Ódio (um autoflagelo por escrito)

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Até eu, que não odeio ninguém, e não odeio mesmo, nestes tempos conturbados me pego odiando. Há alguma coisa no ar, não sei se o chumbo acumulado na atmosfera desde o início da Revolução Industrial ou sutis forças gravitacionais de Júpiter e Saturno ou ainda invisíveis íncubos e súcubos. Há algo de tenso, de carregado, de satânico, de mortal. E, quando dou por mim, assim no meio do dia, sob a água quente do banho, no conforto da minha vida segura e tão estoica quanto possível, estou odiando.

Em minha defesa posso dizer que meu ódio é estéril. E rápido. Uma coisa assim à toa, uma sinapsezinha que quase nem se completa, de tão fraca, coitada. Não escrevo virulentos ataques, não esmurro a porta, não xingo nem saio por aí querendo a eliminação de ninguém. Não construo gulags. Longe de mim! Meu ódio está mais para um mal-estar, um flato espiritual desses que a gente solta envergonhado, mas que simplesmente não dá para segurar.

Desculpe.

Mas é ódio, sim, reconheço morrendo de vergonha. É ódio no sentido de ser o oposto do que entendo por amor. Sou humano, vocês que me perdoem, mas sou, e às vezes o perdão me escapa e baixa em mim um espírito justiceiro que não aceita o que ouço, o que vejo, o que leio, simplesmente porque não é possível que aparentemente todo mundo à minha volta tenha desistido de alcançar uma espécie de santidade, de elevação, de transcendência.

Não é possível, meu amigo, que você tenha se entregado ao enfado e ao cinismo. Não é possível, minha querida, que você tenha se deixado seduzir pelo prazer rápido e fácil e superficial de um like. Não é possível, pô, que você tenha engolido de bom grado (e por vontade própria) essa pílula do antropocentrismo que consola, mas não salva. Não é possível, meu caríssimo, que você realmente prefira passar o que resta da sua vida abduzido por suas próprias certezas.

Meu ódio se dissipa facilmente. Ainda bem. Mas deixa marcas. Cicatrizes. Ódio é de fogo – qualquer esotérico de esquina sabe disso. Me levanto esbaforido, a carne aqui e ali fumegando, e em torno tudo está de novo tranquilo: há futuros a almejar, mulher para beijar, filho para sorrir e até aquele pratão de feijão, arroz e carne moída para devorar. Para o apartamento vazio digo bem baixinho (não quero acordar os vizinhos) que nunca mais me deixarei levar pelo ódio, este ou aquele ou qualquer outro. Nunca.

Mas daí me olho no espelho e o ódio volta: ódio do homem que não se permite ser falho, não se permite odiar um ódio que, veja bem, é só uma cosquinha inofensiva, um bufar mais demorado, um revirar de olhos. E um profundo medo de morar para sempre no gulag do coração de alguém.

A frase

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— Eu… Eu matei. Esfaqueei. O amor. Da. Minha vida. Sangue. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Venha! Venha! Acho que não. Morto. Muito sangue. Jesus, quem vai limpar todo esse sangue? Me prenda, me prenda. Venha! Vou deixar a porta aberta.

Quando os policiais chegaram, encontraram Rebeca ajoelhada ao lado do corpo do marido. Raul olhava para o teto com os olhos esbugalhados e um sorriso agora eterno, o peito mortalmente ferido por instrumento perfurocortante, como dizem os peritos.

— Por quê, meu Deus?! Por quê? — se perguntava a assassina viúva. Era teatro. Rebeca sabia muito bem por que tinha matado o marido. Foi por causa da frase. Da frase e da concepção da frase.

Mas isso ela jamais admitiria.

 

*

 

Raul estava entrando no banho quando lhe surgiu a frase (tecnicamente uma sentença).

Começou com uma menina nova junto de um velho, e esse velho foi envelhecendo ao longo da frase, alcançando setenta ou oitenta anos já no ponto final. A menina, por sua vez, no começo era apenas uma adolescente, maior de idade ou com dezessete anos e onze meses, e no pleno gozo de suas faculdades mentais, como se diz. Mas envelheceu, ou melhor, foi obrigada a envelhecer (não muito) para evitar acusações de pedofilia ou coisa que o valha dos leitores oh sempre tão puritanos. Então vamos dizer que a menina tinha lá seus vinte e dois anos recém-completados.

