Paródia poética #1

por Paulo Polzonoff Jr. em 11 March 2016

Eu perco amigos como quem posta

No Facebook, no Twitter.

Me dá unfollow se por agora

Estás revoltado e um pouco bitter

 

Meu post é burro. Por que não me calo?

Fotos de gatos… Corrente não…

Escrevo correndo. Nem sei o que falo.

Quero ser o popularzão.

 

E nestes textos tão mal-escritos,

Tanto fel da boca escorre

Fica em silêncio, ó maldito!

 

– Eu perco amigos como quem morre.

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Elogio da Alienação

por Paulo Polzonoff Jr. em 12 August 2015

 

Um dos piores legados do petismo é a politização exagerada das pessoas. Não aguento mais – e sei que você também não. Hoje em dia, fala-se de política o tempo todo – e não só na Internet, como podem pensar alguns. Acabei de pegar um ônibus e lá estavam duas velhinhas discutindo o impeachment, as manifestações populares, a esquerda e a direita. Há vinte anos, provavelmente estariam trocando moldes de costura ou analisando o comportamento da mocinha da novela das oito.

É deprimente. E olha que sou do tempo em que os professores reclamavam da baixa politização da população. Meus professores diziam que o Brasil só melhoraria, sairia da crise (qualquer crise) e viraria um país do Primeiro Mundo quando as pessoas deixassem de se importar com futebol e novela e passassem a se importar mais com política. Mentira, claro. Mais uma entre tantas, aprendi mais tarde.

Nos últimos anos, o brasileiro aprendeu a acordar e dormir ouvindo notícias políticas. Até o futebol se tornou politizado. Torcedores do Fluminense são de direita e flamenguistas, de esquerda. Ou coisa assim. As novelas viraram temas de campanhas políticas: sem-terra, transexuais, favelados e, claro, os sempre malvados milionários do Leblon que votam no Bolsonaro e são a favor de prender crianças pobres. Nem ao Chaves é possível assistir sem ouvir alguém proferindo alguma tese sobre a exploração do menino que mora no barril.

Como disse, nem sempre foi assim. E tenho a impressão de que éramos mais felizes. Ora, desde que me entendo por gente o Brasil está em crise econômica e/ou política. Vivi a hiperinflação dos anos 1980 e o impeachment de Collor no início da década de 1990. Mas tínhamos outras preocupações que não a política. No centro acadêmico da faculdade de comunicação social (1996), conversávamos sobre Forrest Gump x Pulp Fiction, sobre Friends e, claro, sexo. Se bem me lembro, o movimento estudantil era só uma forma de socialização, não de socialismo.

Politização só traz infelicidade. O Brasil (ou qualquer país do mundo) só será um lugar minimamente agradável quando as pessoas deixarem de falar sobre política. Quando forem realmente alienadas. Quando o governo deixar de se intrometer tanto na vida da gente. Quando os políticos forem discretos a ponto de os ignorarmos quase que completamente.

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Obituário urgente

por Paulo Polzonoff Jr. em 3 June 2003

O Brasil não se comove mesmo com suas perdas maiores. O Retiro dos Artistas, hoje, viveu um pôr-do-sol de luto, mas ninguém parece ter dado muita bola, a não ser os funcionários do lar, que reclamaram do trabalho extra em véspera de feriado. O morador do quarto 263, na ala norte, era quieto. Passava os dias olhando as paredes forradas de fotografias que eram a sua memória, a memória de alguém que freqüentou os melhores e também os piores círculos do teatro, da televisão e do cinema durante quase um século mas que, mesmo assim, morreu velho e incapacitado. Ninguém trabalhou mais do que o mitológico Grande Elenco (? – 2003) para a consolidação da dramaturgia nacional.

Grande Elenco era um menino tímido quando surgiu para o teatro. Ainda criança, viu os maiores nomes da sua época no Teatro Municipal, no qual entrava por uma abertura lateral secreta. Desparafusava uma grade cuidadosamente, um parafuso por dia, para não dar bandeira e na véspera ficava no porão do teatro, escutando com o ouvido na parede os ensaios das operetas que o palco abrigava. Assim, tomou contato com a música. Um dia, depois de ter brigado com a mãe, resolveu ir para o municipal se masturbar em seu esconderijo secreto. Não haveria nenhuma atração naquela semana, o que era raro, e, como Grande Elenco estava triste com a briga em família, decidiu subir ao palco e lá saciar seus instintos precoces. À visão do piano, descobriu sua vocação e começou a tocar — não o piano. Tocou tão, mas tão mal, que chamou a atenção de um guarda pederasta. Estava sendo levando para um quartinho quando, diz a lenda, foi salvo por Juciliano Braga, um ator medíocre e também pederasta que passava pelo local. Braga o pegou das mãos ásperas do guarda e o levou para casa. Alimentou Grande Elenco como se fosse um hamster querido e lhe disse que no dia seguinte Grande Elenco seria um grande artista.

Grande Elenco participou, assim, de sua primeira peça. Era uma comédia na qual ele tinha de cantar um verso apenas. O teatro era bem diferente do municipal, mas Grande Elenco parecia não ligar muito para isso. Afinal, ele achava que o teatro não era mesmo a sua vocação. Naquele dia, quando o pano se fechou e ele foi chamado pelos atores principais para receber os aplausos do público, achou que tudo não passava de uma grande viadagem, deu as costas e foi para os camarins. Mas não haviam lhe reservado um camarim. Por isso ele entrou no primeiro que viu. Lá, encontrou uma faxineira que seria o grande amor da sua vida. Fizeram amor, como se dizia na época, por sobre os figurinos da opereta Le Abat-jour C´est Moi, de autoria de um certo Murilo Grandevento, que andava pela Confeitaria Colombo se vangloriando de ter sido alfabetizado primeiro em francês, aos 25 anos. Grande Elenco conta em sua biografia, intitulada Sarah Bernardt e Grande Elenco em… (Ed. José Olympio, 1977), que jamais soube do nome da faxineira que lhe roubou o coração.

