Eu não sou besta pra tirar onda de herói

posted in: Crônica | 0

Não adianta. O canudo plástico caiu em desgraça e parece mesmo destinado à extinção. Aqui do conforto do meu apartamento no meio de uma metrópole, testemunho a extinção dos canudos sem saber se se sou a favor ou contra. Não é assunto que eu considere razoavelmente relevante. Mas, embora eu seja absolutamente contra o Estado se intrometendo nesse tipo de coisa, estou aberto, sim, à possibilidade de o canudinho representar um problema tão ameaçador ao meio-ambiente que justifique sua proibição sumária.

Vou dormir achando que a questão está encerrada, mas no dia seguinte me surpreendo com aquilo que chamarei de Revolta dos Cadeirantes – só porque eu posso. Um amigo, bancando o herói que acredita mesmo ser, ecoou, com cem mil pontos de exclamação e aquela indignação histérica característica dos aspirantes a heróis, a reclamação dos deficientes físicos que dizem que o canudo plástico é essencial para a existência deles.

De uma hora para outra, eu e todos que tínhamos alguma simpatia pela proibição (arght!) dos canudos plásticos fomos transformados em Canalhas Imediatos, só porque, aparentemente, somos insensíveis e reprováveis demais, uns verdadeiros pulhas incapazes de prever o impacto que uma medida dessas causaria na vida de tetraplégicos.

Meu amigo recebeu lá na rede social dele meia-dúzia de aplausos, o retuíte de um famosinho, a indignação solidária de um ou outro – e foi dormir herói da sua causa improvável, certamente embriagado da própria virtude. Eu, por minha vez, fiquei no meio da sala, assim apalermado, como me é característico, pensando nas virtudes, se é que há virtudes, em algumas pessoas que aprendemos a considerar heróis.

É uma dúvida que me persegue desde o caso Snowden. Lembra dele? O sujeito de repente virou um herói mundial por ter divulgado os planos de vigilância do governo norte-americano sobre seus cidadãos. Durante alguns meses (o equivalente a meia eternidade nos dias de hoje), não se falou sobre outra coisa. Pessoas foram demitidas, pessoas tiveram de dar explicações, pessoas ficaram trabalhando até mais tarde e talvez até pessoas tenham morrido – como deve ser em toda boa história de conspiração. E o resultado disso tudo? Nada.

Nada. Absolutamente nada. Snowden fugiu para a Rússia, virou documentário ganhador do Oscar e cinebiografia dirigida pelo diretor mais chato de Hollywood, Oliver Stone, e de vez em quando fala alguma bobagem no Twitter. Nenhuma vida foi salva pelo ato heroico de Snowden. Nenhum aspecto do Estado totalitário, controlador e invasivo foi mudado. E eu sou capaz de apostar a senha do meu wi-fi como o governo norte-americano continua a espionar seus cidadãos – e com ainda mais rigor.

Não que Snowden não tenha sido bem-intencionado lá do jeito dele. Todos os aspirantes a herói são. Fico imaginando o jovenzinho que assistiu a filmes de espionagem demais com todos aqueles arquivos comprometedores nas mãos, se encontrando com Glenn Greenwald em Hong Kong, numa cena sob direção de John Woo, se vendo assim como o grande Salvador da Privacidade Humana, digno de desfile em carro aberto pelas grandes metrópoles do mundo, estátua equestre e nosso agradecimento eterno.

Pena que a virtude de Snowden não resista a uma análise um pouco mais cuidadosa. Quem procurar heroísmo (com agá minúsculo mesmo, mas dito assim com ênfase e os olhos arregalados), quem procurar autossacrifício e altruísmo, corre o risco de, nesse e em outros casos, encontrar apenas ingenuidade e vaidade.

Outro herói do nosso tempo de cujas virtudes desconfio foi Stephen Hawking. E agora me ocorre, não sem uma pontinha de humor negro, que Stephen Hawking, vivo fosse, estaria usando sua voz digitalizada para se juntar à grita pela proibição da proibição dos canudos plásticos. Por motivos óbvios.

Pois Stephen Hawking morreu e logo em seguida li obituários e mais obituários exaltando as virtudes do físico inglês. Não pude deixar de notar que todos os textos que tive a oportunidade de ler mencionavam mais a terrível doença do cientista, esclerose lateral amiotrófica, do que seus feitos acadêmicos. “Suas [dele] descobertas mudaram a forma como vemos o Universo”, repetiram os jornais impressos, as rádios e as televisões. Mas será que mudaram mesmo? O quanto suas teorias sobre buracos negros, Big Bang e sei lá mais o que impactaram realmente a vida das pessoas?

Tenho dificuldades para encontrar outro sinal de heroísmo em Hawking que não o de sobreviver por décadas sobre uma cadeira de rodas, o corpo todo deformado por conta de uma doença horrível. Você pode argumentar que é esse mesmo o heroísmo, mas neste caso sou obrigado a engrossar a voz: mas então todos os sobreviventes de graves doenças motoras são dignas do epíteto “herói”? Ou teria sido Hawkins tão-somente um personagem pop, a tétrica personificação do gênio enclausurado ao próprio corpo, ao próprio intelecto?

