A ruína das catedrais imensas

por Paulo Polzonoff Jr. em 22 June 2016

 

Este mês, pretendia escrever uma longa matéria sobre poesia. Liguei para umas cinco pessoas, amigos antigos e supostos leitores de poesia contemporânea. Nenhuma das conversas rendeu coisa que valesse a pena ser publicada. E o motivo é muito simples: a poesia morreu. Se esqueceram de enterrar o cadáver é outra história.

Não que eu me surpreenda, claro. Há algum tempo, quando ainda atuava como crítico, desconfiava. Ao meu redor havia muitos poetas e pouca poesia. E, aos poucos, os poetas também deram lugar a uns sujeitos que são uma mistura de palhaços e animadores de uma plateia composta por secretárias bilíngues solteironas.

Nada contra as secretárias, claro. Quero dizer que o leitor comum esclarecido simplesmente desapareceu. Se uns poucos adolescentes esquisitões leem poesia é porque o versinho é bonito (aquela balela quintanesca do passarão/passarinho). Você até encontra uns adultos que se dizem leitores de poesia, mas eles estão bêbados demais para conversar a sério sobre o assunto.

Se pareço reclamão e nostálgico, me perdoe. Não sou disso. Reconheço que a poesia se tornou algo tão anacrônico quanto a ópera ou a música erudita. É coisa para iniciados reunidos numa maçonaria informal. O leitor contemporâneo não tem tempo para a poesia. Não tem tempo para decifrar os versos do passado nem paciência para aguentar os trocadalhos do presente.

Falta, sobretudo, aspiração espiritual. Porque a boa poesia é aquele que dá um nó na corrente que prende a palavra ao fundo do mar. O verso não se compreende como a frase. É algo que talvez interesse aos neurologistas: poesia atiça aquela porçãozinha do cérebro a que damos o nome impreciso de alma.

E a situação, claro, não vai mudar. Meu filho não aprende poesia. Seu filho não aprende também. E, quando as crianças aprendem, aprendem errado. As salas de aula e os professores de literatura cada vez mais estúpidos são verdadeiros abatedouros de leitores em potencial. Até porque não há como a ignorância lançar luz sobre a ignorancinha.

Uma pena. Mas não para mim.

Porque eu tive a sorte de aprender a consumir poesia. Meu professor foi o dr. Autodidata – o melhor de todos. Como tutor, guiou-me um pendor natural ao bom-gosto e a busca pela elevação. Poesia, a rigor, não me serve de nada. A não ser quando, à noite, me bate o desespero para o qual encontro consolo na imagem poética: meu coração, afinal, tem catedrais imensas.

Para o desespero do neófobo

por Paulo Polzonoff Jr. em 14 June 2016

Sou inegavelmente um neófobo. Não me orgulho disso. Aprendi a ser assim depois de inúmeras decepções com jovens gênios, promessas, supostos virtuoses das letras e coisas afins. É uma pena, eu sei. Provavelmente ando perdendo a oportunidade de ler muitas coisas boas.

Neófobo que sou, pois, foi com aquele olhar meio constrangido que recebi toda prosa (assim, em minúsculas mesmo), de Adriana Sydor. Aquele sorriso amarelo. E aquela certeza de que jamais perderia meu tempo lendo o livro de uma autora desconhecida.

No táxi a caminho de casa, porém, eis que me vejo tomado subitamente pela vontade de saber o que andam escrevendo os “novos”. Não é uma sensação elevada porque, confesso, o que espero encontrar é algo que reforce minha antevisão pessimista quanto à literatura brasileira contemporânea. Me senti meio masoquista abrindo o livro. Como se precisasse dos defeitos de sempre (a pontuação mal-feita, rimas, cacófatos) para me sentir superior – ainda que inegavelmente infeliz e literariamente solitário.

Eis que abro o livro de crônicas a esmo, leio um parágrafo qualquer e fico pasmo. Nada menos do que pasmo. Porque há anos não lia nada tão bom quanto a prosa de Adriana Sydor. Fico tão perplexo que sou obrigado a reler o parágrafo. E tresler. Meu lado mais pessimista (um que raramente prevalece, mas) me manda abrir o livro em outro trecho, na crença de que o bom texto é exceção, não regra.

Mas felizmente me engano de novo. E, ao chegar em casa, me ponho a ler as crônicas todas, vendo derrubadas todas as minhas reservas neófobas. A cada parágrafo, uma boa surpresa: aquele adjetivo bem colocado, aquela imagem surpreendente, os pontos nos lugares certos, o ritmo constante. E o melhor: o equilíbrio entre a norma culta e a coloquialidade.