A saída do palco sem o som das palmas entusiasmadas dos cinco espectadores não trouxe fama para Grande Elenco, mas deu-lhe prestígio. Consideraram-no um homem desprovido de vaidade e, a partir daquele momento, todas as companhias de teatro da cidade queria tê-lo, fosse para falar uma frase apenas, fosse para figurar a um canto, fosse para atravessar o palco pelado. Mas isso foi só na década de 60 quando, já velho mas sem perder o vigor da profissão que o escolhera como paradigma, foi convidado por Zé Celso para participar de uma orgiazinha dionisíaca. Grande Elenco contracenou com os grandes nomes da dramaturgia nacional pré-Paulo Francis. Ou melhor, os grandes nomes da dramaturgia nacional é que contracenaram com ele, o onipresente Grande Elenco.

A partir da década de 50, Grande Elenco resolveu buscar novos desafios em sua carreira em eterna ascensão. Assim, começou a fazer cinema. Nos sets de filmagem da Atlântida, porém, encrencou com Grande Otelo, a quem acusava de plágio por usar o mesmo e inusitado prenome. Num capítulo picante de sua biografia, Grande Elenco afirma que a mãe escolhera este nome porque seu parto durou nada menos que 21 dias e a incapacitou para o sexo Gamboa para sempre. A punição da mãe, que queria que ele se chamasse na verdade Grande Estorvo, não foi maior porque no dia do registro apareceu um estivador que condoeu-se daquela mulher com as a vulva ainda inchada e que por pena possuiu sua mãe de forma vergonhosa com a língua. Chamava-se João Elenco. E, ao menos no nome, foi este Elenco que deu dignidade ao ator.

As histórias de brigas entre Grande Otelo e Grande Elenco são um capítulo à parte na vida do astro. Tão à parte que o editor da biografia resolveu excluí-lo do volume escrito em 1977 por Jorge Amado, com o pseudônimo de Grupete de Moraes Sulfite. A verdade é que a hostilidade entre Grande Elenco e Grande Otelo escondia uma admiração recíproca. A quem especule, ainda hoje, que os dois eram amantes e zoófilos, não necessariamente nesta ordem.

Foi por esta época que Grande Elenco ficou rico. Chegou a ser o artista mais bem pago do Brasil. Na verdade, seus cachês não eram superiores a um salário mínimo, mas o volume de peças em que figurava era impressionante. Grande Elenco conseguiu uma marca imbatível: em abril de 1961 esteve em cartaz em absolutamente todas as peças em cartaz no Rio de Janeiro. O nome de Grande Elenco figurava no orçamento de todas as produções dignas de nome no Brasil. Tanto assim que ele passou a figurar também em todos os filmes nacionais. Não demorou para os estúdios norte-americanos e também os ingleses, franceses, italianos e sobretudos os suecos verem em Grande Elenco um grande chamariz para suas produções, fossem elas de terror, comédia, drama, existencialistas, niilistas ou simplesmente pornográficas. Estes estúdios pagavam um cachê mínimo a Grande Elenco, mas o volume era tamanho que um dia ele teve de gastar boa parte do pagamento pela participação em sete filmes da 20th Fox em ligações internacionais para a Suécia, tentando convencer os produtores daquele país, sobretudo Bergman, o mais teimoso, a lhe pagar em cruzeiro mesmo ou em dólar, porque no Rio o único que trocava coroas suecas era um travesti que fazia a festa dos marinheiros e que, como comissão pelo câmbio raro, sempre obrigava Grande Elenco a mostrar o pênis semi-ereto. Grande Elenco não falava sueco, mas falava português bem devagarinho.

O dinheiro que abarrotou as contas de Grande Elenco foi o mesmo que o levou à ruína na década de 70. Envolvido com a guerrilha de esquerda, Grande Elenco doou somas monstruosas para a causa comunista. Não que fosse apegado à causa marxista; Grande Elenco, na verdade, estava era enamorado por uma integrante do Partidão responsável pela limpeza de diversos aparelhos no Rio de Janeiro. Logo, quanto mais aparelhos ele financiava no Rio de Janeiro, mais garantia a permanência da amante na cidade, evitando, assim, que ela se deslocasse para cidades onde o comunismo era levado com profissionalismo stalinista, como em Santos. Grande Elenco morreu sem saber, mas ele foi o responsável pela sobrevivência da amante cujo codinome era Leca, pois ela seria mandada para a guerrilha do Araguaia, onde varreria folhas (sua especialidade, dizem), um dia depois de o ator pedir sua mão em casamento, transar com ela sobre bandeiras vermelhas, manchar os lábaros com seu sêmen espesso demais e, assim, causar a expulsão de Leca do Partidão. Mais tarde o estudante de Ciências Dramatúrgicas Aplicadas ao Socialismo, Edgar Hummerfield Silva, em sua tese de graduação, Grande Elenco e a Igualdade do Lumpanato (Editora da UERJ, 1992), acabou por descobrir que Leca, conseguiu viajar para a União Soviética, onde viria a dar à luz uma tenista famosa, loira e conhecida mais pelas pernas do que pelos voleios.

Sem dinheiro e sem perspectivas a curto prazo, Grande Elenco pensou em se prostituir, mas conteve sua luxúria quando foi convidado a integrar os quadros da então minúscula TV Globo. Era o começo do fim de um ator que marcou época no teatro e no cinema brasileiro. Depois de fazer figuração em Irmãos Coragem e em praticamente todas as novelas de Janete Clair desde então, entrou para os quadros fixos de Os Trapalhões, mas desentendeu-se com Renato Aragão e foi expulso sumariamente dos estúdios da Vênus Platinada, com ordens explícitas do Dr. Roberto Marinho para que ele jamais chegasse perto novamente de sua mulher, a Dona Lili Marinho. As causas desta decisão são controversas e a elucidação do mistério carece de um estudo mais aprofundado, o que certamente será feito agora que Grande Elenco figurará tão-somente no grande teatro celeste.

