Orlando Orfei: nome & mito

por Paulo Polzonoff Jr.

É uma pena que os pais não se interessem mais por aquele castelo de lona multicolorida, encimada por um nome italiano, Orlando Orfei, com o típico cheiro de serragem, urro de leões e elefantes balançado suas trombas para lá e para cá. O circo aportou na cidade.

E não é qualquer circo. Orlando Orfei considera, sem nenhuma modéstia, seu circo o maior espetáculo da Terra. Mais ainda que o famoso e modernoso Circo Du Soleil, com seu cenário modernista, sua lona de silicone e seus figurinos futuristas. “Meu circo é clássico; faço um espetáculo clássico”, ressalta ele, do alto de seus 80 anos, 75 deles vividos dentro do picadeiro. Não que novidades como o circo canadense sejam perniciosas para Orfei; mas não passam de uma moda, que em nada tiro o brilho do palhaço pintado à moda antiga e dos lenços que saem da manga do mágico, por mais que Mister M tente destruir a fascinação que a prestidigitação (palavrinha arcaica mas que se antepõe bem a estes tempos de ilusionistas e seus mega-shows transmitidos via satélite para os nove planetas do Sistema Solar) nos proporciona.

A história em si do Circo Orlando Orfei já mereceria duas horas nas rústicas arquibancadas ou, para quem pode – velho sonho e inveja da infância -, no camarote. O circo surgiu em 1825. Três anos antes, um padre, Paolo Orfei, desistiu da batina para amar uma jovem aristocrata italiana, Pascoa Massari, filha de uma poderosa família que nega aos dois amantes o matrimônio. Como num enredo para lá de folhetinesco, os dois amantes fogem para uma tribo de ciganos e, com eles, fundam um circo. Hoje, 176 anos mais tarde, o circo Orlando Orfei pode ser considerado o mais antigo em atividade no mundo.

A saga dos Orfei, entretanto, não termina com a fundação do circo. Anos mais tarde o ex-padre Paolo é assassinado. A viúva, Pascoa, decide se casar com o também viúvo Torres, chefe da tribo cigana. Não bastasse isso, os filhos do casal, Ferdinando Orfei e Mari Torres, posteriormente se casam, inaugurando, assim, a dinastia da qual descende o mítico Orlando Orfei, a quinta geração de artistas circenses. Hoje, os Orfei já somam sete gerações de artistas.

Instintos - Orlando Orfei desdenha para os que apontam como um perigo à sobrevivência do circo seja o cinema, que ele viu em seu auge, ou a televisão, videogames, computadores ou quaisquer das maravilhas tecnológicas que, por um espaço curto de tempo, tire a atenção do picadeiro. “Assistir a um espetáculo pela televisão é como beijar uma linda mulher pelo telefone; no circo, a mulher está ao vivo”, explica ele, apelando para nossos instintos mais básicos. Além disso, para Orfei a criança, esta “entidade” para a qual a idade é o que importa menos, é a entusiasta do circo.

Que, por sua vez, é uma verdadeira doença. “Sofro de duas enfermidades: uma é o circo; a outra é o nomadismo. Não posso parar”, afirma. Para concluir com uma declaração da satisfação de quem chegou aos 80 anos respirando ares diversos pelo mundo inteiro, sempre com os pés sujos de serragem: “Se me oferecessem a presidência dos Estados Unidos, não queria; sou feliz no circo”.

O circo é, na verdade, uma grande empresa, uma indústria do entretenimento que, em sua versão “clássica”, como o Orlando Orfei, sobrevive aos avanços tecnológicos e mantém sua estrutura de estacas fincadas no chão com o suor de homens recrutados nas cidades em que o picadeiro se instala. Ao todo são cem veículos, entre trailers, carros e carretas que transportam os artistas, animais e toda a estrutura física do circo, como arquibancadas e lonas. O pano que recobre o circo é uma enormidade de 2,3 mil metros quadrados, sob a qual cabem aproximadamente 2800 pessoas boquiabertas com as peripécias aéreas dos trapezistas. Somam-se à estrutura cerca de 300 pessoas, entre motoristas e artistas.

Com uma estrutura destas, é espantoso como o circo sobreviva à moderna economia, que privilegia qualquer coisa, menos o material humano. “Quando o real foi desvalorizado em relação ao dólar, as finanças do circo titubearam”, confessa Orfei, acrescentando que paga muitos dos artistas, principalmente os estrangeiros, em dólar. Daí a crise recente.