Aí Raul foi elaborando a coisa, jogando uma pimentinha aqui, um salzinho ali, um vinagre balsâmico acolá. E, quando deu por si, Raul estava num quarto de motel bem cafona, diante do velho e da menina, ela só de calcinha e ele com a pança peluda espalhada pela cama, o pinto murcho ou, pior, naquela semiereção que é só e sempre uma deprimente promessa não-realizada. Aí a menina, com toda a lascívia que lhe era permitida àquele horário e com uma calcinha daquelas, fez o biquinho mais perfeito do mundo e disse:

— Tio, eu nunca fiz isso…

(Ela chama o velho de “tio” não porque o veja como um tiozão. Não. Na realidade, a menina gosta do velho. Talvez até o ame. Ela vê nele uma fonte de conhecimento e sabedoria. Ela o admira por tudo o que ele já realizou na vida. Ela se orgulha de entrar com ele nos restaurantes, as pessoas todas pensando que ela, ah, ela é especial, ela é inteligentíssima, ela é a mulher, não a menina, capaz de seduzir um homem. Um homem mais velho. Aquele velho. Ela o chama de tio porque… porque combina com a cena que Raul está imaginando, oras!)

Ao que o velho respondeu o de sempre:

— Nunca fez? Tem certeza?

— Não. Não sei fazer isso. Mas eu quero tanto…

— Vem cá, sua putinha. Deixa que eu te ensino.

Aí Raul olhou para o espelho e riu. Da traquinagem, sim. Do palavrão também. Mas sobretudo do malabarismo que ele teria de fazer agora para transformar aquilo numa frase (tecnicamente uma sentença) a mais perfeita possível, quase um aforismo. Já sob a água quente, ele sorriu mais uma vez diante da própria destreza. Em apenas dez segundos ele cortou o sujeito, pegou uns substantivos, umas conjunções, uns adjetivos e até uns advérbios, jogou sobre a mistura duas aspas e concebeu ela, a frase que mais tarde seria a causa de sua morte:

Soube que estava ficando velho quando todas as suas fantasias envolviam uma mulher mais nova e a mesma fala de sempre: “Deixa que eu te ensino”.

Raul repetiu a frase duas vezes na cabeça e mais duas vezes para o banheiro enevoado. E ficou contente com sua criação. E, correndo o risco de parecer cabotino e mais ridículo do que o normal, disse de si para si: “Caralho! Eu sou um gênio mesmo”. E teve vontade de ligar para Rebeca naquele exato momento e lhe dizer a frase e ouvi-la rir aquele riso gostoso, esganiçado, quase histérico, ou então dizer “geeeeeente!”, como quem percebe a genialidade da coisa (no caso, da frase), mas não tem muito o que dizer porque, convenhamos, não havia mesmo nada o que ela pudesse acrescentar. Ele já ia fechando o chuveiro e saindo correndo pelado molhado atrás do celular quando a prudência o deteve.

Porque Raul sabia que Rebeca era, além de esperta e perspicaz, muito ciumenta. Ela invariavelmente perguntaria de onde ele tirou a ideia da frase, por que ele formulou a frase, quem era a menina (porque ele, obviamente, era o velho), quando ele pensou na frase, tava de pau duro, é?, seu canalha, não sou boba, não, Raul, eu não nasci ontem, sei muito bem o que você anda pensando por aí, sei que você curte uma frase de efeito sussurrada na orelha dessas muitas menininhas que ficam olhando pra você e pensando que homem!… E Raul, apesar de ter concebido a frase e de querer compartilhá-la com o maior número de leitores possível, não queria ter de se explicar noite adentro para Rebeca. Ainda mais por causa de uma concepção que não teve nada de erótico, como se verá nos parágrafos seguintes.

O fato é que Raul estava tomando seu café de todas as tardes na padaria quando entrou uma velha toda perua, com calça de oncinha e saltos altos demais, os cabelos secos e velhos e pintados de um amarelo aberrante, a boca preenchida com ácido hialurônico e o nariz retocado por um bisturi pouco habilidoso. E ela olhou para Raul com olhos de cobiça senil. Raul desviou o olhar e, por um instante, um átimo, uma coisinha assim bem à toa mesmo, imaginou a velha na cama, as pernas abertas, pedindo para ele chegar mais perto. Nessa hora, Raul vomitou um pouquinho dentro da própria boca.

Logo em seguida, e só pelo gosto algo sádico de fazer analogias absurdas, o cérebro de Raul lhe projetou rapidamente, bem rápido mesmo, tão rápido que Raul quase não se deu conta, a imagem de uma menina, ou melhor, uma mulher jovem, assim deitada na cama, toda entregue como a velha ainda agora há pouco estivera, pedindo que ele, ora, logo ele, lhe ensinasse tudo o que ela não sabia. E, ao imaginar isso, Raul percebeu que tinha ficado velho.