No final dos anos 70, Grande Elenco, na miséria completa, se tornou um andarilho no Rio de Janeiro. Seu nome continuava, porém, nos cartazes das produções locais. A classe artística tinha uma dívida com Grande Elenco porque sabia que o público só ia ao teatro porque queriam vê-lo, seja dentro de uma árvore, embaixo do sofá ou ainda na forma metafísica de uma inspiração anacrônica enquanto gesto epistemológico do altruísmo catártico, como disse certo diretor que não quis ser identificado. Houve algum rebuliço quando produtores e técnicos rifaram uma bicicleta de dez marchas para ajudar ao astro. O dinheiro vultoso, no entanto, nunca chegou ao seu destinatário, porque os responsáveis pelo bem-estar de Grande Elenco não sabiam ao certo em qual caixa de geladeira ele estava morando. Em São Paulo, Augusto Boal percorreu durante quatro anos os arredores da rua Augusta à procura do grande benfeitor do teatro brasileiro, mas afirmou não tê-lo encontrado entre as muitas bichas que freqüentam o local simplesmente porque, soube mais tarde o diretor, Grande Elenco era carioca e não abandonaria o cheiro de mar por nada deste mundo.

O mar foi coadjuvante de sua salvação. Em 1981, andando pela orla de Copacabana, Grande Elenco foi atropelado pelo ex-presidente Figueiredo, que passeava com seu cavalo Plebus Nº 5 pelo local. O incidente não causou maiores repercussões para o ex-presidente, ao que tudo indica acostumado a atropelar seres fedorentos durante o seu trote semanal. Mas para Grande Elenco a topada com o cavalo cheiroso causou uma fratura múltipla no dedo mínimo do pé direito, o que atestou definitivamente sua incapacidade para as artes dramáticas. Não lhe coube outra saída, pois, senão mancar até o Retiro dos Artistas, onde foi recebido por dois funcionários que lhe deram um longo banho de cinco minutos e o alojaram no quarto 263. Ali naquele cubículo, Grande Elenco viria a morrer, 22 anos mais tarde.

Nas duas últimas décadas, Grande Elenco permaneceu quieto. Primeiro porque não queria falar, segundo porque não tinha ninguém para ouvir. Foram poucas as visitas que o ator recebeu nos primeiros anos até que, subitamente, foi descoberto pela comunidade acadêmica. No início da década de 90, alunos de uma faculdade particular de teatro do Rio de Janeiro ficaram batendo em sua porta durante dois dias, na esperança de conseguir ouvir as sábias palavras do mestre, sem sucesso. A façanha, além de entrar para o Livro dos Recordes como Batidas Consecutivas Numa Porta de Madeira Mais Longas do Mundo, resultou numa peça dirigida por Antônio Abujamra, As Batidas na Porta da (des)Vaidade, que ficou em cartaz por cinco anos. Não se sabe como Grande Elenco conseguiu as fotos que lhe decoravam o recinto, mas supõe-se que tenha feito uma assinatura da revista Contigo! depois de hackear o site de uma administradora de cartões de crédito e, assim, conseguir um número válido para seu intento ilegal.

Em silêncio completo, Grande Elenco deixou o mundo na tarde de hoje, às 17h37, no mesmo horário em que um vôo da TAM para São Paulo decolava do Aeroporto Santos Dumont tendo por passageiro Gevislélio de Assis d´Ajut, que não é ninguém importante mas que tem um nome absolutamente estúpido. Os médicos acreditam que Grande Elenco tenha morrido em decorrência de uma infecção pélvica não detectada a tempo, que se agravou por causa da idade avançada do ator. O quarto de Grande Elenco, então, foi imediatamente esvaziado por dois funcionários, que arrancaram as fotos das paredes e as pintaram de azul piscina, mas não antes de trocar o lençol da cama do homem que foi um gênio quando o assunto era estrelar uma peça sem estardalhaço, recatadamente, no seu canto. Atualmente quem ocupa o quarto 263 é um ex-astro vesgo de Malhação.

A classe artística brasileira, porém, não está de luto. E hoje algumas peças, inclusive alguns monólogos, trazem em seus cartazes a presença de Grande Elenco. Suzana Vieira, que interpreta Água Viva (sobre um livro que leu e não entendeu no segundo grau), disse em entrevista que quando interpreta sente a presença de Grande Elenco ao seu lado e isso faz com que se supere. O ator Paulo César Pereio afirmou se inspirar em Grande Elenco em todos os papéis que interpreta. Até o pessoal do Casseta & Planeta disse ter uma dívida de gratidão com Grande Elenco e estão organizando uma grande festa, só porque não vão ter de pagar nada ao velho safado que um dia bateu na bunda de um garotinho gordinho com um cabo de vassoura e sussurrou para ele, com ar de tarado: “Bussunda”. A maioria dos produtores procurados para darem alguma declaração sobre Grande Elenco está com os celulares fora da área de serviço ou desligado ou ainda sem caixa postal para deixar recado.

O enterro de Grande Elenco está marcado para amanhã, às 16 horas, no cemitério São João Batista, num terreno doado por Dercy Gonçalves. O prefeito César Maia está cogitando construir uma estátua do artista sobre o túmulo e a governadora Rosinha Matheus já afirmou que pretende mudar o nome da ponte Rio-Niterói para Ponte Grande Elenco. Lula mandou as condolências à família do defunto ilustre, mas o telegrama foi devolvido porque o destinatário é ignorado pelo carteiro.

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O ladrão que por acaso era santo

por Paulo Polzonoff Jr. em 21 March 2003

E tal e coisa e tinha este ladrão. Um homem para lá de inteligente que em certo momento da vida achava que era Papai Noel. Sério. Foi na adolescência. O cara simplesmente surtou enquanto via os hormônios tomarem conta do seu corpo. Ele estava sentando a um canto, pensando numa menina que vira no ponto de ônibus e que revirara sua cabecinha oca e assim, sem mais nem menos, pensou que era o Papai-Noel. Só porque a mocinha não olhara para ela. Não se pode, porém, culpá-la: ele era feio como o demônio. Ou como a Frida Kahlo. O leitor escolhe a comparação que mais lhe aprouver.

