) podem ser exemplificados neste parágrafo de “Com Açúcar, Com Afeto”:

 

“Lembro que ela costumava oferecer coxinha de frango. Casca crocante, feita e frita na hora. Com um recheio de tempero que nunca mais encontrei em nenhum bar, restaurante ou feira livre. O bolinho de carne também é inesquecível”.

 

Não há, pois, densidade, apesar de as narrativas bem curtas pressuporem justamente isso. O conto proposto pelo autor não é uma “short story”; é conto no sentido mais brasileiro do tempo, algo que em muitos casos se aproxima, ainda que indevidamente, da prosa poética. E, no entanto, não há nenhuma sugestão elevada ou mesmo bela nas frases de Finalmente. Que, em muitos casos, parecem somente um amontoado de informações que qualquer editor um pouco mais exigente cortaria do texto final. A questão é: em fazendo isso, o que sobraria do texto final?

Arriscaria dizer que sobrariam… vírgulas. Algum professor mal-intencionado deve ter dito ao autor que ele deveria usar vírgulas para separar quaisquer advérbios que estivessem fora de lugar. O resultado é algo gramaticalmente correto, vá lá, mas que interrompe o ritmo das frases – que já não é dos melhores. É, sobretudo, algo que não passa em nenhum teste de oralidade, como se vê nesta frase do conto “Um a Um”:

 

“A sensação de que a vida está acelerada para todos Benício percebe, realmente, por contraste, agora, em dias de jogos da seleção”.

 

Aliás, uma boa forma de submeter qualquer texto ao teste da oralidade é analisar diálogos. Tarefa supostamente fácil em Finalmente, já que alguns contos são compostos basicamente por diálogos. No que, para minha decepção, o livro também fracassa. Os contos-diálogos são marcados por um monossilabismo constrangedor que, mais uma vez, revela apenas a banalidade e a irrelevância narrativa. São diálogos rápidos, sim, mas estéreis. Cadê o humor, o wit? Ou, por outra, cadê aquela constatação fatídica que nos faz querer ficar de cama a semana inteira?

Pior ainda é constatar que, nos poucos momentos em que o contista tenta beber em águas mais profundas, acaba caindo no lugar-comum e na escatologia. O humor autodepreciativo e autorreferente de “É Um Táxi Que Chega Inesperadamente”, ainda que seja um suspiro de vitalidade na coletânea, nada mais é do que a velha e ensimesmada narrativa do escritor vivendo a literatura cotidianamente. E “Bem-Estar, Poucos Passos” e “Simeticona” recorrem à dupla Fezes & Flatos que, sinceramente, já não despertam nem nojo no leitor minimamente experiente.

Por fim, não posso deixar de mencionar o trecho em que se lê “duzentas gramas de queijo e de presunto”. Com todo o respeito, um escritor (e editor e revisor) não pode deixar passar algo assim.

É com tristeza e decepção que fecho Finalmente. Ao lê-lo, e diante da impossibilidade de aplaudi-lo, por mais que realmente quisesse, me senti como uma criança que abocanha o pudim só para descobrir que, na verdade, era uma barra de sabão. Não vou abdicar do pudim, claro. Mas sempre me lembrarei do maldito gosto do sabão.

A ruína das catedrais imensas

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 June 2016

 

Este mês, pretendia escrever uma longa matéria sobre poesia. Liguei para umas cinco pessoas, amigos antigos e supostos leitores de poesia contemporânea. Nenhuma das conversas rendeu coisa que valesse a pena ser publicada. E o motivo é muito simples: a poesia morreu. Se esqueceram de enterrar o cadáver é outra história.

Não que eu me surpreenda, claro. Há algum tempo, quando ainda atuava como crítico, desconfiava. Ao meu redor havia muitos poetas e pouca poesia. E, aos poucos, os poetas também deram lugar a uns sujeitos que são uma mistura de palhaços e animadores de uma plateia composta por secretárias bilíngues solteironas.

Nada contra as secretárias, claro. Quero dizer que o leitor comum esclarecido simplesmente desapareceu. Se uns poucos adolescentes esquisitões leem poesia é porque o versinho é bonito (aquela balela quintanesca do passarão/passarinho). Você até encontra uns adultos que se dizem leitores de poesia, mas eles estão bêbados demais para conversar a sério sobre o assunto.