Aos poucos, porém, o entusiasmo cede ao rigor. E aqui talvez seja necessário diferenciar o rigor de um leitor exigente da neofobia já expressada. A neofobia é perniciosa. O neófobo não chega nem perto do objeto de sua fobia e, se por acaso tem contato com ele, sua aversão é imediata. E principalmente irracional. Já o rigor só faz bem ao leitor (e ao escritor). O rigor é um sinal de deferência. Hoje em dia só sou rigoroso com os raros escritores contemporâneos que respeito.

O que mais incomoda na prosa de Adriana Sydor é a sujeição exacerbada da forma ao prosaísmo próprio da crônica. Isso está mais evidente no uso indiscriminado das letras minúsculas – o que já começa no título. O que parece só um capricho ou até mesmo uma excentricidade é tão-somente um recurso infantil que tenta reforçar o elo entre o texto impresso e a Internet, ao mesmo tempo enfatizando artificialmente a coloquialidade do texto. A verdade, porém, é que as letras minúsculas, bem como a falta de uma marcação clara dos parágrafos, tiram a atenção do leitor para o que o livro tem de melhor: o texto primoroso.

Outro senão (ainda que um senãozinho) fica por conta do prosaísmo do conjunto de crônicas que compõem o volume. Sydor fala do quartinho dos fundos, do frio, da chegada da primavera, de conversas a esmo, e por aí vai. Talvez seja um defeito próprio da crônica contemporânea, perdida entre a necessidade de expressar o cotidiano e a completa banalização deste mesmo cotidiano. Há, claro, certa beleza nestas banalidades do dia a dia. Mas a sucessão de não-acontecimentos cansa até mesmo os olhos mais generosos.

Rigores de leitor à parte, o que fica da prosa de Adriana Sydor é o domínio da linguagem, a capacidade de transmitir com beleza as imagens que lhe ocorrem, o coloquialismo natural e gracioso. Agora só resta me esperar que a escritora ambicione mergulhar um pouco mais na alma humana. Para usar a referência gasta do conselho de Guimarães Rosa a Fernando Sabino, e obviamente desvirtuando a sisudez do primeiro, diria que espero que, em breve, Sydor construa uma pirâmide sólida feita de gostosos biscoitos.

Mágica e maldição

por Paulo Polzonoff Jr. em 24 May 2016

 

Vamos nos esquecer?

— sugeriram em uníssono.

Deram-se as costas e,

encarnando a mágica,

apagaram-se da mútua memória.

 

(Um passo. Outro passo.

Tantos passos).

E novamente os tempos ousaram se cruzar.

 

Vamos nos conhecer?

— sugeriram em uníssono.

Aproximaram-se e,

desdenhando da maldição,

invadiram a mútua´lma.

A Arte de Ser Otário

por Paulo Polzonoff Jr. em 13 May 2016

 

“Em tupi, ‘ritiba’ quer dizer ‘do mundo’”. Quando cunhou este delicioso aforisma, o saudoso Millôr Fernandes por sorte não encontrou resistência aqui no Primeiro Planalto. Eram outros tempos. Por mais provincianos que fôssemos (e ainda somos), sabíamos rir de nós mesmos – o que é virtude essencial para qualquer pessoa que dê valor ao Tico e ao Teco.

A despeito da propaganda esquerdista, ou talvez justamente por causa dela, o tempo passou e nos tornamos menos tolerantes. Muito menos tolerantes. Se Millôr sugerisse hoje em dia que Curitiba é o cu do mundo, era bem capaz de um curitibano mais exaltado, talvez até com aquele sotaque falso de Gleisi Hoffmann, entrar na justiça para processá-lo. Perdemos a capacidade de rir de nossa pequenez. O Tico e o Teco agonizam.

Há algumas semanas, quando um juiz sergipano mandou bloquear o serviço de Whatsapp em todo o Brasil, também eu não resisti e parafraseei Millôr, sem a mesma graça e originalidade, claro, dizendo que, em tupi, “gipe” significa “otário”. Não demorou muito para ser acusado de incitar o ódio contra os sergipanos. Até fui mencionado num jornal local como uma das pessoas que, naquele dia, expressaram preconceito contra os habitantes do honroso, minúsculo e insignificante estado de Sergipe.

Mais do que falta de humor, intolerância e burrice mesmo (quando não canalhice de esquerdopata), este tipo de leitura deixa clara a fragilidade de qualquer senso de identidade baseado na localização geográfica. Fulano é melhor ou pior por morar em Sergipe, no Maranhão ou no Acre? É mais nobre, inteligente e capaz por ser curitibano, carioca ou soteropolitano?

Mas não só. Nota-se na decisão por confrontar tudo o que nos ofende minimamente uma opção político-filosófica pela proteção, auto e alheia, extremada. Ao repreender ou até mesmo censurar uma piada, é como se as pessoas quisessem se proteger de tudo o que as fere, ainda que superficialmente. A linguagem se transformou numa espécie de colchão que nos acompanha pela vida, amenizando qualquer queda.