Sessão de psicanálise para cá, sessão de psicanálise para lá, uns eletrochoques, umas injeções de glicose e o mocinho saiu do manicômio crente de que não era o Papai Noel. Por sinal, foi uma das enfermeiras quem lhe disse na cara dura que Papai Noel morava na Lapônia. Como ele sabia que, como todo louco que se preze, nascera em Nauru (na verdade, a ilhota onde o nosso ladrão surgiu para o mundo ficava mesmo era no interior de São Paulo, mas tudo bem) e sabia que a Lapônia ficava a trilhões de quilômetros ao norte, deduziu por lógica de eletrochoques que não era Papai Noel. E estamos conversados.

O espírito altruísta, contudo, não deixou seu corpo esguio, de cabelo escovinha, típico dos loucos varridos que se acham recuperados em filmes ou contos ou crônicas cheios de lugares-comuns, que muito bem podem ser interpretados por Ralph Fiennes ou escritos por este que vos fala. Louco de pedra, ficou matutando primeiro durante minutos, depois horas, dias, meses e anos o que fazer para ajudar aos pobres e desvalidos.

Não chegou a nenhuma conclusão de bate-pronto. Passaram-se cinco anos e ele lá, ainda pensando. Sorte dele é que durante este tempo todo, não podendo ficar em casa sob o risco de virar uma pessoa normal, com emprego, salário, mulher, filhos e potes de palmito para abrir, passou todo o tempo disponível entre um pensamento e outro na biblioteca. Tornou-se, assim um louco ainda mais louco porque um louco culto.

Sabia de cor os principais trechos de Shakespeare. E tinha teorias mirabolantes, como é próprio de um louco, para cada vocábulo novo que encontrava em Guimarães Rosa. Admirava Machado de Assis, sobre o qual tinha a certeza digna de um são que não era de que Capitu traíra, sim, Bentinho. Seu escritor preferido, porém, era Proust, pela caudalosidade das frases que lhe pareciam muito naturais, na profusão de vírgulas que se assemelhava aos seus pensamentos. O tempo que gastou em bibliotecas serviu também para que ele aprendesse o que era ruim, no meio de tantos livros. E fazia isso observando as pessoas.

Como aquele menino em semi-andrajos que entrou na biblioteca e foi direto na seção de literatura americano, na letra K. Depois na G. E depois na L. Pegou Jack Kerouac, Alan Ginsberg e Timothy Leary, respectivamente. Curioso entre a relação leituras e cheiro do moço (que não era dos melhores, obviamente), na semana seguinte o nosso louquinho que vai se tornar ladrão já, já resolveu ler a tríade apocalíptica. E súbito entendeu porque fedia tanto o moço em semi-andrajos que mais tarde ele descobriu morar numa pequena mansão. Isso, contudo, foi muito depois de ele ter seguido a menina que entrava na biblioteca sempre de óculos escuros com lentes alaranjadas, que todas as semanas ia direto na letra B da mesma seção de literatura americana que o nosso beatnik tardio. O louco de pedra ficava imaginando o casal, ela cheirosa e arrumadinha e coloridinha e ele feio, fedido e sujo. Formariam um casal perfeito, por certo. A menina em questão, observou o louco, lia apenas um autor. E relia e relia e relia: Bukowsky. Pena o louco ter abandonado esta vida de analista de freqüentadores de biblioteca, porque perdeu o grande salto qualitativo das leituras da moça, que passou do Bukowsky a Paulo Leminski em algumas semanas. E depois achou que podia ser escritora, mas isso também é outra história.

Pois juntando esta cultura com o espírito altruísta advindo da loucura ele decidiu virar um ladrão. Um ladrão que deveria ser beatificado, já se disse aqui. Por que o que ele operou na vida de suas vítimas foi um verdadeiro milagre.

Veja só esta pobre alma que foi uma das primeiras a sofrerem a graça do roubo do ladrão que deveria ser beatificado, tamanho foi o bem que causou à humanidade. Era um jovem, branco e de classe média, filho de pais funcionários públicos, que estudou nos melhores colégios do mundo e que em certo momento recorda-se de ter dormido numa aula sobre Olavo Bilac, o pobre. Pois o quarto do jovem tem um pôster. É de um jogador de basquete americano. Pôster em tamanho natural. E na parede oposta há flâmulas do time de basquete. E sob a cama há tênis de basquete e duas bolas de basquete. Só que o jovem não quer ser jogador de basquete nem pode, porque não mede mais que o suficiente para poder brincar na montanha-russa sem ser interpelado pelo funcionário do parque de diversões. Ademais, todas as vezes em que tentou jogar uma bola ao cesto acabou por ser expulso da quadra, diante das risadas escandalosas de seus colegas de time. O fato, porém, não é a preferência esportista do jovem, que se daria muito bem como jóquei, é preciso dizer; o fato é que ele escuta rap.

Rap, para quem não sabe, é um gênero pobre, nascido ao que tudo indica nos guetos negros dos Estados Unidos. Não tenho certeza. Nem eu nem o ladrão em sua loucura sabemos ao certo como nasceu a excrescência musical que assola os tímpanos do nosso jovenzinho. Sabemos, porém, o necessário a todos os seres humanos: trata-se verdadeiramente de uma excrescência musical que hoje não mais depende de classe social para disseminar seu incrível poder de apodrecimento neuronal, uma vez que está acessível a todo mundo. Dizem por aí, inclusive, que grande consumidor da coisa são mesmo os brancos de classe média, tratados quase sempre como algozes dos negros que rimam amor com caralho (!) e se acham poetas. O fato, vale repetir, é que o nosso jovenzinho gosta de rap.