O que nos traz à última personagem deste texto, a mais contemporânea e inegavelmente pop delas: Malala Yousafzai, por acaso de passagem pelo Brasil. Onde, ao que parece, a moça causou certa celeuma por aí ao se dizer antiarmamentista e, contraditoriamente (dizem), andar com dezesseis guarda-costas fortemente armados. Mas essa discussão não me interessa nem tampouco serve ao propósito deste texto.

A história de Malala, contudo, me interessa e serve. A essa altura todo mundo já sabe que ela levou três tiros na cabeça por causa de sua militância em defesa da educação das meninas sob o regime Talibã. E, neste sentido, a história dela é tão ou mais horrível do que a do cientista preso à cadeira de rodas. Deve ser muito ruim levar um tiro, quanto mais três, e, até por conta da minha condição de homem privilegiado, nem imagino as coisas pelas quais Malala teve de passar a fim de aprender a fazer divisão com dois algarismos na chave.

Mas, novamente, tenho dificuldades para entender o lado heroico da sobrevivência (não no sentido metafísico, veja bem). Para mim, a virtude que compõe um herói digno do nome é sempre um ato intencional de bondade em todas as suas múltiplas manifestações (compaixão, solidariedade, coragem, desapego e até genialidade). Malala foi, sim, mais corajosa do que Snowden ao desafiar os fundamentalistas muçulmanos. Afinal, ele não levou nenhum tiro. Mas no que essa coragem realmente se traduziu? Foi a atuação de Malala que melhorou a vida das meninas naquela região ou foi a atuação militar do Ocidente? Pior: será que a vida das meninas daquela região do planeta realmente melhorou?

Calma. Não se irrite. Não ainda. Porque não estou menosprezando os feitos de Malala, Stephen Hawking e Snowden. Aos 21 anos, Malala é hoje uma autoridade em… em… uma autoridade em alguma coisa. Hawking, além de enfrentar a doença, desenvolveu uma teoria que pode não ter mudado na vida das pessoas, mas que me faz ter pesadelos com a singularidade todas as noites. E Snowden me fez cobrir a câmera do laptop com um pedaço de esparadrapo – só por garantia, sabe como é.

Mas há um quê de ridículo em todo esse apregoado heroísmo. Uma credulidade infantil naquele mundo retratado em Imagine: sem governo, sem Deus ou religiões, com todo mundo de mãos dadas lutando pelo dia em que viveremos à base de poesia e energias positivas, guiados por líderes como Snowden, Hawking e Malala. Que, pensando bem, não são muito diferentes daquele meu amigo que se considerava (e ainda se considera) o mais virtuoso dos heróis por defender o direito dos tetraplégicos de usar canudos plásticos em lugares públicos.

O suicídio do menino Ney ou: a queda

posted in: Crônica | 0

Todo mundo se lembra de onde estava quando anunciaram a morte do menino Ney. Minha prima Clara, por exemplo, estava no velório de um parente distante e conta que a dor na capelinha triplicou quando alguém leu a notícia na Internet. Meu pai estava no trânsito e teve de parar no meio da avenida movimentada para assimilar o golpe. Dizem que, nas cidades menores, hordas de meninos saíram às ruas, as bolas de capotão sob os braços, chorando a ponto de abafar o som dos incansáveis carrilhões.

De minha parte a lembrança seria para sempre outra. Jamais me esqueci nem me esquecerei do dia em que concebi o texto que, dizem, acusam, atacam, provocou o suicídio do menino Ney. Era um domingo e Dora roncava baixinho ao meu lado. A luz do sol muito seco de inverno vazava pela cortina e não me deixava pegar no sono novamente. Puxei Dora para perto, a envolvi num abraço que misturava luxúria e preguiça, fechei os olhos e comecei a escrever mentalmente.

As primeiras palavras do texto desgraçado, aquelas mesmas que o menino Ney tomaria o cuidado de reproduzir em seu bilhete de suicídio, surgiram como uma reflexão antiga sobre a natureza humana. Ou melhor, sobre a natureza destes homens que de repente deixam de ser homens para se tornarem um norte na vida vazia de milhões de pobres-diabos que anseiam por mais dinheiro, mais mulheres, mais Ferraris na garagem e mais funk e pagode ao vivo em intermináveis festas ao redor de uma piscina.

Incapaz de prever a consequência do que estava sendo gestado em meu cérebro, ri ao sussurrar no ouvido de Dora as palavras que me tornariam um pária. Ainda hoje me dói reproduzi-las – algo que evito, a não ser que me paguem muito bem, obrigado. Ao ouvir aquilo, Dora, que estava semidormindo sobre meu peito, perguntou com os olhos ainda grudados de remela: “O quê?!” E eu, envaidecido que estava por ter concebido o versinho macabro, repeti as palavras como se elas expressassem toda a perspicácia da Humanidade. Dora riu. Não porque visse graça, e sim porque me amava, não queria me desagradar e estava com sono.

