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O umbigo

Era uma vez um escritor que nunca tinha começado uma história com “era uma vez” e achou que estava mais do que na hora de usar esse delicioso chavão. Num dia qualquer, desimportante demais para ter sido anotado por qualquer um, o escritor, batizado ainda agorinha há pouco de Aroldo Amétodo, saiu do claustro escuro de seu apartamento a fim de expor seu umbigo na praça para quem quisesse (ousasse?) admirá-lo.

Não foi uma decisão tomada às pressas. Ah, de jeito nenhum! Tampouco foi um gesto autocondescendente, autocongratulatório ou (como ouvi alguém cochichar) de autopiedade. Não. Amétodo sofreu muito antes de entrar naquele táxi rumo à praça mais movimentada da cidade. Para você falar é fácil, mas eu que conheci Amétodo lhe digo: ele passou anos recluso, sempre coberto, sempre encolhido, sempre certo de que ninguém, nem por um segundo, tinha qualquer interesse em seu umbigo. Se eu dissesse que houve um tempo em que ele cogitou remover cirurgicamente seu orifício umbilical você acreditaria? Pois.

Até que um dia, há algum tempo já, Amétodo acordou para a casa sozinha e silenciosa e, naquela coisa de passar meia hora se espreguiçando antes de se fingir de vivo, ele foi descendo a mão assim pelo peito e pela barriga (calma, leitora pudica!) até se deparar com o próprio umbigo. E ali mergulhar o dedo curioso. Porque o escritor, até aquele momento, nunca tinha explorado realmente os confins do próprio umbigo (e quem é quê?!). Ao notar algo de diferente no orifício, Amétodo, um tanto quanto enojado, temendo encontrar ali fósseis das noites todas em que estava frio demais para tomar banho, pegou um espelho de mão no criado-mudo (por que o escritor tinha um espelho de mão no criado-mudo é uma longa história).

E em seu umbigo Aroldo Amétodo descobriu um mundo.

Um mundo mesmo. Uma civilização nascida do acaso, da mistura improvável de pó e água do banho, tendo por catalisador um choque que ele levou ao tentar trocar uma lâmpada outro dia. Uma civilização avançada, com carros, arranha-céus (no caso, arranha-a-pele-da-barriga), religiões e até livros eróticos para moças que se enrubesciam facilmente. E uma civilização que, pasmem!, tinha descoberto, depois de muitas guerras, algumas delas sanguinolentas (ah, então aquilo não foi uma picada de mosquito), e depois de muito Imagine no “repeat”, o segredo da paz, da harmonia, da felicidade e do uso correto da crase.

Fascinado com o próprio umbigo, Amétodo nos dias seguintes mal conseguiu sair de casa, sobrevivendo à base de restos na geladeira e água não filtrada. Munido daquele espelho que fazia as vezes de um telescópio improvável, ele vasculhava os confins do próprio umbigo em busca de explicações para o surgimento e evolução das criaturinhas. Com uma disciplina que não lhe era característica, o escritor passou dias que pareceram anos estudando minuciosamente o cotidiano dos umbigolóides, até compreender o sentido da vida deles e, por conseguinte, da nossa. No dia em que decidiu sair para a praça, seu umbigo também continha multitudes.

Ao chegar à praça, porém, Amétodo percebeu o tamanho da sua loucura. A despeito de toda reserva que pudesse ter, de sua devoção à discrição e da timidez que sempre o impedira de se expor realmente, tenho de reconhecer que ele havia se transformado numa caricatura. Digna tão-somente de riso, pena e escárnio. Sai daí, Aroldo. Isso não é para você, não, meu caro.

Mas Amétodo não saiu do meio da praça. As pessoas que passavam por ele o olhavam com desconfiança. Mais de um tateou os bolsos para se certificar de que a carteira e o celular ainda estavam no lugar certo. Era hora de agir, pensou o escritor, de fazer alguma coisa a fim de atrair a atenção dos transeuntes (era uma vez também um escritor que nunca tinha usado transeunte antes – e ele não gostou muito de usar dessa vez). Era hora de expor a Verdade do Umbigo.