Ou pensa gostar. Um traço comum aos jovens é que não têm gosto próprio. Gostam daquilo que o menino mais popular da escola gosta ou daquilo que a menininha gostosinha da oitava série gosta. O nosso jovenzinho que não tem nome, como todas as vítimas que se prezem, não foge a esta regra e escuta rap. Se ainda escutasse Eminen, com a desculpa de estar aprendendo inglês para depois ler Milton, vá lá, mas escuta Mano Brown, que considera poeta. Um delinqüente legítimo.

É aqui que entra nosso ladrão. Nosso bom e maluco ladrão, Papai Noel da Nauru imaginária, que dá aos escolhidos pela graça de seu bom gosto adquirido assim meio sem querer o poder de ter uma segunda opção e de não cometer o erro de destruir o cérebro novamente. Haverá aqueles que pensarão nele como um presunçoso, sem entender que o que nosso ladrão dá é na verdade a chance de poder pensar no por que de se estar lendo, ouvindo, vendo tal porcaria. Uma missão realmente sagrada e que logo se tornaria seita com milhares de seguidores ao redor do mundo, como se verá ainda, alguns parágrafos abaixo.

Pois nosso ladrão, com o cabelo escovinha que lhe é característico, seguiu o menino até sua casa num bairro chique. Tomando o devido cuidado para não ser confundido com um ladrão qualquer, destes para os quais o inferno é penitência pequena. Viu o garoto percorrer todo o caminho até a casa luxuosa fazendo aqueles gestos típicos de rapper, que o assemelhavam a um doente mental de dano neuronal médio. Não era ainda um caso perdido, o garoto.

A vítima entrou na casa enquanto nosso ladrão dava a volta por trás, num terreno baldio. Trepou no muro e entrou num jardim com uma piscina. Podia seguir o jovenzinho corrompido a distância, porque agora ele cantava o rap que escutava no walkman em alto e bom som. Assim, subiu as escadas tomando cuidado para não ser interpelado por nenhum emprega naquela Casa Grande anacrônica. Ouviu o jovem entrar no quarto, mas sem trancá-la pelo lado de dentro, como é normal nesta idade.

Entrou com tudo. Deu um soco no garoto, que estava precisando de umas palmadas mesmo. Como ele não desmaiasse qual nos filmes americanos, deu-lhe mais um soco e um chute nas suas partes frágeis. Foi o último golpe que prostrou o menino no chão. Enquanto o jovem dormia seu sono dolorido, o ladrão fazia a festa: tirou um saco que trazia sob a camiseta, dirigiu-se à discoteca do garoto e com rapidamente encheu o saco com CDs de rap de todos os grupos conhecidos e desconhecidos. Mais de cem. Ali, descobriu o tamanho do estrago: o garoto, além de rap, escutava heavy metal. Era demais.

Na saída, deu mais um chute no garoto que ameaçava acordar. Ele estava precisando de umas palmadas mesmo.

Para quem se chocou com a violência desta incursão do nosso herói pelo mundo da salvação alheia, vale avisar que isso não ais se repetirá. Foi movido pela violência que é própria do rap que ele deu uns belos socos e chutes no pobre menino. Para se ver o que rimas imbecis podem fazer ao espírito humano. Se o mais santo dos homens foi capaz disso, que dirá de um mero mortal com meia dúzia de idéias na cabeça?

Nosso ladrão teve o cuidado de quebrar um a um os discos que roubara na casa do moleque. Louco que era, depois de bater com o martelo cem vezes em cada disco, tentava recompô-los. Em não conseguindo, depois de duas horas de tentativas, dava-se por satisfeito. Demorou quatro dias e quatro noites oi trabalho do abnegado, ao fim dos quais foi ele procurar outra vítima para ser salva.

O menino? Bem, o menino, no dia seguinte, gastou boa parte da sua mesada comprando os discos novamente. E acabou virando celebridade entre os seus colegas, por ter sido vítima de um assalto no qual, como contou no recreio, lutou bravamente pela honra da irmã prestes a ser violentada.

Nosso ladrão, em não tendo conhecimento deste fracasso teórico, partiu em busca de outra vítima. Que encontraria por acaso dias mais tarde, na porta de um cinema. Quero dizer, havia uma porta com um toldo furado em cima, no qual podia-se ler as letras NMA, com os respectivos espaços entre elas. Era, para todos os efeitos, um cinema, sobretudo para as pulgas que o freqüentavam diariamente, sem descanso, apesar de ali o alimento ser escasso. Pois na porta deste lugar havia um homem, jovem também, mas velho o suficiente para ter uma barba rala e para usar óculos e boina de quem quer se passar por velho e maduro. Ele iria assistir, para o desgosto do nosso ladrão, Goddart. Era um filme que tratava da guerra na Bósnia daquele jeito que só Godard sabe tratar tão mal e que trazia no título o nome de Mozart, só para atrair a cinemas infectos gente como este homem, que aqui chamaremos de Abelardo, na falta de outro nome.

Abelardo comprara ingresso já e o exibia à porta do cinema. O ladrão passará por ele e, não se agüentando de nojo, cuspira na sarjeta. Com um movimento rápido, tirou o ingresso da mão do pobre-diabo que estava prestes a perder duas horas de sua inútil vida, mas ainda assim duas horas. E saiu calmamente, sem temer que Abelardo percebesse a falta do tíquete. Enquanto guardava o ingresso no bolso esquerdo da calça, para cortá-lo em dezenas de pedacinhos que mais tarde tentaria colar por duas horas cronometradas a fim de perceber-se perfeito na aniquilação do mau-gosto, lembrou de um homem que com ele dividia diariamente a sessão de eletrochoques. Falava só francês e andava de um lado para outro no hospital psiquiátrico com uma câmera imaginária na mão, repetindo: “Obra-prima, obra-prima, obra-prima”.

Abelardo, achando que o vento tinha levado seu ingresso, fez menção de ir à bilheteria comprar um outro tíquete que permitiria sua entrada no paraíso gastronômico das pulgas. Vasculhando os bolsos, contudo, descobriu que só tinha dinheiro para mais um gole de cachaça. Goddard podia muito bem esperar a outra encarnação.