Não foi assim com o coração aberto que o menino Ney – e, posteriormente, seus fãs – leu aquelas palavras. Muito tempo depois, me disseram que ele interpretou “mau caráter” como se eu realmente estivesse falando do caráter dele. Que leu “idiota” como xingamento. Que leu “um bosta de um menino mimado que acha que a vida lhe deve reverência” como um ataque grosseiro à sua atitude de menino mimado que acha que a vida lhe deve reverência. E que, para o meu azar, leu “O menino Ney, se tivesse ao menos um farrapo de alma, estaria agora no parapeito de uma sacada contemplando a possibilidade de simular A Maior de Todas as Contusões, para o próprio bem e o bem da Humanidade em geral” como um conselho.

Depois que o menino Ney caiu da sacada de sua cobertura parisiense, da descoberta do bilhete de suicídio com minhas palavras ali reproduzidas, do banho de ovos na rua, das pichações no muro de casa, dos telefonemas anônimos, dos coquetéis molotov, da prisão, julgamento, absolvição, exílio e ostracismo, acredito que posso dizer que tive tempo de sobra para refletir sobre o que me levou a escrever aquele fatídico texto. Dora, o corpo liso de Dora aconchegado ao meu, o pescoço muito fino de Dora pedindo para ser beijado, Dora com aqueles olhinhos pequenos que brilhavam um brilho muito especial, ah, Dora tem um bocado de culpa nisso. Afinal, eu estava disposto a escrever qualquer coisa para tirar um sorriso dela.

A última vez que vi Dora foi na saída do tribunal, pouco antes de me banhar no alívio da absolvição. Vestindo uma camiseta autografada da seleção brasileira, ela tentou se aproximar de mim em meio à turba ensandecida de repórteres. “Pirocão! Pirocão!”, gritava ela, me chamando pelo apelido carinhoso que só usávamos em nossos momentos de maior intimidade, na esperança de se fazer ouvida. Nas mãos, Dora trazia o bilhete que no dia seguinte os jornais reproduziriam ao lado de longas análises de discurso e que dizia simplesmente “Se fode aí!”.

Depois de tanto tempo, é impossível não pensar em como teria sido minha vida se não tivesse escrito aquilo. Se tivesse trocado “idiota” por “néscio”, logo ali no segundo parágrafo. Se tivesse explicitado a ironia e o sarcasmo. Se tivesse legado o texto ao purgatório da minha gaveta. Se tivesse usado uma citação erudita para redimir ou justificar minha agressividade. Ou se simplesmente tivesse lido uma reportagem publicada no dia anterior sobre a depressão que acometia o menino Ney.

Ontem Dora me ligou. Perguntou como eu estava, se andava me alimentando direito, se tinha voltado a beber refrigerante e se ainda a amava. Ficamos horas ao telefone, rindo de piadas que eu julgava terem perdido a graça há muito tempo, evocando as melhores memórias da nossa história e usando inconfessáveis vocativos cafonas. Em nenhum momento falamos do menino Ney, que ainda hoje é exaltado como um dos maiores artilheiros do futebol mundial e cuja estátua equestre sou obrigado a encarar todos os dias a caminho da padaria.

Senta que lá vêm dúvidas

posted in: Crônica | 0

É estranha a lógica das redes sociais e o fascínio que essa mesma lógica, ou melhor, falta de lógica, desperta nos usuários – eu entre eles. A coisa toda nasceu como uma forma de você expor ao mundo suas ideias mais interessantes e seus sentimentos mais aflorados, da tristeza à raiva, passando aqui e ali por um segundinho de felicidade. As redes sociais, portanto, seriam uma forma de comunhão, embora sem a Graça e a empatia. Mas qual o propósito dessa exposição? Ou, para usar uma imagem eclesiástica, o que pretende o Grande Confessor (e o que esperamos dele) que recebe de braços abertos nossos pecados cotidianos narrados com ou sem erros de ortografia e entremeados por emojis?

Lógica estranha, insisto e desenvolvo. Penso naquela pessoa que agora mesmo está abrindo esta rede social para escrever que está triste, que passou por uma decepção amorosa qualquer, que está prestes a ser demitida ou pedir demissão ou que está cansada. O que ela espera realmente ao expressar todas essas coisas? Qual o cenário que ela mentalmente projeta a ponto de justificar a exposição de suas mazelas?

Aqui escrevo sobre uma “pessoa”, assim sem qualquer resquício de personalismo, mas obviamente tenho a mim mesmo como exemplo. Passei anos (anos!) registrando tristezas e alegrias em redes sociais. E o que eu queria exatamente? Pior: o que eu esperava que acontecesse com o leitor que, em São Paulo, Natal ou Macapá, lesse as agruras e arroubos do meu cotidiano?

Na época eu não sabia, mas hoje sei bem o que eu esperava. Porque tive a oportunidade de parar e pensar. Quer saber? Eu esperava por um milagre. Esperava que, ao me dizer cansado, a porta de casa se abrisse e por ela entrasse uma mulher para passar a mão na minha cabeça, tirar meus sapatos apertados e me pôr na cama – para dormir. Ao me dizer triste, esperava que o telefone tocasse e que do outro lado alguém me confortasse com chavões necessários. Ao registrar minhas maiores e angústias e preocupações, imaginava o milagre da mão amiga dizendo: “Eis aqui a oportunidade pela qualquer você tanto ansiava”.