Não que isso fosse um problema. De jeito nenhum. Raul estava bem com a própria idade. Ou seja, a frase não tinha nada a ver com Raul. Como mais tarde ele diria a uma Rebeca enfurecida e de faca em punho, uns olhos azedos e a boca uma tripinha de lábio, era só uma frase de efeito, uma tentativa de wit, uma provocação algo melancólica e sexualmente sugestiva sobre a velhice. E talvez sobre a persistência da safadeza na velhice.

Raul, então, saiu do banho, enxugou-se rapidamente e tratou logo de registrar a frase num caderninho, para o caso de precisar dela no futuro. Teve início, então, um longo debate íntimo sobre compartilhar ou não a frase com Rebeca. Raul estava assim meio apaixonado pela frase. Embasbacado mesmo. O que não faz sentido, porque a frase não é tão boa. Não é nada boa. Que porcaria de frase. Nem vale a pena. Por outro lado, se é ruim e não vale a pena, então a frase é inofensiva, e Rebeca a ouvirá com um bocejo e um esquecimento.

Melhor parar por aqui. Rebeca já mandou mensagem avisando que está saindo do trabalho e deve chegar a qualquer momento. Ah, não disse? É ela abrindo a porta. Oi, amor. Nossa, eu sou um gênio! Você não tem ideia da frase que eu escrevi hoje.

Cinco horas para ser pai

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Eu tento me lembrar de como eram as manhãs anteriores àquele dia 12 de agosto de 2008, mas não consigo. Porque elas eram todas uma mesma manhã. Eu acordava, tomava um banho demorado e um café apressado, ligava a televisão num telejornal qualquer e começava a traduzir. E traduzia até a noite, parando aqui e ali para ter “deliciosas” dúvidas metafísicas. E os dias se sucediam assim, até que alguma dessas dúvidas me passava uma rasteira e eu caía prostrado na cama.

Naquela terça-feira não foi muito diferente. Acordei cansado de uma noite mal dormida, apesar do ansiolítico poderoso que jurava me levar ao reino de Morfeu pela via expressa. Resmungando, tomei um café simples, porque a empregada estava de férias. Arrastando os pés, me sentei no quartinho, liguei a televisão “só pra passar raiva” e me pus a traduzir Tudo Sobre Arte, de Stephen Farthing, pensando o mesmo pensamento de todos os dias: “Como esse cara deve ter sofrido na escola”.

E foi assim que passei a manhã. Se fazia frio ou calor, se o céu estava limpo ou nublado, não sei. Não tinha motivos para registrar esses detalhes do dia como hoje não tive motivo para registrar a cor do carro que me trouxe ao trabalho. Quando o telefone tocou, pouco antes do meio-dia, não me arrepiei nem tampouco imaginei alguma tragédia. O telefone costumava tocar a esse horário, com aquela conversa pequena que torna a vida suportável e talvez agradável.

Mas logo no “alô” percebi que havia algo de diferente na voz da minha mulher, hoje ex. “Aconteceu alguma coisa?”, perguntei, notando o tremor e imaginando as mais diferentes e sanguinolentas tragédias familiares. Ao que ela respondeu com as palavras que vão me acompanhar até o túmulo, sempre que eu olhar para aquele que hoje me chama de pai: “Acho que nosso filho chegou”.

Estávamos na fila da adoção. Um processo já cantado em verso e prosa por penas mais inspiradas e geralmente mais indignadas do que eu. Ao contrário do que se possa ler por aí, e levando em conta que tenho fobia de trâmites burocráticos, lembro-me do processo todo como algo extremamente tranquilo. Respondi a um formulário com algumas perguntas bem constrangedoras, assinei papéis quaisquer e passei por entrevistas, sempre achando que tinha dito algo de fundamental e irremediavelmente errado.

Depois de seis meses, talvez um pouco menos do que isso, recebi a notícia de que a nossa “habilitação” tinha saído. Isso significava que, a partir do dia 28 de julho de 2008, eu e minha mulher estávamos aptos, de acordo com o todo-poderoso Estado brasileiro, a adotar uma criança. Por um instante, imaginei que pudesse haver uma carteirinha me habilitando como pai do mesmo modo que o Detran me permite ser motorista. Mas o Estado não tem senso de humor, você sabe.

A decisão de adotar uma criança era algo que fomentávamos há algum tempo. Uma ideia dilapidada em incontáveis conversas ao longo de pelo menos dois anos. E aqui não faz sentido ficar fazendo proselitismo da adoção nem tampouco encontrando justificativas para a nossa decisão como casal. Decidimos ser pais, tiramos as cem mil cópias autenticadas e com firma reconhecida necessárias e esperamos. Como fazem todos os aspirantes a pais na mesma situação.

