Canários

 

Largue a metafísica, Paulo! Vai lavar a louça, bater uma laje. Experimente a dor do cartorário, que não é dor, é só ritmo, é o carimbo tocando o samba cotidiano da vida.

Se lhe sobra sofrimento pelo que não sabe e pelo que insiste em sonhar no quarto escuro e pela esperança que escorre entre os dejetos do que um dia antes foi um banquete feliz, vai ver o sofrimento da cancerosa e nela admira o débil sorriso de quem ainda espera, de quem olha para o céu azul e não pensa que é alma enclausura em corpo frágil, de quem tem fé em coisas simples e óbvias, de quem acredita em rosadas frases feitas, de que vai dormir sem atinar para a metástase ou de quem vê na metástase estranha prova de Deus.

Vai, homem, deixa de lado as palavras, sente na boca o sal do próprio suor ao menos hoje, e não espera da vida nada além da putrefação certa, certíssima, inevitável. E faz do ar imóvel e úmido a alimentar seus pensamentos algo mais do que delírios de imortalidade.

Não há, bem sabemos, forma delicada de extirpar-lhe a metafísica. Por isso crava no peito o bisturi achado na sarjeta, aguenta estoicamente a dor que não é dor da carne, admira o vermelho da vida que lhe escorre – e só admira porque sabe que o sangue há de ser estancado e que o amor sufoca estes seus desejos mentirosos de morte.

Ninguém, Paulo, vai admirar sua angústia. Até porque nela não há o que admirar: a angústia é o aleijão da alma, a desfiguração do espírito carcomido pela dúvida infecciosa. Enlutados, eles dirão que é pena e que é triste e talvez alguém até escreva seu obituário – sobre o qual defecarão canários em algazarra.

Engole o choro, deixa de frescura, homem! Que o mundo não se importa com sua desimportância e os vizinhos continuarão a ignorar seu nome. “Lembra daquele chato que dizia isso e aquilo?” – perguntarão, e a resposta será uma negativa que ecoará pelo tempo. Você foi nada, é nada, será nada. Pode espernear! Ainda assim o nada o envolverá como um cobertor negro: é o Universo pondo um fim no que um dia foi um bom pesadelo.

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“Aspismo”

A inteligência brasileira sofre do que Carlos Drummond de Andrade chamou de “aspismo” e Otto Lara Resende chamou de “nomismo”. Há tempos constato, como disse Clarice Lispector, “isso”. Os intelectuais, profissionais e diletantes, não conseguem organizar qualquer tipo de raciocínio sem recorrer à “validação patética das aspas”, como já dizia José Saramago.

Talvez seja consequência do que José Paulo Paes, em seu elogiado e desconhecido ensaio “Aqui Não, Mermão”, definiu como “cultura do fichamento”. Sabe como é: neguinho perdeu o prazer da leitura pela leitura e, página após página, incapaz de formular uma ideia original, “vai colecionando frases e mais frases que, entre aspas, cabem em qualquer texto banal sobre assunto igualmente banal e dá a eles, texto e autor, respectivamente substância, ainda que falsa, e erudição, também falsa” (Caio Fernando Abreu, in “Estudos Sobre Teu Delicioso Falo”).

Longe de demonstrar, como sugeria Camões, “embasamento teórico ou qualquer porra do gênero”, o aspismo/nomismo é sintoma de uma inequívoca insegurança. E também de uma boa dose do que Machado de Assis qualificou como “babaquice”. Não se trata daquela coisa que Isaac Newton falou lá – e falou mesmo! – de ver mais longe por estar sobre o ombro de gigantes; em geral, é tão-somente uma tentativa patética de demonstrar erudição, de mostrar aos outros que se leu “coisa pra caralho”, como disse Nietzsche.

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Um humilde estudo da arrogância

Existem palavras simples que a gente usa sem atentar para o significado exato dela. “Arrogância”, por exemplo. Hoje me chamaram de arrogante (não pela primeira vez) e lá fui eu, num exercício humilde de autocrítica, pesquisar o significado de “arrogância” para entender o que sou.

O que li me surpreendeu.

Me informa um dicionário qualquer aí (Google) que arrogância é a “qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez”.

São muitos os problemas dessa definição.

Para começar, há a questão da suposta superioridade. Suposta aos olhos de quem? Do Outro, claro. Que, por motivos óbvios (alguém arrogante diria que “por suposta inferioridade moral, social, intelectual, etc”), pode muito bem sofrer de uma terrível falta de auto-estima.

A definição, por sinal, parte de um princípio igualitário que me parece perigoso. Ao “criticar” a ideia de uma superioridade (moral, intelectual, social e de comportamento), a definição de arrogância pressupõe a existência de um “meio ideal”, isto é, de um nível qualquer no qual todas as pessoas são igual e idealmente virtuosas. Qualquer coisa acima deste meio ideal seria, portanto, sinal inequívoco do grave crime de arrogância.

A arrogância parece também ser definida somente a partir de uma ação. Porque, veja bem!, o arrogante é aquele que “assume atitude prepotente ou de desprezo em relação aos outros”. Ora, mas e se a pessoa que se arvora a tal superioridade moral, intelectual, social e de comportamento ficar quietinha no seu canto? Ela deixa de ser arrogante? Ou a arrogância é assim como uma piada interna?

E aqui, mais uma vez, vale a pena humildemente estudar o Outro, isto é, aquele que parece identificar a arrogância na voz passiva. Meu amigo, será que você não deveria ter um pouco de orgulho próprio, de altivez, de “confiança no próprio taco”? Deixe de ser inseguro, menino!

