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Ouro de tolo

Nesta minha história, não. Gregor Samsa não acordou de sonhos intranquilos.

Nem poderia. Ele teve um dia cheio demais, andando de lá para cá tentando resolver problemas burocráticos, fazendo planos que jamais serão concretizados e trabalhando como se o amanhã fosse um fato dado. Ao chegar em casa depois de um dia assim corrido, Samsa só quis saber de um gin tônica apressado, banho quente e demorado, uns cafunés de e em Marcela – e cama.

Mal colocou a cabeça no travesseiro, Samsa começou a roncar aquele ronco que geralmente prenuncia um ataque do coração. Ele precisava emagrecer. E se exercitar. E não ficar tão ansioso. E sobretudo não se punir por escolhas que ficaram no passado. Protegido do mundo por uma grossa camada de penas de ganso, Samsa passou por todos os umbrais do sono até cair no colorido e absurdo universo dos sonhos.

Sonhos dos quais ele nunca se lembrava no dia seguinte. Ainda bem. Só os chatos contam seus sonhos – e Samsa tinha mais o que fazer do que ficar expondo a estranhos as alegorias nem sempre admiráveis de seu inconsciente. Os chatos e Marcela. Mas Marcela tinha o corpo mais gostoso, a voz mais doce e os sonhos mais interessantes do mundo. Nessa ordem.

Lá pelas três horas da manhã, porém, ele teve “o” sonho. Era sempre a essa hora que o trem passava, tocando sua buzina histérica e sádica. Se Samsa por acaso acordasse desse seu sonho (ou fragmento de sonho) intranquilo, veria de dentro da cabine da locomotiva o condutor sorrindo seu sorriso mais psicopata, aquele sorriso irregular e podre de quem tem nas mãos o poder de interromper os sonhos tranquilos ou intranquilos de todo um bairro. Filhodaputa.

O sonho não tinha enredo nem personagens. Era só uma sensação. Alguém ou algo o segurava pelas costelas. Ou melhor, por uma costela específica, a décima-primeira. Aquela que lhe dava arrepios só de pensar. O propósito da tortura ninguém nem sabe se havia. O universo dos sonhos tem também seus cantos escuros e cinzentos, onde pesadelos são gerados e de onde eles saem pelo espaço como uns cometas fantasmagóricos que os antigos costumavam retratar na forma amedrontadora de íncubos e súcubos.

Na cama, Samsa se virou de um lado para o outro e gemeu. Sem acordar. Alheia à realidade e ao barulho do trem, a sensação intranquila de repente fez as pazes com o frio da noite e o peso do edredom, desaparecendo em alguma intersecção do contínuo espaço-tempo – ou numa sinapse qualquer. Samsa continuou dormindo enquanto a noite, como sempre, perdia a batalha contra a aurora, até que o torpor do nosso sonolento personagem aos poucos desse lugar ao homem angustiado de todas as manhãs.

Ele acordou, deu um beijo rápido em Marcela e entrou no banho para se livrar da noite que parecia sujá-lo como lama. Uma vez limpo, foi tomar o café-com-leite de todos os dias, mergulhando o pão murcho com muita manteiga no líquido quente e doce. “Você não está esquecendo algo?”, perguntou uma voz doce vinda lá do quarto. Sem hesitar, Samsa deixou um pedaço de pão encharcado no pires e saiu correndo para pegar o celular no criado-mudo. “O café está na mesa”, disse ele para a namorada que já tinha voltado a dormir.

Ao ligar o aparelhinho, Samsa abriu logo o aplicativo da Grande Rede Social a fim de garimpar um raciocínio brilhante no meio de tantas bobagens. Pelo menos era o que ele dizia a Marcela e a todo mundo que questionava aquele hábito odioso de consultar a Grande Rede Social diariamente, ainda à mesa do café. A verdade inconfessável era outra: o que Samsa procurava todos os dias pela manhã era uma bobagem qualquer que tornasse o cotidiano mais suportável. Ouro de tolo, dirá alguém, sem que o clichê lhe tire a razão.

Naquela manhã, porém, em vez de um golden retriever todo lambuzado de chocolate ou um gatinho com cara de que tem respostas para todas as dúvidas existenciais do mundo ou ainda uma criança ranhenta fazendo coisas de crianças ranhentas, Samsa se deparou com um post de Marcela escrito às 9h35 – ou seja, dali a uma hora. Sem entender e amaldiçoando o algoritmo, ele leu, releu, tresleu. Sem acreditar no que seus olhos viam – se é que viam mesmo.

E caiu num choro infantil, desses de soluçar, tão, mas tão alto que até o maquinista maldito do comboio matinal deve ter ouvido. Lá do quarto Marcela veio correndo, um fio de baba no canto da boca. “O que aconteceu?! O que aconteceu?!!”, perguntou ela. Mas Samsa só conseguia chorar. E, em chorando, ele tocava as pernas, os braços, o peito, o rosto, o pau (meu Deus, o pau!), como se o corpo, por mais velho e flácido que estivesse, fosse prova inegável de que ele ainda estava vivo.

Quando, finalmente, conseguiu conter os solavancos do corpo, Gregor Samsa deixou o celular sobre a mesa e levantou a cabeça que parecia pesar cem mil toneladas. Em câmera lenta, lentíssima, como se ele fosse já espírito dirigindo a cena toda, Samsa olhou para Marcela, que parecia prestes a desmaiar, e perguntou, a voz tão calma quanto possível diante daquela situação:

— Só dois likes?!

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