Antes daquela manhã, portanto, eu já era “habilitado”. A rigor, nosso filho poderia chegar a qualquer instante – e de qualquer lugar do Brasil. Se eu não estava ansioso, e não estava, era porque, uma semana antes, uma funcionária da Vara de Família havia dito à minha mulher que a espera por uma criança em condições de ser adotada em São Paulo durava dois anos. Foi uma decepção, por um lado, mas um alento por outro. Afinal, eu teria dois anos para me preparar. Para sair do casulo do menino e virar homem*. Para me acostumar com a ideia de ter um ser humano me chamando de pai.

Mas o telefone tocou pouco antes do meio-dia e era nosso filho. Tinha de ser. Minha mulher foi falando e eu registrava apenas as palavras-chave: menino, saudável, vinte dias, agora mesmo!, tenho o endereço, vamos lá? Deixei a televisão ligada, larguei a frase que traduzia pela metade e fui logo vestindo uma calça jeans apressadamente. “Estou pegando um táxi”, disse, já de dentro do táxi.

O caminho até o abrigo foi longo e tortuoso o bastante para que eu tivesse tempo para me encher de dúvidas. “Então eu vou ser pai?”, eu me perguntava. Hoje? Amanhã? Daqui a vinte dias? E como era possível que eu me tornasse pai se o Estado, em toda a sua onisciência, havia dito que a espera duraria dois anos?

Quando finalmente chegamos, precisei de uns segundos para me encher de coragem e sair do táxi como quem se lançava à praia durante o desembarque da Normandia. O abrigo era bem diferente de outros abrigos que eu tinha visitado. Era limpo e colorido, embora fosse silencioso demais para um lugar que eu acreditava estar cheio de crianças. A porta se abriu e entramos, e foi como se a própria imagem da gestação se invertesse: era eu quem entrava num útero para pegar meu filho no colo pela primeira vez**.

Fomos levados a uma salinha e recebidos por uma freira. “Ele já vem”, disse ela, dando início a uma conversa da qual só me restam retalhos. Algo a ver com o colégio de freiras onde estudei quando criança, minha formação religiosa e até minha ascendência russa. Eu falava sem parar, porque é assim que ainda hoje lido com o nervosismo. Até que ele chegou, interrompendo minha fala ansiosa e silenciando meu coração e meu superego que geralmente não me permite escrever coisas como “silenciando meu coração”.

Ele estava muito bem enrolado num cobertor. Levantei-me e uma moça anônima, antes de me entregar meu filho (porque naquele momento ele já era meu filho), me perguntou se eu realmente sabia como segurá-lo. Devo ter mentido que sim, porque um segundo mais tarde estava com aquele menino no colo. “Meu filho”, eu disse, compreensivamente sem conseguir pensar numa frase mais espirituosa ou erudita.

Alheio ao momento, o menino dormia. Estupidificado, olhei em volta e perguntei à freira por que o bebê não abria os olhos. No mesmo instante, como se me ouvisse ou como se previsse a vergonha que eu passaria ao narrar este momento docemente piegas, ele abriu os olhos e eu me derreti mais um pouco. “E então? Como fazemos?”, perguntei, tomado por um espírito pragmático.

Enquanto as providências burocráticas eram tomadas, saí da salinha para fazer uma ligação. Liguei para a empregada, que estava de férias, e pedi pelo amor de Deus que ela voltasse para nos ajudar. Eu e minha mulher vivíamos em São Paulo, sem família próxima e, pior, sem nenhuma experiência em como cuidar de um bebê de vinte dias. Ela se prontificou a nos ajudar imediatamente e, antes de desligar, me deu os parabéns pela paternidade. Que agradeci, incapaz de dar o devido peso àquela palavra.

Às 16h30, aproximadamente, saí do abrigo com o bebê nos braços. No táxi, eu e minha mulher nos revezávamos segurando nosso filho. Liguei para meus pais e para minha irmã – e notei que, do outro lado, eles não estavam acreditando muito no que eu dizia. “Meu filho chegou. Vocês vão ser avós. E tia”. E só então me permiti falar o nome dele em voz alta, como se evocasse algum poder transcendental. “Davi. O nome dele é Davi”.

Perto de casa, paramos numa farmácia para comprar itens de primeiríssima necessidade: mamadeira, leite em pó, fraldas. Me lembro de contar a novidade para o atendente e ouvir dele que eu era louco. Talvez eu fosse – e não me importava. Eu era louco e era pai.

Chegamos em casa por volta das cinco horas. Se chovia ou fazia sol, se caía granizo ou se um terremoto chacoalhava a cidade, jamais saberei. Davi mamou pouco e dormiu muito, às vezes no colo da mãe, às vezes no colo do pai. Minhas duas gatas estavam nervosas, correndo de um lado para o outro, sem entender o que era aquele ser embrulhado numa manta que de vez em quando emitia um miado estridente. Quando a noite chegou, me dei conta de que meu filho não tinha um berço. Aquela primeira noite Davi passou ao lado da mãe, numa espécie de manjedoura improvisada com futons.