Quando, na verdade, a vida é feita também de frustração, de tristeza, de injustiças e – por que não? – de gracejos cotidianos cheios de preconceito e até uma raivinha passageira, destas que jamais ultrapassam os limites da jocosidade. Me dói falar uma obviedade desta, mas é preciso: não é nossa localização geográfica que nos torna maiores e menores.

Aos amigos que perdi

por Paulo Polzonoff Jr. em 30 March 2016

Caros e caras (eu me recuso a usar o moderno x para designar o gênero, embora saiba que vocês gostariam muito que eu também me rendesse a este recurso da novilíngua),

 

Tentei. Juro que tentei. Nos últimos meses, tirei paciência e tolerância do fundo da minha alma, recorri à generosidade mais absurda e, em algumas noites, ousei até pedir a um Deus em que não acredito que me fizesse ver tudo por outro ângulo, um ângulo banhado pela luz da mais brilhante condescendência. Mas não deu. E é assim, com pesar, que encerro nossa amizade por um motivo que parece tolo e passageiro, mas que não é.

Parece política partidária, petismo e antipetismo, golpe e não-golpe, estas palhaçadas todas. Infelizmente você, amigo e amiga, é tolo demais para cair nestes reducionismos. Não vê que o conflito aqui é muito mais profundo. E assustador. Não se trata de ser contra ou a favor de Bolsa Família, Pronatec ou qualquer outro programa governamental; não se trata de respeitar um visão de mundo diferente, mas que talvez tivesse como ponto de convergência o objetivo pelo bem comum. Não. Vai muito além disso.

Trata-se de um choque de valores. Você admira políticos, você defende governos, você usa com orgulho símbolos de agremiações de bandidos, você encontra justificativas para os atos criminosos destes bandidos, você vê teorias conspiratórias em tudo. E o pior: seu narcisismo é tal que você se acha superior por ver a Verdade onde ninguém vê; você se considera especial e membro de uma “casta” capaz de guiar o mundo. Você, sinto lhe informar, é tão-somente uma criança daquelas que se acha predestinada. E é justamente nesta soberba que se revela sua pequenez.

Um dia eu disse que você era inteligente? Me enganei. Não é. Você é culto, em que pese o sentido hoje esvaziado da palavra. Você leu determinados autores, ouve aqui e ali músicas boas, talvez saiba até admirar arte renascentista; você assistiu a bons filmes e talvez até tenha rido sinceramente de uma ou outra piada high brow do Woody Allen. Mas isso não faz de você inteligente. Porque nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente se submete à estética do coitadismo e do ressentimento. Nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente sai por aí repetindo slogans mentirosos. Nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente tem adoração por líderes políticos de qualquer matiz.

Se você é mau-caráter? Tenho minhas dúvidas. Na verdade, preciso acreditar que não. Acho mais que você se expõe assim ao ridículo por uma necessidade social. Você quer ser aceito pelas pessoas próximas. Só não entendo como alguém como você foi se cercar de pessoas tão desprezíveis. Por gente que explora a miséria alheia em troca de verbas publicitárias ou incentivos fiscais ou qualquer outra forma de cooptação criada por esta corja. Quero crer, amigo, que você se deixou contaminar pela sordidez, mas que um bom banho, no futuro, haverá de torná-lo respeitável novamente.

Não dá mais, amigo. Não dá. Eu tentei, juro que tentei. Parte-me o coração vê-lo partir com um chute no traseiro. Parafraseando todos os pais do mundo depois de uma bela cintada: dói mais em mim do que em você. E é verdade. Dói em mim. Uma dor que chega a ser física. Tenho vontade de chorar porque você é importante para mim. Mas, novamente, é uma questão de princípios: você defende uma cleptocracia – e isso é inaceitável. Pior: você faz malabarismos morais os mais toscos para justificar para si mesmo sua posição. Amigo, você é ridículo.

Vou guardar com carinho nossas melhores lembranças. E vou sentir falta de nossas risadas. O que não vou é esperar que você entenda meu afastamento. Afinal, amigo, sei que a autocrítica não é o forte do seu grupelho. Sei que, ao terminar de ler esta carta, você vai estufar o peito e dizer que sou um idiota. Talvez você diga até que sou um idiota tucano, um idiota de direita, um idiota neoliberal, um idiota a serviço do imperialismo, um idiota…

Dói muito dizer adeus. Mas é isso. Alguns chamam de danação, de fado. Eu chamo de sina. E, como já disse várias vezes, sinto que minha sina é esta: continuar lutando pela liberdade – inclusive daqueles que, como você, estão à vontade com a escravidão.

É sofrendo que me despeço,