Give thy thoughts no tongue

(desobedecendo Polônio)

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Opinião e liberdade

Textos Curtos · 6,8,2008.

Desde que comecei a ser lido, ainda que pela tal nanoaudiência, me deparo com a questão da opinião e liberdade. Mais novo e inexperiente, escrevi longos textos a fim de deixar claro a quem quer que fosse: não quero convencer ninguém de nada. Mas era inútil. Sempre foi. Por algum motivo, a opinião sempre é lida como uma tentativa de controle, de persuasão. Será?

Trata-se de um grande e intrincado paradoxo. Um novelo torturante, com centenas de pontas. Algumas eu identifiquei nos últimos anos. Problema insolúvel, a relação entre opinião e liberdade (ou opinião e cerceamento da liberdade) me fascina justamente pela infinidade de variáveis que o compõem. Não quero resolver a equação. Como um daqueles matemáticos russos meio malucos, eu só quero enfileirar símbolos e os ler em voz alta, com sotaque de vodca. Me contento com pouco.

Sem dúvida alguma há quem dê sua opinião querendo convencer, persuadir e, em última análise, controlar. A opinião panfletária tem uma longa tradição, em nome da qual já se matou muita gente. Na Era da Informação, talvez este tipo de opinião tenha perdido os pontos de exclamação e até mesmo os imperativos, mas não a força.

O problema é quando toda opinião é vista como um panfleto, uma tentativa de mudar o mundo. Ora, a idéia de mudar o mundo traz embutida a idéia de que há mundos melhores e piores. E, não por coincidência, o nosso mundo tende sempre a ser melhor do que o vizinho. A medida de todas as coisas é sempre um indivíduo. Não raro, os piores: Stálin, Hitler, Mao e Castro que o digam.

Aqui é que o novelo fica mais intrincado: qual a responsabilidade do leitor, ou, para usar um termo da faculdade de Comunicação Social, do receptor? E até que ponto o tal receptor, no século XXI, está condicionado a ler a opinião alheia como um panfleto, uma imposição de certos argumentos e valores?

Eu confesso que às vezes fico paralisado só de imaginar que o leitor possa estar pensando que quero convencê-lo de qualquer coisa. Já era assim antes, quando eu ignorava a liberdade alheia. Agora, que a prezo inteiramente, tudo se complicou. Preciso respirar fundo e me lembrar que o leitor é livre para pensar o que quiser – inclusive para pensar que eu não prezo a liberdade dele.

Seria muito mais fácil não escrever, não é? Claro que a fuga é sempre uma tentação, sobretudo quando ela se mostra a escolha mais sábia. Mas, se eu me rendesse a isso, não estaria pressupondo que todos os leitores/receptores são incapazes? Não seria isso, portanto, uma forma de controle – extremamente arrogante, por sinal? E quanto à minha liberdade de desobedecer Polônio – quem zela por ela?

Escrever só é um exercício de liberdade quando se é capaz de suportar as imprevisíveis conseqüências da escrita. As más e as boas. Ser confundido com Mao e Hitler aqui; despertar algum bom e sonolento espírito acolá. Não há controle; o máximo que se pode fazer é ser o mais honesto possível – e esperar.

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