Enquanto eu dormia, celebrando a morte do menino que fui até aquela manhã, quando finalmente me transformei, se não num homem, no pai do Davi Abreu Polzonoff.

 


*Se bem que um homem não escreveria uma frase dessas, né?

**Você está fazendo cara feia só porque a frase é minha. Se fosse filme do Lars von Trier você ia gostar.

A micareta

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Não adianta, cara. Você fica aí com esse bonezinho inglês, esse cavanhaque, esse cachimbo no canto da boca e esses óculos para sua falsa miopia, tudo na esperança de ser reconhecido como alguém maior e melhor do que aqueles que você chama carinhosamente de resto, mas na verdade a literatura, essa coisa que você e seus amigos consomem com a afetação própria de quem se sabe raro, cada vez mais raro, a literatura não passa de uma interminável micareta.

Olhe em volta. Repare. Todo mundo com seus abadás. Às vezes uns sobre os outros – e aquele cheiro típico de quem mofou não só para o próprio intelecto como também para a vida. Você sabe. Há algumas semanas estava aí, todo pimpão, compartilhando citações da micareta Philip Roth, por ocasião da morte do autor. O que não deixa de ser curioso: a morte de Philip Roth – ou de qualquer autor contemporâneo – é o auge da micareta e também o começo da dispersão.

Há micaretas duradouras e outras que passam rapidamente pela avenida. Digo, suponho que seja uma avenida magicamente instalada no continuum espaço-tempo. E suponho ainda que haja um Deus/juiz num camarote Brahma qualquer (pun intended), dando notas para essa evolução. Há alguns anos, as micaretas Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård passaram quase que ao mesmo tempo pela avenida. E em disparada. Evolução nota zero.

As pessoas seguem as micaretas literárias pelos mesmos motivos que as levam a seguir as micaretas-micaretas, isto é, diversão e sexo, aquele hedonismo juvenil vulgar e, com sorte, passageiro. Mas elas vestem o abadá também porque buscam uma sensação de pertencimento. Aquela coisa de se ver igual (ou no mínimo parecido) ao outro, de provocar uma comunicação de almas, de se deixar emocionar e contar com a empatia alheia. “Eu li o que você leu e senti a mesma coisa” é o equivalente, na micareta literária, ao beijo de língua entre estranhos na micareta-micareta.

E, como em toda micareta, há os chatos que não gostam, que não participam e que, do alto das torres de marfim que margeiam a avenida por onde desfilam os foliões, jogam ovos – metafóricos ou não – nos pobres-diabos lá embaixo. O que os antimicareteiros não percebem, contudo, é que também são micareteiros nessa espécie de Festa de São Firmino de galinhas poedeiras, irmanados na rejeição e na sensação de superioridade – evidentemente falsa.

Não adianta, cara. Você fica aí com essa sua mesóclise no canto da boca, esse potinho de aspas ao lado do computador e até essa caneta tinteiro “para evocar a velocidade de raciocínio dos grandes mestres russos”, mas não me engana. Então deixa de não-me-toques, veste logo o abadá do seu escritor russo preferido e sai para a avenida! Bebe uma, duas, dez latas dessa poesia quente feita de milho e vomita no pé da moça o seu mais criativo versinho de acasalamento. Com sorte ela se deixa terraplanar pelas suas palavras, larga a micareta dos Cinquenta Tons de Cinza e se junta a você na triste mansarda das suas frases feitas.

(Publicado originalmente no Mínimo Múltiplo).

O pronome relativo ou: bola na trave não altera o placar

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Na segunda ou terça-feira, li uma matéria dizendo que apenas oito porcento da população brasileira é capaz de ler e compreender um texto com fluência plena. Na quarta, comecei a escrever o texto sobre o ex-professor que me disse que meu estilo era dogmático demais. E, na sexta, tive um pequeno entrevero com alguém por causa de um pronome relativo.

Não foi coincidência, pois, que desde segunda-feira eu andasse meio irritado – com o mundo e comigo mesmo. Com o mundo porque ele é incapaz de compreender um texto em sua totalidade (quanto mais na sua beleza), e isso me incomoda. Comigo porque isso me incomoda. E não deveria incomodar.

Porque há algum tempo já eu fiz um pacto comigo mesmo. Foi um ritual divertido, embora um tanto quanto sujo. Fui à cozinha, peguei a faca mais pontuda que encontrei e fiz um furinho no dedo indicador da mão esquerda e no dedo indicador da mão direita. E esfreguei um no outro, o sangue pingando gordo no chão. Tudo isso para que eu me comprometesse comigo mesmo a jamais ceder à vaidade. Jamais.