Ao mesmo tempo, ao registrar momentos alegres (sempre mais raros), que iam desde epifanias complexas até o prazer de comer uma fruta-do-conde pela primeira vez, esperava que do outro lado alguém abrisse o sorriso mais largo do mundo ou que, no caso da fruta, salivasse. Esperava que alguém aparecesse para me dizer que agora – agora! – eu era uma pessoa digna de estima e companhia, você não quer tomar um café comigo e ser meu amigo para sempre ou até casar comigo, sei lá?!

Há quem também registre os sentimentos cotidianos como forma de arquivo pessoal. E os que percebem em tudo o que escrevem nas redes sociais um potencial literário. Aqui, novamente, sou obrigado a perguntar uma pergunta que também é para mim: você realmente acha que alguém vai ler o post ou texto brilhante (e às vezes é mesmo brilhante, fazer o quê?) que você escreveu e sair por aí exaltando suas qualidades?

Você acha que alguém vai mesmo amá-lo, no sentido mais amplo da palavra, porque você escreveu O Melhor Microconto do Mundo, porque ficou feliz ao comer fruta-do-conde pela primeira vez ou porque está cansado depois de um dia de trabalho?

Você acha que alguém se importa?

E não, a ironia de estar escrevendo este texto e o divulgando as redes sociais não em escapa. Tampouco me incomoda. Porque agora, neste exato momento, o que prevalece no autor não é a esperança de encontrar solidariedade (quase escrevi cristandade), compaixão, generosidade, curiosidade e de vivenciar todo aquele sonho que ganha forma em nossa cabecinha assim que apertamos o botão de “compartilhar”.

Se escrevo o que escrevo é para propor ao outro uma dúvida que ele provavelmente nem sabe que tem e eu, por acaso, acabei de ter: que lógica é essa que nos move a existir para além de nossas vidas, a ponto de muita vezes nos identificarmos mais como avatares e arrobas do que como aquilo que somos quando não há sinal de wi-fi no ambiente?

Como odeio terminar texto com ponto-de-interrogação, escrevo este último parágrafo para dizer que, sei lá, tô cansado.

O óbvio necessário de Jordan Peterson

posted in: Livros | 0

Você não vai ler Jordan Peterson porque ele é de direita e não gosta muito das meias coloridas do Primeiro Ministro do Canadá. Você não vai ler Jordan Peterson porque ele é o “filósofo da testosterona”, como escreveu alguém. Você não vai ler Jordan Peterson porque ler autoajuda é coisa (nas suas palavras) de idiota. Você não vai ler Jordan Peterson porque Maps of Meaning é muito melhor e você não tolera essa coisa de sucesso (alheio). Você não vai ler Jordan Peterson porque Deus me livre ler alguma coisa que me ensine algo e me faça mudar para melhor, não é mesmo?

Uma pena. Porque você deveria ler 12 Rules, de Jordan Peterson. Ler devagar, com a cabeça aberta e principalmente o superego (sim! Você tem um!) ligado. Ler porque, bom, sei que você chegou à maturidade e agora acredita que sabe tudo, mas, vamos combinar, não sabe. Não sei, não sabemos – e infeliz daquele que pensa que sabe! E ler sobretudo para tentar (e, quem sabe, conseguir) entender por que algumas pessoas se deleitam com a própria inveja e ressentimento, enquanto outros… enquanto outros estão lendo autores como Jordan Peterson num esforço para serem pessoas melhores – o que quer que isso signifique.

É, pois, na esperança de que você supere a enxurrada de informações sobre o autor e as reações extremadas de leitores mais xucros, que escrevo este texto. Compartilho algumas impressões para, quem sabe, encontrar um interlocutor, silencioso ou não, numa caminhada mais sábia e pacífica rumo ao fim comum. Vou me frustrar, bem sei, mas não me importo. Simplesmente porque faço o que é o certo.

Antes de entrar nos muitos méritos do livro, talvez seja bom destacar dois problemas do dodecálogo petersiano. Duas ausências que, se não tiram o valor da obra, e não tiram mesmo, me fizeram questionar alguns aspectos da visão de mundo do autor. Uma delas é o humor – e não só no estilo quadradão de Peterson. Ao longo das doze regras, não encontrei nenhuma menção à necessidade do humor, à função deste tipo de linguagem nas interações “de alma a alma” e, por fim, à decadência do humor nestes tempos em que todo mundo se ofende por causa de tudo. Talvez seja uma diferença cultural e o canadense prefira se proteger do frio extremo com uma seriedade que me é incompreensível. Talvez (provavelmente) tratar de humor não coubesse num livro cuja proposta central me parece ser justamente a de encarar a vida com coragem, altivez e… seriedade. E talvez o humor seja algo até pernicioso para quem se norteia pelo princípio do tal “seja preciso em seu discurso”.