Ainda assim o circo sobrevive, muitas vezes ameaçado não pelas outras formas de entretenimento, mas por outros circos, que fazem uma concorrência predatória, cobrando preços menores e, claro, apresentando um espetáculo menor. São circos-franquia, que ganham antes por quantidade do que por qualidade.

Ao contrário do que se possa imaginar, o circo ainda fascina muitas pessoas que vêem no nomadismo e no pouco conforto dos trailers e da poeira das estradas um meio de vida. Os artistas, quando não são filhos daqueles que já trabalham no circo, são agenciados ao redor do mundo através de vídeos. “Antigamente era mais difícil. Eu recebia uma carta de apresentação e tinha de ir ver o número que o candidato me propunha. Muitas vezes perdia a viagem”, conta.

Sem ensaio – Os artistas, ao contrário do que se possa imaginar, jamais ensaiam. “O artista de circo ensaia 15 anos para se apresentar durante cinco minutos. Depois que o número está pronto, o espetáculo da noite passada torna-se o próprio ensaio da noite seguinte”, diz.

Orlando Orfei se tornou mais do que o nome de um circo. Tornou-se sinônimo do próprio circo, reconhecido internacionalmente, inclusive por figuras alheias ao mundo da lona. Orfei já apresentou seu mais famoso número, o das águas dançantes, cinco vezes para o Papa João XXIII, que certa vez lhe disse: “Orfei, o que o senhor faz é uma apostolado da paz”. Outro nome importante com quem teve relações Orlando Orfei foi com o diretor italiano Federico Fellini. Sobre o mesmo espetáculo, o das águas que dançam, Fellini, gênio de um tipo de cinema que em muito se assemelha à estética circense, disse: “Orfei, você materializou a música”. O ator Vittorio Gassman (“o homem mais inteligente que eu já conheci”) também foi grande fã de Orlando Orfei e seu circo, tendo feito, inclusive, espetáculos sob a lona de Orfei. Dentre as mulheres, destacam-se como admiradoras de Orfei Sophia Loren e Anita Ekberg (“a mulher mais bonita que vi em toda a minha vida”).

Dentre as proezas do circo, destaca-se ainda uma antológica travessia da Amazônia, feita em balsas, motivo de uma série de documentários do Globo Repórter, em 1984. A guerra também foi episódio importante para o Circo Orlando Orfei. Quando estourou o conflito, em 1939, o circo se apresentou ainda por um tempo, entre o estouro das bombas. Com o acirramento da batalha, no entanto, o circo teve de cessar suas atividades por dois anos. Com um pouco de sangue cigano e um defensor apaixonado da liberdade democrática, Orlando Orfei fugiu da Itália, que vivia sob o jugo de Mussolini.

Ecochatos - No Brasil, o circo tem enfrentado recentemente alguns contratempos, principalmente com ambientalistas que vêem no tratamento dos animais circenses uma crueldade que não vale o espetáculo. Acidentes com leões também trouxeram má publicidade ao circo. Sobre estes problemas “animalescos” Orfei é taxativo: “Os ecologistas vivem de propaganda e não entendem que um animal que nunca viu a selva não sente falta dela. Os animais do circo nasceram numa jaula, que não é uma prisão, mas somente um habitat diferente do da selva. Aqui eles bebem, comem e fazem amor. E são felizes”.

O amor de Orfei pelos animais propicia ao leitor histórias de delicioso lirismo. Pena de um Rubem Braga tornaria o caso do cão Sarna, por exemplo, numa ode à Humanidade. A pretensa objetividade jornalística me impede o sentimento, mas não o relato. Sarna, conta Orfei, apareceu doente no bar do circo. Dono de um belo pastor alemão, o dono do circo mandou que expulsassem o cachorro sarnento (daí seu nome), para que ele não contaminasse os demais animais. Prontamente atendido, Orfei se surpreendeu com o cão à porta do circo no dia seguinte. Reclamou com os empregados e mandou que levassem o cachorro o mais longe possível. De nada adiantou e dia após dia o cachorro estava à porta do circo, fascinado com o espetáculo. Orfei compreendeu o fascínio e admirou a fidelidade canina. Mandou que fosse chamado o melhor veterinário para curar a doença do animal, que prontamente se tornou o mascote do circo. “Sarna morreu atropelado acidentalmente por uma das carretas do circo”, lembra Orfei, emocionado.

É por estas e outras que este homem, nascido em Arriva de Trento, na região do Vêneto, norte da Itália, é mais do que um mero empresário de uma ancestral empresa de entretenimento. Orlando Orfei é um mito.

Publicado no Jornal do Estado em 05/01/2001.