Desde então, eu estava andando muito na linha. Escrevia umas bobagens e era injustamente acusado de algo ultrajante por alguém que não entendeu essa ou aquela conjunção adversativa e tudo bem. Até escrevi um texto trocando “círio” por “sírio”, provocando ainda mais o leitor majoritário, aquele que se orgulha do pequeno conhecimento, e reclamei mais do desprezo do que do dedo apontado em minha direção.

Mas aí aconteceu isso tudo. Na segunda, li a matéria sobre o analfabetismo funcional e meus senis pelos nas costas já se eriçaram todos. Não que a notícia fosse novidade para mim ou para qualquer pessoa que escreve nesse Brasilzão de Meu Deus. Sobretudo para quem escreve bem, está mais do que claro que o público leitor, além de raro, é incapaz de apreciar nossos dribles literários. Se a notícia me irritou, pois, é porque ela teimava em esfregar na minha cara uma realidade que eu… teimava em não ver.

Uma coisa leva a outra nos labirintos do inconsciente e lá fui eu escrever sobre meu ex-professor Cristóvão Tezza. Usei um bom milhar de palavras para contar a história de como fui acertadamente chamado de dogmático quando, na verdade, eu queria falar de outra coisa boa que o professor fez por mim. Mas, para tanto, peço licença para abrir um novo parágrafo.

Cheio das literatices na cabeça, lembro que certa vez escrevi um texto supostamente jornalístico cheio das elipses que aprendi a admirar em Dalton Trevisan. Assim, a frase “Se o político tivesse feito isso ou aquilo” virou “Tivesse feito isso ou aquilo, o político…” Meu exercício (ou seria prova?) voltou cheio de correções do gênero. E lá fui eu discutir com o professor que, daquele seu jeito calmo e sorridente, me deu outra lição que, percebo agora, eu deveria ter aprendido: eu não estava cometendo um erro, mas estava sendo… inconveniente.

Inconveniente porque em jornalismo não se escreve assim. Mas não só por isso. Inconveniente porque minha firula, meu drible, de alguma forma prejudicava o espetáculo para o leitor que evidentemente não apreciaria meu toque de letra (trocadilho!). Em alguns momentos, o mais conveniente e, portanto, social e culturalmente aceitável, é conter essa vaidadezinha idiota de mostrar o quanto você conhece de alguma coisa.

O que nos traz ao último elemento nessa sequência: o pequeno entrevero por conta de um pronome relativo. Resumindo, num texto profissional, comecei uma frase com um pronome relativo. Eu sei que, de acordo com os manuais, não posso fazer isso. Mas também sei que, de acordo com as leis que desgovernam a criatividade, eu posso. Que, na verdade, sempre dá para brincar. Com. A. Pontuação. E coisas do gênero.

Acontece que nem todo mundo é capaz de perceber a brincadeira. Só oito porcento, de acordo com a pesquisa que li na segunda-feira. E que, para os que são incapazes de perceber a brincadeira, tudo o que é diferente soa como erro. E erro é coisa de gente burra. E, por consequência, eu sou burro, mesmo não sendo.

Aí a vaidade, que não passa de medo de se ver a qualquer instante desmascarado, de ver reveladas todas as suas falhas, das mais evidentes às mais sutis, aí a vaidade apareceu, destruindo o pacto que eu tinha feito comigo mesmo numa sexta-feira treze de lua cheia. Não sou burro, quis gritar, explicar, convencer meu interlocutor que, no entanto, já estava convencido da minha estupidez.

Respirei fundo. Desisti. Fingi tranquilidade. Mas naquela noite não consegui dormir direito, pensando naquele e em tantos pronomes relativos que escrevi por aí sem respeitar o manual. Em todas as frases nominais. Em todas as elipses. Em todas as bolas que passei por baixo das pernas do zagueiro, na esperança de ser exaltado por uma torcida que, sei bem, mas insisto em esquecer, é educada para apreciar o toquinho de lado, aquela bola bem simples levantada no meio da área, na esperança de um gol chorado.

A raiva, que era mais de mim do que do mundo, passou. Acho. Mas, para ter certeza de que não acontecerá novamente, refiz o pacto, dessa vez com um corte profundo nas palmas das mãos, só para dar agonia no leitor. A vaidade, porém, deu lugar ao medo de jamais entrar em campo ou de, em entrando, ser vaiado pela matada no peito, o lençol no adversário e, mais importante, o chute certeiro no ângulo.