E assim se sucederam dezenas de roubos solitários. O maior imprevisto que lhe aconteceu foi ter se apaixonado por uma de suas vítimas. Chamava-se Maria. Apenas Maria e ele a seguira desde a biblioteca pública que voltara a freqüentar. Ela chamou sua atenção por não ser uma perdida absoluta. Na verdade, parecia uma mulher muito bem encaminhada, que pegava um Dostoievski aqui, um Guimarães Rosa ali. Tudo bem que não tinha um Proust em sua biblioteca. Isso não fazia tanta diferença assim. Até que Maria entrou na seção de literatura americana e foi direto na letra F. Com aquele sorriso mórbido no rosto. Procurou algo nas prateleiras que não era F. Scott Fitzgerald. E logo o sorriso mórbido transformou-se em muxoxo para virar sorriso novamente: ela tivera uma idéia. E o nosso ladrão atrás dela, claro.

Saíram da biblioteca, ela na frente, ele atrás, como convém. Enquanto ela descia as escadas deixou cair uma caderneta de telefones na qual lia-se somente o prenome: Maria. O ladrão, que além de louco é cavalheiro. Pegou a caderneta e apressou-se para devolvê-la à moça. Foi aí que ficou sabendo seu nome e, com uma conversinha rápida, que ela estava indo à livraria do outro lado da praça. “Vai comprar o quê?”, perguntou o ladrão, ciente de que uma resposta certa daria a Maria a graça eterna de ter em seu encalço um louco, sim, mas um louco de bom gosto pelo menos. E ainda por cima gentil. Ela, porém, respondeu: “John Fante”. E ele estremeceu.

Já estava apaixonado, contudo, e a seguiu até a livraria. Enquanto ela ia direto onde supunha estar o livro do medíocre, ele se deteve numa estante que só continha dicionários, que ficou folheando a esmo, sem tirar os olhos da moça. Instalou-se o dilema: mais valia a paixão ou a compulsão louca ao mesmo tempo em que santa em surrupiar-lhe o livro e rasgar cada página em dezenas de pedaços impossíveis de serem restaurados? Ademais, como podia ele se apaixonar por alguém que gostava de John Fante? Ela perguntava para o vendedor se tinha o livro que aparentemente não encontrara sozinha, tamanha sua ansiedade. Diante do movimento afirmativo do vendedor com espinhas na cara, ela quase lhe deu um beijo, enquanto o nosso ladrão que ela louco e santo por acaso sentiu vontade de vomitar.

Tudo estava acabo em cinco minutos. De posse do asqueroso livro ela se dirigiu ao caixa e pagou. Lá de longe deu uma piscadela para o ladrão, com o qual julgava já ter uma estranha e urgente intimidade. E veio saltitante ao encontro dele, mostrando a sacola que continha o livro tão aguardado. Ele riu amarelo. Estava apaixonado ao mesmo tempo em que a luz divina do bom gosto o cegava. Caminhou ao lado dela, perguntando numa tentativa que sabia frustrada: “Por que você não leva esta nova tradução do Dostoievski?”. Ela riu, somente, dando de ombros no átimo seguinte. E ele não teve dúvidas, neste momento, de seu caminho rumo ao Paraíso.

Na rua, pediu para ler o livro. Com o Fante na mão, apertou o passo. Ela o acompanhou a princípio, andando como se estivesse praticando marcha atlética. Ele, com o vigor físico que é próprio dos loucos, não desacelerou. Ela pensou em chamar a polícia, mas sentiu-se atraída por aquele homem, e por isso calou-se. Na rua mesmo, e só porque estava mais louco que o normal, por conta da paixão inesperada, rasgou o livro em mil e um pedacinhos.

Estas, no entanto, são histórias de um tempo remoto. O santo louco era somente um homem com uma missão solitárias quase sempre inócua. Apesar de poderem refletir sobre comprar ou não o CD de rap roubado, de ver ou não o filme de quinta categoria com discurso falacioso, de ler ou não mais uma besteira concretista, muitas das vítimas tocadas pela graça do bom gosto feito homem pela mão de Deus preferiam cometer o erro novamente. E lá iam escutar o disco de rap mais uma vez, ver o filme novamente, com um saco gigante de pipocas ou perder boas horas lendo um escritor que mal sabe juntar bê com e.

Hoje em dia o santo que é louco mas não é demente conta com uma rede de seguidores, também anônimos. Outro dia, na Colômbia, vários destes missionários do bom gosto entraram num museu e roubaram cinco quadros com as indefectíveis gordinhas de Botero. Soube-se de um colecionador de música sertaneja brega, um destes fazendeiros com milhões de cabeça de gado, que ficaram milionários do dia para a noite depois de encontrar um veio quilométrico no garimpo, que foi seqüestrado e declarou ter passado por sessões de tortura inusitadas: os seqüestradores, que não haviam pedido resgate, colocaram em seus ouvidos Bach, Beethoven, Chopin, Mozart e Schubert, dia e noite. Os ladrões hoje também se prestam a atos de terrorismo cultural, não recomendados e que certamente seriam desaprovados pelo ladrão que deveria ser beatificado, aquele ser primordial que zelava pelo bom gosto alheio: apedrejam museus dedicados ao movimento dadaísta, cospem nas estátuas dos escritores beatniks e soltam arrotos intermináveis no meio de um show do Ivan Lins, por exemplo. São radicais de um movimento que nasceu puro, porém.