Se pareço reclamão e nostálgico, me perdoe. Não sou disso. Reconheço que a poesia se tornou algo tão anacrônico quanto a ópera ou a música erudita. É coisa para iniciados reunidos numa maçonaria informal. O leitor contemporâneo não tem tempo para a poesia. Não tem tempo para decifrar os versos do passado nem paciência para aguentar os trocadalhos do presente.

Falta, sobretudo, aspiração espiritual. Porque a boa poesia é aquele que dá um nó na corrente que prende a palavra ao fundo do mar. O verso não se compreende como a frase. É algo que talvez interesse aos neurologistas: poesia atiça aquela porçãozinha do cérebro a que damos o nome impreciso de alma.

E a situação, claro, não vai mudar. Meu filho não aprende poesia. Seu filho não aprende também. E, quando as crianças aprendem, aprendem errado. As salas de aula e os professores de literatura cada vez mais estúpidos são verdadeiros abatedouros de leitores em potencial. Até porque não há como a ignorância lançar luz sobre a ignorancinha.

Uma pena. Mas não para mim.

Porque eu tive a sorte de aprender a consumir poesia. Meu professor foi o dr. Autodidata – o melhor de todos. Como tutor, guiou-me um pendor natural ao bom-gosto e a busca pela elevação. Poesia, a rigor, não me serve de nada. A não ser quando, à noite, me bate o desespero para o qual encontro consolo na imagem poética: meu coração, afinal, tem catedrais imensas.

Para o desespero do neófobo

por Paulo Polzonoff Jr. em 14 June 2016

Sou inegavelmente um neófobo. Não me orgulho disso. Aprendi a ser assim depois de inúmeras decepções com jovens gênios, promessas, supostos virtuoses das letras e coisas afins. É uma pena, eu sei. Provavelmente ando perdendo a oportunidade de ler muitas coisas boas.

Neófobo que sou, pois, foi com aquele olhar meio constrangido que recebi toda prosa (assim, em minúsculas mesmo), de Adriana Sydor. Aquele sorriso amarelo. E aquela certeza de que jamais perderia meu tempo lendo o livro de uma autora desconhecida.

No táxi a caminho de casa, porém, eis que me vejo tomado subitamente pela vontade de saber o que andam escrevendo os “novos”. Não é uma sensação elevada porque, confesso, o que espero encontrar é algo que reforce minha antevisão pessimista quanto à literatura brasileira contemporânea. Me senti meio masoquista abrindo o livro. Como se precisasse dos defeitos de sempre (a pontuação mal-feita, rimas, cacófatos) para me sentir superior – ainda que inegavelmente infeliz e literariamente solitário.

Eis que abro o livro de crônicas a esmo, leio um parágrafo qualquer e fico pasmo. Nada menos do que pasmo. Porque há anos não lia nada tão bom quanto a prosa de Adriana Sydor. Fico tão perplexo que sou obrigado a reler o parágrafo. E tresler. Meu lado mais pessimista (um que raramente prevalece, mas) me manda abrir o livro em outro trecho, na crença de que o bom texto é exceção, não regra.

Mas felizmente me engano de novo. E, ao chegar em casa, me ponho a ler as crônicas todas, vendo derrubadas todas as minhas reservas neófobas. A cada parágrafo, uma boa surpresa: aquele adjetivo bem colocado, aquela imagem surpreendente, os pontos nos lugares certos, o ritmo constante. E o melhor: o equilíbrio entre a norma culta e a coloquialidade.

Aos poucos, porém, o entusiasmo cede ao rigor. E aqui talvez seja necessário diferenciar o rigor de um leitor exigente da neofobia já expressada. A neofobia é perniciosa. O neófobo não chega nem perto do objeto de sua fobia e, se por acaso tem contato com ele, sua aversão é imediata. E principalmente irracional. Já o rigor só faz bem ao leitor (e ao escritor). O rigor é um sinal de deferência. Hoje em dia só sou rigoroso com os raros escritores contemporâneos que respeito.

O que mais incomoda na prosa de Adriana Sydor é a sujeição exacerbada da forma ao prosaísmo próprio da crônica. Isso está mais evidente no uso indiscriminado das letras minúsculas – o que já começa no título. O que parece só um capricho ou até mesmo uma excentricidade é tão-somente um recurso infantil que tenta reforçar o elo entre o texto impresso e a Internet, ao mesmo tempo enfatizando artificialmente a coloquialidade do texto. A verdade, porém, é que as letras minúsculas, bem como a falta de uma marcação clara dos parágrafos, tiram a atenção do leitor para o que o livro tem de melhor: o texto primoroso.