Ao mestre, com carinho

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Cristóvão Tezza, ele mesmo e nenhum outro, foi meu mestre. Meu maior mestre. Ao longo dos últimos vinte anos, tive a sorte de contar com outros tantos mestres, mas ouso dizer que nenhum teve nem vai ter a mesma importância do professor que desde meus dezessete anos tento, em vão, conquistar, naquele conflito que Freud já analisou muito bem. Tezza é o andar térreo deste edifício de engenharia temerosa que atende pelo nome de “eu”.

Levei muito tempo para assumir isso. Para chegar a esta conclusão que, neste momento, me parece a mais óbvia do mundo. Talvez porque, idiota que fui, não percebesse a grandeza de Cristóvão Tezza não apenas como escritor, mas sobretudo como mestre. Pior: talvez eu tivesse vergonha, como um capiau curitibano de bochechas rosadas e todo constrangido ao ouvir falarem de sua terra natal.

Vale dizer desde já que Tezza foi meu mestre involuntário. Até porque duvido que ele aceitasse a tarefa de ser meu mentor – não o culpo. Aliás, ocorre-me agora que ele realmente (e com todo o tato do mundo) se negou a esta empreitada naquele remoto dia da década de 1990 em que, trêmulo – aparentemente houve uma época da minha vida em que eu tremia demais –, entrei em seu Lada (vermelho?) com um envelope cheio de esperanças e alguns textos.

Se você chegou até aqui sem entender o porquê dessa minha homenagem e está pensando que há alguma motivação oculta ou alguma ironia muito cruel nestas minhas palavras, a explicação, na verdade, é muito simples. A mais simples e não-irônica do mundo. Depois de muito pensar, algo que faço por lazer e esporte, cheguei a essa conclusão algo mágica de que minha vida adulta toda sofreu influência deste escritor e professor.

É muito poder para uma só pessoa – alguém há de lembrar, com razão. Mas aqui não cedo à tentação mundana de culpar Cristóvão Tezza pelo que fui e sou. Não! A ideia é celebrar o grande acaso de eu ter lido Trapo com quinze anos e o acaso maior ainda de ter me identificado tanto com o protagonista meu xará a ponto de, inconscientemente, me esforçar para eu também me tornar um maldito – no melhor sentido da palavra, se é que há.

Cristóvão Tezza, com seu Trapo, foi mais decisivo para minha vida do que mais tarde seriam Shakespeare, Dostoievski, Camus e Machado de Assis. Muito mais. Porque o li na época certa, com a mentalidade certa e a… personalidade certa, isto é, em construção. Aquele menino de orelhas de abano e cabelo desgrenhado era, de certa forma, leitor ideal daquele romance. Não o leitor idealizado pelo escritor, veja bem. Mas o leitor ideal ainda assim.

Foi por causa dele que fiz faculdade de jornalismo. E aqui prometo que, mais uma vez, resistirei à tentação de culpá-lo por uma carreira bastante atribulada. Mas foi por causa dele, sim. Aos dezessete anos, tinha certeza de que passaria o restante dos meus dias escrevendo como o protagonista de Trapo, assim aos borbotões, atabalhoadamente, me achando o melhor, o injustiçado, o sensibilíssimo e sobretudo o fadado.

Lembro-me bem do espanto que foi descobrir, depois de um exaustivo vestibular, que ninguém menos do que Cristóvão Tezza seria meu professor. Você não vai acreditar e eu não tenho ninguém para confirmar, mas vou dizer assim mesmo: chorei um choro bem adolescente, trêmulo (!) como deve ser, talvez até convulsivo, ao descobrir que o autor de Trapo, o homem que parecia me conhecer completamente, sem jamais ter visto minha fuça espinhenta, seria meu professor, meu mestre.

Aí eu fiz aquilo. Imprimi meia-dúzia de bobagens que tinha escrito na certeza de serem obras-primas irrefutáveis e, muito cedo, fiquei de prontidão em frente ao prédio de Tezza, na esperança de obter a aprovação absoluta dele. Em meu delírio juvenil, eu o imaginava exultante, gritando algo como meu Deus que gênio que pedra bruta que eu vou lapidar eu achei meu Trapo meu Paulo me pupilo. Oi coisa assim.

Em vez disso, Tezza me chamou para entrar em seu carro (um Lada que acho que era vermelho). Foi extremamente simpático. Pegou meu envelope. E leu. E, mestre que foi e sempre será, me criticou com a ênfase que o menino merecia. Se me arrependo de algo, meu caro, é de ter demorado tanto para internalizar aquelas palavras sábias que você falou para o ainda adolescente trêmulo (sempre trêmulo!), esperançoso, sim, de ser admirado, mas também com um temor reverencial daqueles pelos quais eu queria ser aceito.