Sobre o nosso ladrão mesmo sabe-se pouco. Que na adolescência achava que era Papai Noel. Que jurava ter nascido em Nauru, uma ilhota minúscula no Oceano Pacífico que vira de relance num globo terrestre quando tinha sete anos e dela jamais se esquecera. Que foi internado sucessivas vezes em manicômios, dos quais saiu sob os aplausos dos médicos ao seu cabelinho escovinha. Que as pessoas na rua o confundiam com Ralph Fiennes, o que faz crer que ele era muito parecido com Ralph Fiennes, não? E que começou a roubar para ver se salvava a vida das pessoas das mentiras sedimentadas ao longo das décadas pelos suplementos culturais. Não consta que tenha sido preso, nem tampouco que alguma vítima tenha prestado queixa de seus roubos. Dele não há um retrato-falado, se bem que tal tarefa não seria difícil, ora, se ele é a cara do Ralph Fiennes!… É bem provável que ainda esteja por aí, praticando seus delitos sob as bênçãos de Deus. Pode ser, contudo, que tenha morrido. E que sua alma tenha ido direto para o Céu. Por isso, se aquele disco de funk melody tiver sumido ou se o dinheiro para o novo filme iraniano tiver sumido misteriosamente do bolso da calça ou ainda se na estante estiver faltando o mais recente lançamento da mais recente fraude literária, convém acender uma vela: foi milagre do ladrão. Que deveria ser beatificado, tivesse ao menos um nome.

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Dissertação do não-beijo

por Paulo Polzonoff Jr. em 12 September 2002

ou
Teoria geral da natureza do homem
ou ainda
Um nome: o seu

Vamos chamá-lo de Sr. P.. Assim, com uma só letra, o suficiente para que ele, o Sr. P., não seja nem um anônimo nem seja confundido comigo, apesar de termos as mesmas iniciais. Afinal, o Sr. P. é muito diferente de mim — diria até que é o oposto. A não ser pelo detalhe de não sermos lá muito felizes em nossas vidas sentimentais, o que, diga-se de passagem, é a coisa mais comum do mundo.

Pois eu encontrei o Sr. P. ontem e ele estava alegríssimo, dizendo que finalmente terminara aquele poema épico sobre a árvore que deu origem à cruz usada na primeira missa realizada no Brasil. Como podem ver, o Sr. P. é um homem de idéias estranhas, porém elevadas. Tive uma ponta de curiosidade em ler o poema do Sr. P., mas desisti no átimo seguinte; era muita erudição para meu gosto.

O Sr. P. é alto, tem quase dois metros de altura, o que não o impede de ser um homem elegante e bastante comedido em seus gestos. Pode passar despercebido num bar, desde que esteja sentado e bebendo seu bourbon enquanto conversa sobre temas que podem ir da qualidade da costela ali servida à nova teoria sobre a domesticação das formigas. Tido como um amigo exemplar, o Sr. P. quase nunca está só, no sentido menor da palavra; há sempre ao redor dele homens e mulheres interessados em aprender alguma coisa.

Só que o Sr. P. não é lá um homem de muitas mulheres. Não se sabe ao certo por quê. Alguns dizem que ele é homossexual mas não sabe ou finge não saber; há quem credite a solidão ao amor que o Sr. P. sente pelas artes mais obscuras; outros dizem simplesmente que ele não é um cara atraente para a maioria das mulheres.

Engana-se, contudo, quem pensa que a solidão incomoda o Sr. P.. Ao contrário, este homem tem por ela especial afeição. Costuma ele dizer que é graças à solidão que é o que é. Convenhamos: é uma frase enigmática, eu diria até vazia, mas dita assim pelo Sr. P., depois de dois bourbons, até que soa a mais alta das filosofias.

Ontem ele estava numa mesa contando sobre como finalmente terminara seu poema épico quando eu resolvi investigar um pouco a vida sentimental do Sr. P.. Não que eu seja um amante das fofocas, em absoluto, mas me interessa sobremaneira como as pessoas se portam diante deste sentimento confuso e contraditório que é o amor. Sem se importar com o teor íntimo do assunto, e mostrando-se surpreendentemente capaz de envergar uma conversa sobre sua vida para muitos obscura, exibindo-se até, o Sr. P. começou a contar sua vida por um prisma que eu jamais ouvira entre homens, em bares: o da frustração.

Não era o tipo de conversa que deixava a gente para baixo, não; era uma conversa bastante animada, com a qual todos nós, homens, nos identificamos. Era uma história simples de uma vida que estava por nascer, ao que parecia. De tal modo era a sinceridade de Sr. P. ao falar de suas frustrações amorosas que um outro homem na mesa, que chamaremos aqui de Sr. A., começou a chorar porque súbito descobriu não ser o único desgraçado em todo o planeta Terra. Não nominaremos o Sr. A. porque sua aparição nesta história termina aqui.

Começou o Sr. P. dizendo que para nós, homens, o beijo não é um ato tão-somente libidinoso, como pensam a maioria das mulheres e muitos homens que jamais olharam para dentro de si, com medo do vazio. Para nós, homens, dissertou ele, o beijo é um dos últimos vínculos com a selva, com o nosso senso de conquista, de caça, de poderio sobre os demais seres, inclusive os da nossa espécie. Não havia nenhum tipo de impostura machista neste conceito. Sr. P. afirmava apenas que éramos animais e que no beijo residia o mais sublime dos lados desta selvageria latente. Por isso, nada mais natural que um homem, ao longo de sua vida, beijasse tantas mulheres quanto fosse possível. Fracassar neste item era mais do que um sinal de fraqueza e o início de uma grande frustração ou talvez até mesmo de um câncer; era, segundo o Sr. P., a própria negação da masculinidade ou, pior ainda, a negação da humanidade do ser. Sem este vínculo com a selva, através do beijo, o homem passava a se considerar algo superior e por isso mesmo inferior ao meio em que vivia. Arrematou estes preâmbulos iniciais com uma frase que chocou a todos: dizia isso porque ele próprio considerava-se um ser externo e menor a seu meio. Assim como eu e como muitos dos que me lêem, o Sr. P. era um homem de poucos beijos em sua vida.