Outro senão (ainda que um senãozinho) fica por conta do prosaísmo do conjunto de crônicas que compõem o volume. Sydor fala do quartinho dos fundos, do frio, da chegada da primavera, de conversas a esmo, e por aí vai. Talvez seja um defeito próprio da crônica contemporânea, perdida entre a necessidade de expressar o cotidiano e a completa banalização deste mesmo cotidiano. Há, claro, certa beleza nestas banalidades do dia a dia. Mas a sucessão de não-acontecimentos cansa até mesmo os olhos mais generosos.

Rigores de leitor à parte, o que fica da prosa de Adriana Sydor é o domínio da linguagem, a capacidade de transmitir com beleza as imagens que lhe ocorrem, o coloquialismo natural e gracioso. Agora só resta me esperar que a escritora ambicione mergulhar um pouco mais na alma humana. Para usar a referência gasta do conselho de Guimarães Rosa a Fernando Sabino, e obviamente desvirtuando a sisudez do primeiro, diria que espero que, em breve, Sydor construa uma pirâmide sólida feita de gostosos biscoitos.

Mágica e maldição

por Paulo Polzonoff Jr. em 24 May 2016

 

Vamos nos esquecer?

— sugeriram em uníssono.

Deram-se as costas e,

encarnando a mágica,

apagaram-se da mútua memória.

 

(Um passo. Outro passo.

Tantos passos).

E novamente os tempos ousaram se cruzar.

 

Vamos nos conhecer?

— sugeriram em uníssono.

Aproximaram-se e,

desdenhando da maldição,

invadiram a mútua´lma.

A Arte de Ser Otário

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 May 2016

 

“Em tupi, ‘ritiba’ quer dizer ‘do mundo’”. Quando cunhou este delicioso aforisma, o saudoso Millôr Fernandes por sorte não encontrou resistência aqui no Primeiro Planalto. Eram outros tempos. Por mais provincianos que fôssemos (e ainda somos), sabíamos rir de nós mesmos – o que é virtude essencial para qualquer pessoa que dê valor ao Tico e ao Teco.

A despeito da propaganda esquerdista, ou talvez justamente por causa dela, o tempo passou e nos tornamos menos tolerantes. Muito menos tolerantes. Se Millôr sugerisse hoje em dia que Curitiba é o cu do mundo, era bem capaz de um curitibano mais exaltado, talvez até com aquele sotaque falso de Gleisi Hoffmann, entrar na justiça para processá-lo. Perdemos a capacidade de rir de nossa pequenez. O Tico e o Teco agonizam.

Há algumas semanas, quando um juiz sergipano mandou bloquear o serviço de Whatsapp em todo o Brasil, também eu não resisti e parafraseei Millôr, sem a mesma graça e originalidade, claro, dizendo que, em tupi, “gipe” significa “otário”. Não demorou muito para ser acusado de incitar o ódio contra os sergipanos. Até fui mencionado num jornal local como uma das pessoas que, naquele dia, expressaram preconceito contra os habitantes do honroso, minúsculo e insignificante estado de Sergipe.

Mais do que falta de humor, intolerância e burrice mesmo (quando não canalhice de esquerdopata), este tipo de leitura deixa clara a fragilidade de qualquer senso de identidade baseado na localização geográfica. Fulano é melhor ou pior por morar em Sergipe, no Maranhão ou no Acre? É mais nobre, inteligente e capaz por ser curitibano, carioca ou soteropolitano?

Mas não só. Nota-se na decisão por confrontar tudo o que nos ofende minimamente uma opção político-filosófica pela proteção, auto e alheia, extremada. Ao repreender ou até mesmo censurar uma piada, é como se as pessoas quisessem se proteger de tudo o que as fere, ainda que superficialmente. A linguagem se transformou numa espécie de colchão que nos acompanha pela vida, amenizando qualquer queda.

Quando, na verdade, a vida é feita também de frustração, de tristeza, de injustiças e – por que não? – de gracejos cotidianos cheios de preconceito e até uma raivinha passageira, destas que jamais ultrapassam os limites da jocosidade. Me dói falar uma obviedade desta, mas é preciso: não é nossa localização geográfica que nos torna maiores e menores.