A outra ausência é mais complicada (e mais implicância minha mesmo). Num livro que se pretende a um guia para uma vida realmente virtuosa, a ausência de um ensaio que falasse sobre o papel ambíguo da vaidade na formação do caráter, no posicionamento hierárquico e, por consequência, no fomento à dupla ressentimento & inveja – a que dá origem ao homem vil, fraco e inequivocamente perdedor (por mais que tenha assumido aquele cargo lá na Secretaria Municipal do Nada) –, uma ausência assim me parece falha grave. Tal falha talvez se explique justamente pela ascensão rápida de Peterson ao estrelato. É difícil resistir ao canto da sereia representado pela aceitação popular – até mesmo e sobretudo para um intelectual.

Agora que já falei daquilo que vejo como problema só porque sou um chato, convém falar do que é bom, ótimo, excelente e realmente capaz de mudar a vida de alguém – desde que, claro, você já tenha algum estofo para entender as referências de Peterson. Ao longo da leitura, fiquei imaginando como o livro seria (será) compreendido por alguém a quem falte a base cultural sobre a qual se apoiam as doze regras. A oitava regra, por exemplo, é das coisas mais espetaculares que já li na vida, mas também me pareceu quase impenetrável para o leitor comum. Ou eu que sou burro demais mesmo e tive de ler e reler e tresler algumas páginas – o que é sempre uma possibilidade. Da qual, aliás, não me envergonho. Afinal, se tem uma coisa que aprendi com JP é que só o mal acredita não ter mais o que aprender.

Curioso que, nos últimos meses, vi muita gente escrevendo sobre – e somente – a primeira regra do livro – será que ignoraram as outras? Não em surpreenderia. A primeira regra é aquela que fala de hierarquia e de lagostas e da necessidade aparentemente banalíssima de se portar ereto, com os ombros para trás. Isto é, de encarar a vida de frente e expressar coragem. A platitude do conselho, confesso, me desanimou um pouco, mas talvez isso tenha a ver com minha postura diante da vida. Apesar de ter caído em depressão por alguns anos, antes e depois dessa minha estadia no inferno sempre procurei encarar a vida com o porte e a atitude de um lagostão dono do pedaço. Parece fácil, mas não é. Ainda mais nos tempos vitimistas em que vivemos. Mais fácil parece ser assumir alguma ou muitas fragilidades e viver em submissão eterna.

É preciso ter em mente que Peterson fala para o jovem desesperado, à beira ou já imerso no niilismo, aquele ao qual falta uma fé mais substanciosa (algo que vá além do que é dito no púlpito pentecostal) e um sentido mais amplo para a vida. É um público para o qual, por negligência dos pais, do sistema educacional ou até mesmo pela ausência de um Velho Sábio na aldeia, falta justamente o óbvio.

Porque, ora, a rigor todo mundo já sabe que é preciso se tratar bem, ter amigos que querem seu melhor, não nutrir inveja, arrumar o quarto antes de querer arrumar o mundo, almejar algo mais concreto e duradouro, falar a verdade, ser curioso, não desencorajar os outros e agir com um mínimo de ousadia. Todo mundo sabe, mas não custa lembrar. E tanto melhor se formos lembrados dessas verdades universais justamente numa época quando o caos, antagonista de tudo o que está aí, nos é esfregado na cara diariamente. (Deixe de fora o capítulo que fala sobre a educação dos filhos porque acho que ele destoa bastante dos demais).

Como escreveu (ou disse, sei lá), André Gide, frase esta que li nas últimas páginas de uma Reader’s Digest, “tudo já foi dito uma vez, mas, como ninguém ouviu, é preciso que se repita tudo de novo”. Só não espere encontrar em 12 Rules o consolo mentiroso de todos os livros de autoajuda que você certamente já leu. Não, você não é especial. E não, o Universo nem sempre conspira a seu favor (embora possa conspirar às vezes). E, por fim, não, um “não” que deve ser tatuado na alma com a mais eterna das agulhas de tatuar: não, você não será jamais a melhor versão de si mesmo, por mais que a Oprah insista nisso. Digo, você deve sempre buscar ser a tal melhor versão de si mesmo, mas também deve saber que jamais alcançará verdadeiramente esse objetivo, sob o risco de sofrer a mais penosa das mortes em vida.

Sei que o doutorzinho canadense está na moda e que toda moda tem um quê de picaretagem. Mais do que ninguém, me incomodam essas “unanimidades” que surgem aqui e ali, de tempos em tempos. E, caramba!, entre uma página e outra reconheço que cheguei a perguntar “quem esse cara pensa que é para me falar isso?”. Mas, amigo, é preciso ser generoso e abrir as portas da alminha que o cotidiano insiste em fechar. Leia Jordan Peterson hoje mesmo e, como eu, resmungue por não ter podido ler algo assim há vinte anos. Leia 12 Rules hoje mesmo e, depois, me convide para um café. Merecemos.

(Publicado originalmente na revista Amálgama).