“Não seja tão dogmático”, disse ele. Mas eu fui. Pior, fui dogmatíssimo. Do tipo que acha que o ponto-final sempre encerra uma verdade irrefutável. Eu era o próprio Deus ditando meus axiomas para os incautos.

Mas a vida espanca, chuta, cospe, humilha de todas as formas possíveis até que, mais cedo ou mais tarde, você aprende. Ao menos essa é a tendência. E eu aprendi. No decorrer desses anos todos (que na verdade nem são tantos assim), a cada tropeço, a cada dia que passei ensimesmado, pensado na violência dos meus dogmas, a cada dia que deixei de abrir as cortinas porque o sol me ofendia, ouvi sempre um sussurro muito baixinho, assim um fiapo de voz mesmo, a me lembrar de quem eu era em essência: não – nunca! – o Trapo suicida, e sim o Trapo apaixonado pela vida, empolgado com todas as imagens que a sua cabeça é capaz de engendrar, com amor (ah, palavra cafona!) vazando pelos poros, sempre acreditando que há metafísica até mesmo no mais gorduroso bolinho de bacalhau, rindo daquela coisa toda de injustiça, hipersensibilidade e fado.

O sussurro eram palavras de Cristóvão Tezza. Meu inegável mestre a quem deixo aqui essa homenagem, na esperança de que ela não seja lida como insulto*.

 

 

 


*Nunca se sabe.

Eu não vou mudar o mundo

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Eu não vou mudar o mundo. Não vou mudar o mundo para mim, não vou mudar o mundo para minha família, não vou mudar o mundo para meu filho, não vou mudar o mundo para minha mulher, não vou mudar o mundo para o meu vizinho, não vou mudar o mundo para o tiozinho que mora do outro lado da rua. Não, eu não vou mudar o mundo para ninguém.

E isso é bom, mas também é ruim. É bom porque o mundo não seria necessariamente um lugar melhor se eu o mudasse. Imagine, por exemplo, que tedioso seria um mundo com escritores cheios de autocrítica, geniais só quando fossem realmente geniais e plenamente conscientes das coisas como a transitoriedade e o oblívio (fazia tempo que eu não usava “oblívio”). Imagine que desastre seria um mundo mais bem-humorado, com as pessoas gargalhando o tempo de piadas que misturam a inteligência de um Woody Allen com o espírito traquinas de um menino de dez anos.

Imagine que horrível seria o mundo como eu o imagino perfeito.

Levei quarenta anos e alguns passos sob uns ipês-rosas carregados para chegar a essa conclusão: não vou mudar o mundo. E não é por preguiça minha, de jeito nenhum. Esforço eu faço todos os dias para mudar o mundo – ou ao menos o mundo ao meu redor –, mas em vão. Coisas que, me dizem os livros de autoajuda, me farão deixar o mundo um tiquinho melhor. Dou bom dia, boa tarde e boa noite a todo mundo, escrevo essas e muitas outras mal traçadas para encorpar nossa memória coletiva (seja lá o que for isso) e diminuí meu banho de meia-hora em 10%, na esperança de fazer alguma diferença.

Mas não vou mudar o mundo porque o mundo não quer ser mudado. Não por mim. Pelo que noto, o mundo quer continuar assim do jeitão dele, sabe, turrão em alguns dias, cavalheiro noutros; generoso quando bate um vento quente, mesquinho quando esfria; capaz de me fascinar para além do que consigo pôr em palavras e capaz de me entediar a ponto de eu preferir a morte. O mundo quer continuar sendo este lugar que lhe rosna para pedir carinho.

O que faço agora, nesse mundo refratário à mudança que para mim é novo? Fico imóvel, na esperança de quebrar o menor número de cristais possível ou saio por aí rodopiando, na esperança de convencer o mundo, um mundo, de que quebrar uns cristais é necessário (além de muito divertido)?

Talvez o mundo seja um jogo de soma zero: tem sempre alguém piorando e sempre alguém melhorando em igual medida, equilibrando a coisa toda. Assim, a gente acaba compensando o dia em que destratou a atendente da NET com o dia em que ajudou a velhinha a atravessar a rua. E aquele comentário virulento que deixamos na foto da gordinha vaidosa do Instagram talvez seja compensado pela frase motivacional falsamente atribuída a Clarice Lispector publicada no grupo da família no Whatsapp.

Não, eu não vou mudar o mundo. E este texto que fala sobre a impossibilidade de se mudar o mundo não vai mudar o mundo daqueles que acreditam que o mundo possa ser mudado. Não vai mudar nada em quem se esforça para piorar o que encontrou aqui ao sair do ventre da mãe. Tampouco mudará algo para quem, no leito de morte, ri satisfeito da passagem efêmera e virtuosa por este mundo.