A história do Sr. P. é singela e exemplifica esta relação conflituosa que o homem tem com o beijo, motivo até de brigas entre os próprios homens. Mostrando humildade, qualidade nele sempre muito visível, irritantemente visível, diria eu, o Sr. P. narrou sua primeira tentativa frustrada de beijar uma mulher, ou melhor, uma menina. Tinha ele inacreditáveis cinco anos de idade e esta menina ficou gravada em sua memória sem nem mesmo ter um nome, passados tantos anos. Ele a recriou, por assim dizer, para poder torná-la exemplo: era loira e tão pequena que ele morria de medo de machucá-la; era mais ou menos como um duende, ainda que mais bonita e nada mística. Com cinco anos ele sentiu um impulso que na hora não soube explicar a si próprio e sobre ela lançou-se. Não obteve êxito. Morreu ali o primeiro beijo do Sr. P.

Dois anos mais tarde, encontraria ele outro ser que lhe despertaria os desejos primitivos do beijo. Outro nome perdido nos confins da memória vultuosa do Sr. P. e outro beijo que morreu a uns poucos centímetros da boca alheia. Segundo o Sr. P., neste momento, aos sete anos de idade, começava a morrer a criança para nascer o homem.

Beijo mesmo o Sr. P. só conheceu muito mais tarde, com uma mulher em desenvolvimento (eufemismo que gerou risadas esparsas na mesa que, talvez fosse impressão minha, ficou mais e mais cheia) chamada Consuelo. Rangeram os dentes, as línguas se tocaram antes mesmo dos lábios. Durou longos segundos aquele beijo, inesquecível, apesar de Consuelo também se ter perdido em labirintos. Naquela mesma noite, o Sr. P. foi presenteado com mais uma caça à disposição. Este segundo beijo numa só noite, disse o Sr. P., foi muito mais elaborado e o levou direto para as profundezas de seu eu-animal. Aquele vínculo, por mais que demorasse a ser atingido novamente, jamais se extinguiu por completo, porque criou em Sr. P. raízes ou, como preferia ele, fincou-lhe garras duradouras.

Outras histórias de beijos foram ocultadas para dar vazão ao verdadeiro objeto de dissertação naquele momento de mágica poesia. O garçom nos trouxe mais algumas cervejas, dispostas a esmo na mesa, e enquanto nos servíamos escutamos naquela voz velha e cansada apesar da jovialidade temporal algumas palavras de imensa poesia e dramaticidade.

Ali, entre tantos nomes, estava um homem revelando-se inferior aos seus pela sua incapacidade de conquista. Todas as batalhas perdidas, narradas uma a uma como se fossem feitos de bravura, quando foram, no máximo, momento de maior covardia e temor que um homem pode e não deve enfrentar em sua vida. Simone, Carla, Juliana; outra Juliana, uma mulher sentada no ônibus, outra anônima que com ele esbarrou na rua; todo um alfabeto de nomes que por vezes se repetiam era o repertório de não-beijos contados pelo Sr. P. Destes, guardei com especial carinho a história de Carla, lindíssima mulher por quem ele se apaixonou e por quem — surpresa! — foi correspondido. Atrás da árvore, como um gatinho encolhido pelo frio, como um verdadeiro rato acuado por uma vassoura assassina, deste modo escondeu-se o Sr. P. de Carla quando marcaram um encontro que selaria aquele início de namoro com um beijo. E depois, então, no caminho de volta para casa, sentindo-se um derrotado, com sangue a verter-lhe sobre o braço como se tivesse sido ferido por uma besta-fera. Carla foi o pior não-beijo na vida do Sr. P, segundo o próprio nos contou naquela noite, naquele bar.

O leitor ou leitora pode imaginar que dele caçoávamos enquanto nos contava as proezas de sua vida. Enganam-se; venerávamos o Sr. P. pela ousadia de se expor deste modo a homens sedentos por sentirem-se superiores a eles próprios. Paradoxalmente, ao narrar suas desventuras que o tornava, aos olhos dos demais, um não-homem, crescia o Sr. P. em masculinidade, de modo que começamos a sentir uma ponta de inveja daquele grande e maravilhoso perdedor.

Era alta madrugada já e estávamos cansados das histórias do Sr. P.. Introspectivos, vasculhávamos nossas vidas atrás de algo parecido com aquilo. E invariavelmente encontrávamos o que estávamos procurando. E nos surpreendíamos ao perceber beleza em todas aquelas derrotas. Intumescidos pela poesia do fracasso, os homens foram saindo da mesa, indo para suas casas, beijar suas mulheres ou namoradas, ou rememorar os beijos jamais selados.

Entre estes, que saíram sem ouvir o final da preleção do Sr. P., estava eu. Amargurado mas não exatamente deprimido, selecionei alguns nomes na enormidade de mulheres que habitavam minha vida pretérita de humilhação, fracasso e, na maioria das vezes, uma autocomiseração doentia. Claro que havia muitos nomes coincidentes com os do Sr. P., mas as que mais me tocavam pela minha própria incapacidade de ser homem eram mulheres de quem eu pouco sabia e menos ainda lembrava, geralmente pedestres que acompanhei por uns poucos passos na rua ou com quem viajei em ônibus entupidos.

Ter saído daquela mesa sem ouvir a conclusão da história do Sr. P. me deu uma sensação nada equivocada de reticências. Talvez fosse isso mesmo o que queria provocar o meu amigo: reticências na alma do interlocutor. Um vazio inexplicável de sentido para aquilo que estávamos acostumados a entender como a Natureza Humana, sem que prestássemos atenção de onde vinha esta tal Natureza. Obviamente que vinha das profundezas verdes da ancestralidade animal.

Depois de ouvir o Sr. P., vim direto para o computador, para pensar no maior beijo jamais concebido por mim em sua forma física, em seu contorno palpável. O nome de meu maior fracasso, de minha humilhação mais constante, de meu reflexo não-humano mais horroroso. A mulher que jamais beijei e que jamais beijarei e que ao mesmo tempo tantas vezes beijei naquilo que me torna superior aos demais animais e, talvez, aos semelhantes: a imaginação. O nome permanecerá oculto, claro, impronunciável diante da grandeza que é não tê-la beijado jamais.

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