Buceta rosa

posted in: Crônica | 0

Hoje quis escrever um texto sobre o caso da “buceta rosa”. Na verdade, ontem. À noite. Antes de dormir. Pus a cabeça no travesseiro e, entre um ronco e outro, rascunhei mentalmente a história toda. Houve um momento, antes de finalmente pegar no sono pesado, em que cheguei a pensar que a história renderia um romance – ou no mínimo uma novela. Mas daí o dia nasceu, outros trabalhos tiveram prioridade e o texto, a despeito da gritaria na minha cabeça, acabou abortado.

Para quem não sabe ou chegou aqui por acaso, movido pelo título sensacionalista ou por instintos primitivos inconfessáveis, depois de uma busca apressada e equivocada no Google, resumo o acontecido que quase – quase – me serviu de inspiração. Durante a Copa da Rússia, um grupo de brasileiros se filmou abordando uma moça de traços eslavos (muito loira e branca, mas que não consigo achar muito atraente porque os traços dela lembram os da minha tia) e se pôs a entoar assim uma espécie de versão chula do Cântico dos Cânticos: buceta rosa! buceta rosa! buceta rosa!

Ali com os homens ao redor, a russa (suponho) repetia as palavras, provavelmente porque um daqueles brasileiros ali disse (mentiu) previamente a ela que “buceta rosa” em português significava algo como “viva o futebol!” ou “a Rússia é o melhor país do mundo!” ou quaisquer dessas coisas que se diz em torneios de futebol. E os homens riam e a mulher ria e alguns espectadores do vídeo riram, ao menos antes da Indignação Geral.

Disseminado pelo indefectível Whatsapp, o filminho de poucos segundos causou comoção, revolta e, como é normal nos dias de hoje, muito ódio. Um dos homens que aparece na imagem foi demitido. Os jornais publicaram laudas e mais laudas de pessoas virtuosas inconformadas com o assédio, a violência e até mesmo o estupro verbal (e poliglota, eu acrescentaria) da russa anônima. As feministas disseram “eu não avisei?” e houve até quem visse no episódio uma expressão clara do racismo, por causa de uma suposta predileção nazista pelas carnes rosadas.

Tudo isso me levou a certa exaustão, confesso, mas por outro lado atiçou minha sempre animadinha criatividade. Queria escrever sobre o assunto porque acredito que ele reúna alguns aspectos universais das relações humanas, da necessidade de ser engraçado para se sentir amado (num sentido mais amplo do termo) ao comportamento de manada, passando, obviamente, pelo machismo e, já no fim da história, pelo perdão que se pede e se dá ou não.

Imaginei, primeiro, o título. E nenhum título causaria mais espanto ao leitor do que o explícito “Buceta rosa”. Mas daí já previ a cara de repulsa dos leitores, a incapacidade de se perceber a ironia da coisa toda, a censura de familiares e amigos e até a impossibilidade de se divulgar algo com este título nos puritanos sistemas de publicidade digital das igualmente puritanas redes sociais. E o projeto começou a morrer.

Depois, imaginei os personagens. O Fulano que foi demitido eu poderia misturar ao Sicrano que pediu desculpas públicas com uma expressão de pavor que só vi antes em parricidas retratados por jornais sensacionalistas. Outra personagem necessária era a mulher-vítima, para a qual eu tinha até dado um nome simpático – Irina – e um sobrenome para exibir todo o meu conhecimento de literatura russa: Bulgakov.

Entre os personagens secundários estavam a mãe e a namorada do Fulano e o marido de Irina Bulgakov, um pintor de paredes russo cujo passatempo preferido era assistir ao noticiário esportivo em idiomas que ele não domina, como, evidentemente, o português. À noite, delirando com a ideia de poder escrever algo mais caudaloso do que esse texto apressado, incluí na história até mesmo uma ativista dos direitos das mulheres na Rússia e um promotor público já rascunhando o pedido de prisão do Fulano. Mas deixei para lá.

O enredo eu meio que o delineei no fim de semana, ao escrever o seguinte post, devidamente desprezado por meus “amigos”:

Pensei em descrever todos os pensamentos, ou melhor, impulsos que levaram Fulano a cercar Irina Bulgakov, incentivando-a a tecer loas à buceta rosa. Quis fazê-lo se lembrar de alguma traquinagem infantil (proibidíssima nos dias de hoje), como defecar numa caixa de pasta de dentes, embrulhá-la com papel de presente e colocá-la na rua até que alguém reconhecesse o embrulho, o pegasse do chão e. Almejei retratar com o máximo de poesia possível o prazer físico, emocional e – por que não?! – mental de, no meio da rua, gritar “buceta rosa!” ao lado de uma mulher russa. E quis muito mais.

Irina merecia um capítulo à parte. Um capítulo no qual ela chegaria em casa para encontrar um marido muito russo e muito bêbado. E também muito feliz. Por causa de seu passatempo inusitado, o marido de Irina (que não merece um nome para si) veria a mulher no noticiário brasileiro. Mas, sem entender português, ele suporia se tratar apenas de uma matéria sobre torcedores brasileiros na Rússia. Para contrariar a expectativa dos leitores, terminaria a história de Irina com uma cena de sexo apaixonado entre ela e o marido. Sim, sexo apaixonado, porque o marido de Irina, ao vê-la na televisão brasileira, a viu como há muito tempo não via, como a mulher atraente que ela realmente era e por quem ele ainda imberbe tinha se apaixonado.

