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Ou não

“O importante é começar o texto com aspas, para já impressionar o leitor com sua cultura vasta”, disse o poeta cipriota Alxdje Xiruhqd. Repare na quantidade de consoantes e na impronunciabilidade do nome. E também na nacionalidade remotíssima. Não se preocupe com o fato de ser uma citação completamente falsa de um poeta idem. Se você tiver credibilidade diante do leitor, ele jamais verificará a fonte da citação. E se você não tiver ele jamais verificará a fonte por pura preguiça. Agora abra outro parágrafo porque o leitor, por incrível que pareça, já cansou.

Muito bem. Insista no erro, só para testar a paciência do leitor que aguarda ansiosamente para ler sua opinião sobre qualquer coisa e, aqui, teoricamente sobre o filme Trama Fantasma. “Quanto mais confuso o leitor estiver já no segundo parágrafo, maior a probabilidade de o escritor ser um idiota, ainda que tudo seja intencional, da idiotia à confusão”, disse a cineasta Carla Camurati. E, assim, ao ler um nome que ele reconhece vagamente das páginas culturais ou das revistas de cabeleireiro, o leitor já se acalma, porque tem a impressão de estar na mesma página que você. Viu como é fácil?

Parágrafo novo é ótimo nessa hora. Significa que você vai dar uma guinada no texto, certo? Ou quase isso. Minha sugestão é contar uma historinha pessoal com ares de carochinha: estava no meio de um jantar quando um amigo ofegante me ligou dizendo que eu precisava sair dali imediatamente para assistir ao novo filme de Paul Thomas Anderson (talvez você tenha demorado demais para mencionar o diretor da moda). “Você vai amar”, disse ele, e agora a citação é verdadeira, mas quem é que se importa?

Se você for uma pessoa com boas relações no meio literário, jornalístico, intelectual, influenciador ou só metido a besta, este parágrafo é uma boa hora para mencionar os amigos que possam se encaixar na historinha acima, por mais que na verdade você jamais tenha recebido uma ligação deles no meio de um jantar ou em qualquer outra ocasião. Vá citando assim aleatoriamente as pessoas que são ou foram seus amigos e que talvez se envaideçam com a lembrança ao acaso. Mas abra outro parágrafo.

Porque Sérgio Rodrigues isso, Sabbag aquilo. Apolloni não sei o quê, Diogo Rosas tal e coisa. Oi, Martim Vasques da Cunha, Francisco Escorsim. Você anda sumido, Antônio Fernando Borges. Mas tome cuidado para expressar diversidade. É importante mencionar também uma mulher (Márcia Xavier de Brito), um representante da diversidade sexual (Fábio Moraes), uma estrela do rock independente (Francisco del Rio) e, claro, um judeu (Victor Grimbaum). E, aqui, você pode ou não marcá-los nas redes sociais, mandar uma mensagem avisando ou simplesmente esperar que busquem a si mesmos e se encontrem no Google. Dez leitores garantidos

Quatro parágrafos. Uau. Acho que já está mais do que na hora de dar sua opinião sobre Trama Fantasma. Mas não sem antes falar de Daniel Day-Lewis. Fale o óbvio, mas de um jeito que pareça… especial. Mas não especial no sentido de deficiente; especial no sentido de inteligente. E, assim (veja como o texto é mágico!), você acaba de matar três coelhos com uma cajadada só: mencionou Daniel Day-Lewis, disse o óbvio a respeito dele e ainda fez um comentário politicamente incorreto para dar de comer aos cães polemistas.

Mas, veja bem!, é importante também deixar claro que você prestou atenção às demais qualidades e defeitos do filme. Fale mal da fotografia, mas não muito, para não parecer chato. Elogie a direção de arte, sempre tomando o cuidado para não soar um salta-pocinhas. Mas, por favor, abstenha de falar sobre aspectos técnicos do filme, para não soar pedante demais. Além disso, convenhamos, ninguém quer sua opinião sobre a edição de som.

Importante ainda é ressaltar alguma injustiça no filme. Assim você parecerá ainda mais… especial (no sentido que o leitor bem entender). Fale de um aspecto im-por-tan-tís-si-mo que ninguém notou naquela cena que ninguém percebeu. E aproveite para mostrar que sabe separar sílabas. Revolte-se por que a atriz não foi reconhecida como merecia ou por que a película (é muito importante usar a palavra “película”) não ganhou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Nauru. E, antes de abrir um novo e, espero, derradeiro parágrafo, dê ao leitor tempo de pesquisar onde fica Nauru – não, não é na Oceania!*

Hora de terminar o texto, porque ninguém mais tem paciência. Mas não vá embora antes de fazer mais referências. Agrade ao pessoa da alta cultura citando um Eliot aqui (ü) e aos mais nacionalistas simplesmente escrevendo o nome de Machado de Assis (ü). Seduza a esquerda com um Godard (ü) ou até um Brecht (ü). Agora faça paralelos, por mais absurdos que eles sejam, com o cinema nacional. E ninguém vai morrer se você mencionar o absurdo que é a lei da meia-entrada e a lei Rouanet.

Mas, porra, o parágrafo anterior não era o derradeiro? Isso mesmo. Proponha uma pergunta retórica ao leitor. É bem provável que alguém caia na armadilha e responda algo. E, por fim, na última frase mesmo, use uma frase de impacto, uma frase tão ressonante que não restará ao leitor alternativa senão concordar com tudo o que você disse e mais um pouco. Ou não.

 


*É na Oceania, sim. Mas, hoje em dia, para o texto ser considerado bom ele tem que ter ao menos uma nota de rodapé e um erro factual. Melhor ainda se tiver um erro de hortografia, para mostrar que você não estava “nem aí” quando escreveu, entende?

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