Vestindo uma calça jeans apertada demais, de um desbotado que parecia sujo, e uma regata branca que lhe cobria o peito, mas não a barriga protuberante e peluda, o “sistema solar do umbigo”, por assim dizer, Amétodo se deu conta de que deveria ter investido mais naquele espetáculo. Deveria ter ao menos escrito um cartaz ou usado roupas menos repugnantes. Deveria ter passado perfume e penteado os cabelos. Ah, Aroldo, você só me decepciona mesmo.

Uma mulher, confundindo-o com uma dessas estátuas vivas que infestam as praças das grandes cidades, se aproximou e jogou uma nota de dois reais aos pés de Amétodo. Que não se abaixou para pegar a esmola. Ele esperou a moça se afastar e, sentindo-se assim um mestre de cerimônias num parque de diversões do tempo em que as pessoas se divertiam, daqueles com fraque colorido e cartola brilhante, começou a gritar:

— Respeitá…!

Foi quando viu surgir em seu horizonte próximo a figura inequívoca de Leôncio Crato, amigo de longa data e, por coincidência, crítico implacável de tudo o que Amétodo um dia ousou escrever. Isso antes de nosso herói mergulhar no ostracismo do qual tentava sair agora exibindo o umbigo e os umbigolóides ao mundo em praça pública. Crato se aproximou, até porque jamais perderia a oportunidade de demonstrar que se lembrava muito bem do Aroldo que tanto lutara para ser esquecido.

— Aroldo? Meu Deus, Aroldo! É você mesmo? O que houve com você, cara? Abaixa essa camiseta. Você vai pegar uma gripe!

Mas Crato não estava realmente preocupado com Aroldo. Ele tinha um compromisso importantíssimo ali perto, um debate ou painel ou palestra do qual era a estrela maior – enquanto Amétodo era apenas um cometazinho inóspito naquela galáxia violenta e ainda e para sempre incompreensível.

— Agradeço a preocupação, Crato, mas não posso. Não posso porque não quero. Não vou. Olha aqui, Crato. Chegue mais perto. Olha aqui meu umbigo. Nele encontrei o mundo – e quero compartilhá-lo com você.

Crato pensou no convite e no compromisso, no compromisso e no convite, na figura patética à sua frente, digna de mais desprezo, mais silêncio, mais escárnio ou, quem sabe, de um daqueles artigos generosíssimos, capazes de criar gênios de um dia para o outro – aparentemente a especialidade de Crato. E achou melhor não.

— Não posso — disse Crato, dando um passo para trás. — E não posso porque não quero.

O que é uma pena para o desenrolar da nossa história e para a autoestima de Amétodo naquele momento. Porque, se tivesse ousado enfrentar os vapores azedos que o corpo do escritor exalava, se tivesse dado só uma espiadinha de leve no umbigo de Aroldo, Crato teria visto naquele orifício algo além da montanha russa de peripécias momentosas e superficiais que via nos umbigos de todos. Ele teria visto a gênese, a evolução, o ocaso e o milagre de si e dos seus. E teria descoberto finalmente que, por mais que fedesse e tivesse a aparência repugnante de um caminhoneiro xucro, por mais que fosse uma paisagem ridícula naquela praça expondo ao mundo o umbigo sujo, o outro sempre era digno de nota, de atenção e de interesse.

Alheio ao umbigo do escritor, Crato continuou atravessando a praça rumo ao seu compromisso importantíssimo. Aroldo, por sua vez, desistiu de ser o mestre de cerimônias de si mesmo e voltou para casa, onde lavou cuidadosamente o umbigo com água sanitária, só para garantir. Os umbigolóides foram eliminados do Universo.

E, no dia seguinte, o sol apareceu no horizonte – até porque não tinha alternativa.

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