Aí eu acho que retomaria a história do Fulano. O execrado Fulano, demitido (“bem-feito!”), abandonado pela mulher e repreendido pela mãe que, envergonhadíssima, tenta até se matar. Narraria a queda de Fulano com os tons mais cinzas que eu encontrasse em meu parco vocabulário. E encerraria com um quê de absurdo: Fulano morando na rua, cheio de crack na cabeça, pedindo perdão a pessoas aleatórias em troca de uma esmolinha, pelo amor de Deus.

Mas daí, e ao contrário dos brasileiros que gritaram “buceta rosa” para a moça, pensei melhor. Não satisfeito, pensei mais um pouco. E, antes de desistir completamente, tentei ainda encontrar um título mais poético e tão incisivo quanto, forte e ao mesmo tempo engraçado, que levasse a pessoa a começar (e, com sorte, terminar) a ler um longo texto sobre o caso da buceta rosa sem se importar muito com a ojeriza natural que o termo causa. Só que nada nesse sentido me ocorreu.

A partir daí, as coisas só pioraram. Imaginei um leitor ou muitos leitores indignados comigo não por causa do palavrão no título, mas por estar “justificando” a piada (ou o assédio, violência, estupro verbal, você é quem sabe) dos brasileiros e por estar sendo “ofensivamente irônico” ao retratar uma Irina feliz, bem casada e sexualmente satisfeita na sociedade machista russa. Antes mesmo de começar a escrever qualquer coisa, vislumbrei um dedo furioso apontado na minha direção, me acusando de ser um irresponsável. “Não se perdoa esse tipo de coisa, cara!”, diz o dedo. Quando, por trás dele, surgem olhos esbugalhados que vão ainda mais longe e atacam meu moralismo por ressaltar, na história, a importância e a necessidade do perdão.

Por fim, me vi deitado no chão, a boca escancarada num risada paranoica, me imaginando acusado de bucetarrosismo, isto é, de fazer piada inconveniente sobre tema sério e, assim, violentar moral e emocionalmente alguém que (por ironia, uma ironia tão explícita que me arrepia, não está percebendo a ironia?, procure de novo, leia de novo) não entendeu nada do que escrevi, porque o que eu escrevo muitas vezes pode soar como português a um russo.

E daí eu desisti.

(Publicado originalmente na revista Amálgama).

Um livro não é um livro não é um livro

posted in: Crônica | 0

Reza a lenda que JD Salinger deixou de publicar suas histórias porque queria que um livro fosse apenas um livro. Isto é, ele queria uma capa sem imagens, nada de orelha ou texto no verso e, evidentemente, nada do próprio nome ali estampado como se fosse, para o leitor, uma garantia de qualidade. Salinger queria que o livro fosse apenas um meio de transmitir histórias e conhecimento, sem o auê todo em torno do objeto e, por consequência e perversão própria do nosso tempo, do autor.

Mas a maior ambição de Salinger com esse projeto natimorto era mesmo a criação de uma espécie de leitor perfeito, puríssimo. Um leitor concentrado nas palavras, vivendo uma experiência de leitura imaculada, sem qualquer mancha ou influência do que disse Beltrano e Sicrano (sem falar no Fulano, aquele idiota!). Um leitor zen de uma literatura idem.

E há livros que conseguem ser assim apenas um livro. Não como Salinger queria, até porque o mercado editorial não pode prescindir de seus autores-estrelas e de seus capistas hipercriativos (e também porque só o zen é zen). Mas ainda assim um livro, uma história que você acompanha com interesse e que, com alguma sorte, vai embalar seus sonhos ainda por algum tempo. Uma narrativa que você vai evocar do nada no meio de uma conversa ou que vai recomendar a um amigo.

Mas há livros que, por circunstâncias alheias tanto ao escritor quanto ao leitor, são muito mais do que um livro. Ou melhor, muito menos. Há livros que são a realização de um sonho; outros, a evidência de um pesadelo, tanto para o leitor quanto para o próprio escritor (mas, neste caso, para o leitor). Há livros que fazem parte de uma iniciativa política internacional (Cem Anos de Solidão e Dr. Jivago, por exemplo). Há livros que são a exaltação de tudo o que há de mau no tempo em que foi escrito ou no tempo em que está sendo lido. Há livros que, sinceramente, e a despeito da qualidade literária inegável, servem mais como peso de porta ou calço para a mesa.

Escrevo isso porque estava lendo um desses livros. Estava. Era minha terceira tentativa de avançar no romance. O livro é bom, talvez até ótimo e excelente, mas a cada página virada eu me arrepiava, me retorcia, me encolhia sob as cobertas, sentindo ao mesmo tempo pena e raiva de mim mesmo, com nojo desse ressentimento que não quero para mim, não, sai daqui, me sentindo pequeno diante de toda a força do mundo, o que quer que isso signifique, me sentindo sobretudo abandonado, irremediavelmente abandonado.