Depois tem aquela parte lá do “orgulho ostensivo”. Ah, você quer me convencer de que o orgulho mudo, velado, é mais nobre e admirável? Isto é, aquele que se considera superior em silêncio deixa de ser arrogante?

Tudo isso para dizer que fui chamado de arrogante por aí. O que, evidentemente, me incomodou bastante. O suficiente para eu escrever este texto. Eu queria “pedir desculpas” dizendo que minha arrogância é sobretudo irônica, mas daí pensei que vão dizer que estou me considerando intelectualmente superior por pressupor que o Outro não entende ironia.

Não. Não desprezo aqueles que considero moral, intelectual e socialmente inferiores a mim. Ao contrário, vejo-os com extremo interesse, me perguntando constantemente como conseguem viver neste vácuo moral, nestas trevas intelectuais e nesta pobreza social.

(E agora, veja só que desgraça, estou me achando arrogante por supor que ninguém vai entender a ironia – inclusive autoironia – do parágrafo acima).

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Meu Walden

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha, cheia daqueles compartimentos que em breve estarão pululando de vida. No momento ela está no meio da sala, desmontada, e assim permanecerá até que alguém com mais destreza no manejo de uma chave de fenda me ajude.

Ainda hoje pretendo comprar um traje próprio para apicultura. Daqueles que fazem você parecer um astronauta. Custa baratinho nas Americanas. Minha única dúvida é quanto ao tamanho. Meu otimismo me leva a cogitar um traje pequeno; a prudência me faz pensar num traje médio; mas a realidade me impõe um traje grande mesmo. Extra grande está fora de cogitação – por enquanto.

Ontem mesmo mandei várias cartas – cartas, meus amigos, aquela coisa velha com envelope e selo e a providencial lambida – para a Embrapa, Emater, Associação Brasileira dos Apicultores, Sebrai e Senai. Depois de receber as devidas orientações dos especialistas, vou comprar uma abelha-rainha e atrair operárias e zangões dissidentes de colmeias próximas.

Falta ainda a terra, claro. Seria ainda mais louco do que sou se criasse abelhas no apartamento. Fiz pesquisas e estou apaixonado por uma chácara ali em Morretes. Tem uma casinha de madeira caindo aos pedaços que me encanta, mata nativa, micos-leões, palmito e até um riachinho. Ontem pensei em comprar uma bateia a fim de procurar ouro naquelas águas geladas. Vai quê?

Com o mel que obtiver das minhas escravinhas aladas pretendo fabricar pão-de-mel. Se, nos próximos meses, você encontrar um homem de barba rala e esbranquiçada pelas ruas da cidadezinha oferecendo pães-de-mel a um preço absurdamente alto, sou eu. Enquanto isso, também vou pensar numa receita que envolva mel, palmito e carne de mico-leão.

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha. Depois de montada (se um dia chegar a ser montada), e enquanto a papelada da terra não fica pronta, vou usá-la provisoriamente como criado-mudo. Empilharei livros de poesia sobre ela. Talvez até instale aquele abajur velho, se arranjar coragem para trocar a lâmpada há muito queimada. E, no frio dessa cidade que me oprime, usarei o traje de apicultor como pijama.

Nem gosto de pão-de-mel mesmo.

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Tipo agora, digamos assim

A ironia é um verdadeiro milagre. É o mais próximo que chegamos da telepatia. E, como todo milagre, há os abençoados e os desgraçados, tanto emissores quanto receptores – ou, no caso, não-receptores.

Para que uma ironia seja produzida numa ponta e decodificada na outra, é necessário um encadeamento específico de elementos. Primeiro, é preciso que tanto emissor quanto receptor esteja numa mesma “frequência de inteligência”. A ironia raramente se realiza entre inteligências muito díspares. Tipo agora, digamos assim.

E, aqui, já se nota o dedo de Deus: repare que os envolvidos da tal “dinâmica irônica” não precisam nem estar no mesmo limite do segmento espaço-tempo para que a ironia se realize. Um intelecto que virou pó há duzentos anos ainda é capaz de gerar toneladas de ironia.

Voltando ao encadeamento milagroso. Digamos que lá no sertão de Piraporinha do Oeste um Fulano resolve ser irônico. Talvez ele nem perceba que vai ser irônico, que vai realizar O Grande Milagre da Linguagem. Porque muitas vezes a ironia é pura intuição. Quem disse mesmo que a ironia é o diabo sussurrando mentiras em nosso ouvido? Ah, acho que fui eu mesmo.

Pois o Fulano tem uma ideia, um conceito que queira deixar registrado para a posteridade, por mais restrito que seja este infinito aí. Em vez de escrever o que realmente pensa, porém, ele escreve o contrário do que queria dizer. Mas sem recorrer a itálicos ou quaisquer elementos gráficos do tipo. A ironia não tem marcador e isso só a torna ainda mais incrível.

Do outro lado do papel ou da tela, o leitor se depara com o que o fulano escreveu. E, numa fração de segundo, decodifica o alfabeto, a sintaxe, a porra toda. Para só então, telepática e inexplicavelmente, deduzir que Fulano quis dizer não o que o cérebro formalmente entende e nem exatamente o contrário – até porque, reconheço aqui, só ironias mais grosseiras funcionam assim tão explicitamente.

O leitor, então, quase que desafiando as próprias sinapses, negando o que seus olhos veem, parece ceder a um Espírito Maior, a uma Força Incognoscível, para concluir que o escritor está dizendo algo completamente diferente do que sugere o enfileiramento de letras que ele tem diante de si, algo que sintetiza mundos, que compreende referências comuns, claras e obscuras, que comunga valores implícitos.

(…)

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