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Ódio (um autoflagelo por escrito)

 

Até eu, que não odeio ninguém, e não odeio mesmo, nestes tempos conturbados me pego odiando. Há alguma coisa no ar, não sei se o chumbo acumulado na atmosfera desde o início da Revolução Industrial ou sutis forças gravitacionais de Júpiter e Saturno ou ainda invisíveis íncubos e súcubos. Há algo de tenso, de carregado, de satânico, de mortal. E, quando dou por mim, assim no meio do dia, sob a água quente do banho, no conforto da minha vida segura e tão estoica quanto possível, estou odiando.

Em minha defesa posso dizer que meu ódio é estéril. E rápido. Uma coisa assim à toa, uma sinapsezinha que quase nem se completa, de tão fraca, coitada. Não escrevo virulentos ataques, não esmurro a porta, não xingo nem saio por aí querendo a eliminação de ninguém. Não construo gulags. Longe de mim! Meu ódio está mais para um mal-estar, um flato espiritual desses que a gente solta envergonhado, mas que simplesmente não dá para segurar.

Desculpe.

Mas é ódio, sim, reconheço morrendo de vergonha. É ódio no sentido de ser o oposto do que entendo por amor. Sou humano, vocês que me perdoem, mas sou, e às vezes o perdão me escapa e baixa em mim um espírito justiceiro que não aceita o que ouço, o que vejo, o que leio, simplesmente porque não é possível que aparentemente todo mundo à minha volta tenha desistido de alcançar uma espécie de santidade, de elevação, de transcendência.

Não é possível, meu amigo, que você tenha se entregado ao enfado e ao cinismo. Não é possível, minha querida, que você tenha se deixado seduzir pelo prazer rápido e fácil e superficial de um like. Não é possível, pô, que você tenha engolido de bom grado (e por vontade própria) essa pílula do antropocentrismo que consola, mas não salva. Não é possível, meu caríssimo, que você realmente prefira passar o que resta da sua vida abduzido por suas próprias certezas.

Meu ódio se dissipa facilmente. Ainda bem. Mas deixa marcas. Cicatrizes. Ódio é de fogo – qualquer esotérico de esquina sabe disso. Me levanto esbaforido, a carne aqui e ali fumegando, e em torno tudo está de novo tranquilo: há futuros a almejar, mulher para beijar, filho para sorrir e até aquele pratão de feijão, arroz e carne moída para devorar. Para o apartamento vazio digo bem baixinho (não quero acordar os vizinhos) que nunca mais me deixarei levar pelo ódio, este ou aquele ou qualquer outro. Nunca.

Mas daí me olho no espelho e o ódio volta: ódio do homem que não se permite ser falho, não se permite odiar um ódio que, veja bem, é só uma cosquinha inofensiva, um bufar mais demorado, um revirar de olhos. E um profundo medo de morar para sempre no gulag do coração de alguém.

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