O escritor, coitado, não tem nada a ver com isso. O escritor, neste caso específico, é bom e merece todos os elogios (na verdade nem todos, mas não convém, aqui, fazer crítica de livro abandonado) que já andei lendo por aí. O escritor, eu tenho vontade de conhecê-lo, abraçá-lo, beber uma cerveja com ele, rir e conversar sobre todas as coisas do mundo, inclusive sobre literatura. O escritor, eu o admiro e desde já peço as mais sinceras desculpas.

Mas há livros, insisto, que não são apenas um livro. Você o compra e já à porta da livraria se arrepende. Sente um vento frio que não vem da rua, e sim da própria alma. Olha em torno e, de repente, percebe toda a pequenez, a mesquinharia. Próprias e alheias. Sente nojo de si, do mundo, do tempo. Mais tarde, já em casa, você se deita com o livro na cama e logo na primeira frase se sente sujo, não!, imundo e humano demais com essa inveja que não combina com você – nem com o livro.

Isso não aconteceria se todos os livros fossem apenas livros, como queria Salinger. Ou se todos os autores estivessem mortos. Ou se todos os leitores fossem assim seres puros e elevados. Ou ainda se, naquele dia, naquele exato momento em que abri o livro e li o primeiro parágrafo e as cem páginas seguintes, eu não tivesse me lembrado de uma, dez, mil conversas e quinhentas mil palavras e meia tonelada de rancores que não tinham nada a ver com o livro – e que, no entanto, o impregnavam.

 

(Texto originalmente escrito no Mínimo Múltiplo).

 

Sonhos

posted in: Crônica | 0

Quando estava no fundo mais fundo do poço profundo em que me enfiei por umas tristezas que nem vale a pena comentar, costumava dizer às pessoas que não tinha mais sonhos. E por um motivo simples: eu havia realizado todos os meus sonhos até então.

E não falo dos sonhos bobinhos que todo mundo tem. Se bem que esses também (com o perdão pela rima). Plantei minha primeira árvore ainda criança, no colégio. Passei por lá outro dia e vi que as árvores deram lugar a um condomínio, mas isso não é problema meu. Livros antes dos trinta eu já tinha escrito dois. E filho eu tenho um que é muito mais do que eu poderia ter sonhado um dia.

Para todos os efeitos, e a despeito da tristeza assustadora por trás daquelas cortinas pesadas e escuras, eu era um homem ultrarrealizado. Tinha amado todas as mulheres que quis amar, tinha conhecido todas as pessoas que quis conhecer, tinha escrito tudo o que sonhei escrever e tinha até trabalhado nas empresas que quis. E isso era um grande problema que eu não via como solucionar, a não ser morrendo e nascendo outra vez – equação da qual eu só conhecia a primeira parte.

Não sei se morri e nasci de novo. A imagem é muito comum e pobre, até mesmo para um texto apressado destes. Só sei que, nos últimos anos, me peguei tendo uns sonhos novos e deliciosos que só pecam por um motivo: eles não têm nada a ver com o sonho de todo mundo, o que me deixa com uma sensação incômoda de isolamento existencial que talvez um dia (provavelmente nunca) eu explore.

O fato é que hoje em dia tenho sonhos tinindo de novos, dentre os quais vou mencionar três que me ocorreram ainda agora há pouco no banho. Na verdade pensei em muito mais do que três sonhos, mas entre o banheiro e o escritório eu me esqueci da maioria. O que me faz pensar que um sonho bom para o futuro é ter uma memória melhor, mas só se eu puder continuar esquecendo tudo o que não vale a pena lembrar.

Onde estava mesmo? Ah, sim. Sonhos. O primeiro deles é pilotar (não sei se este é o verbo exato) um daqueles jatos d’água antimanifestantes. Imagino que hoje em dia o sistema seja todo automatizado, mas em meu sonho estou lá no alto, segurando a bazuca d’água, muito compenetrado, como convém, mirando nos manifestantes lá embaixo e jogando baldes e mais baldes de água fria neles, independente da causa que estejam defendendo.

O segundo sonho é mais simples e realizável, ainda mais se algum produtor rural estiver lendo este texto. Quero e vou, antes de morrer (a não ser que o avião caia amanhã), dirigir uma colheitadeira. É provável, contudo, que na vida real eu tenha de dirigir todo certinho, guiado por um sofisticado sistema de GPS. Mas, como sonho bom é sonho insano, minha vontade mesmo é de guiar a colheitadeira feito um louco por sobre hectares e mais hectares cobertos de trigo.

Por fim, mas não menos importante, ah, de jeito nenhum, talvez mais importante do que qualquer sadismo aquoso ou insanidade agrícola, sonho em um dia poder dormir abraçado a uma preguiça. Sim, bicho-preguiça. Dormir de conchinha, eu spoon e ela spoonee, estes dois seres magníficos numa disputa acirrada para descobrir quem dorme mais.

(Eu, claro).