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O suicídio do menino Ney ou: a queda

Todo mundo se lembra de onde estava quando anunciaram a morte do menino Ney. Minha prima Clara, por exemplo, estava no velório de um parente distante e conta que a dor na capelinha triplicou quando alguém leu a notícia na Internet. Meu pai estava no trânsito e teve de parar no meio da avenida movimentada para assimilar o golpe. Dizem que, nas cidades menores, hordas de meninos saíram às ruas, as bolas de capotão sob os braços, chorando a ponto de abafar o som dos incansáveis carrilhões.

De minha parte a lembrança seria para sempre outra. Jamais me esqueci nem me esquecerei do dia em que concebi o texto que, dizem, acusam, atacam, provocou o suicídio do menino Ney. Era um domingo e Dora roncava baixinho ao meu lado. A luz do sol muito seco de inverno vazava pela cortina e não me deixava pegar no sono novamente. Puxei Dora para perto, a envolvi num abraço que misturava luxúria e preguiça, fechei os olhos e comecei a escrever mentalmente.

As primeiras palavras do texto desgraçado, aquelas mesmas que o menino Ney tomaria o cuidado de reproduzir em seu bilhete de suicídio, surgiram como uma reflexão antiga sobre a natureza humana. Ou melhor, sobre a natureza destes homens que de repente deixam de ser homens para se tornarem um norte na vida vazia de milhões de pobres-diabos que anseiam por mais dinheiro, mais mulheres, mais Ferraris na garagem e mais funk e pagode ao vivo em intermináveis festas ao redor de uma piscina.

Incapaz de prever a consequência do que estava sendo gestado em meu cérebro, ri ao sussurrar no ouvido de Dora as palavras que me tornariam um pária. Ainda hoje me dói reproduzi-las – algo que evito, a não ser que me paguem muito bem, obrigado. Ao ouvir aquilo, Dora, que estava semidormindo sobre meu peito, perguntou com os olhos ainda grudados de remela: “O quê?!” E eu, envaidecido que estava por ter concebido o versinho macabro, repeti as palavras como se elas expressassem toda a perspicácia da Humanidade. Dora riu. Não porque visse graça, e sim porque me amava, não queria me desagradar e estava com sono.

Não foi assim com o coração aberto que o menino Ney – e, posteriormente, seus fãs – leu aquelas palavras. Muito tempo depois, me disseram que ele interpretou “mau caráter” como se eu realmente estivesse falando do caráter dele. Que leu “idiota” como xingamento. Que leu “um bosta de um menino mimado que acha que a vida lhe deve reverência” como um ataque grosseiro à sua atitude de menino mimado que acha que a vida lhe deve reverência. E que, para o meu azar, leu “O menino Ney, se tivesse ao menos um farrapo de alma, estaria agora no parapeito de uma sacada contemplando a possibilidade de simular A Maior de Todas as Contusões, para o próprio bem e o bem da Humanidade em geral” como um conselho.

Depois que o menino Ney caiu da sacada de sua cobertura parisiense, da descoberta do bilhete de suicídio com minhas palavras ali reproduzidas, do banho de ovos na rua, das pichações no muro de casa, dos telefonemas anônimos, dos coquetéis molotov, da prisão, julgamento, absolvição, exílio e ostracismo, acredito que posso dizer que tive tempo de sobra para refletir sobre o que me levou a escrever aquele fatídico texto. Dora, o corpo liso de Dora aconchegado ao meu, o pescoço muito fino de Dora pedindo para ser beijado, Dora com aqueles olhinhos pequenos que brilhavam um brilho muito especial, ah, Dora tem um bocado de culpa nisso. Afinal, eu estava disposto a escrever qualquer coisa para tirar um sorriso dela.

A última vez que vi Dora foi na saída do tribunal, pouco antes de me banhar no alívio da absolvição. Vestindo uma camiseta autografada da seleção brasileira, ela tentou se aproximar de mim em meio à turba ensandecida de repórteres. “Pirocão! Pirocão!”, gritava ela, me chamando pelo apelido carinhoso que só usávamos em nossos momentos de maior intimidade, na esperança de se fazer ouvida. Nas mãos, Dora trazia o bilhete que no dia seguinte os jornais reproduziriam ao lado de longas análises de discurso e que dizia simplesmente “Se fode aí!”.

Depois de tanto tempo, é impossível não pensar em como teria sido minha vida se não tivesse escrito aquilo. Se tivesse trocado “idiota” por “néscio”, logo ali no segundo parágrafo. Se tivesse explicitado a ironia e o sarcasmo. Se tivesse legado o texto ao purgatório da minha gaveta. Se tivesse usado uma citação erudita para redimir ou justificar minha agressividade. Ou se simplesmente tivesse lido uma reportagem publicada no dia anterior sobre a depressão que acometia o menino Ney.

Ontem Dora me ligou. Perguntou como eu estava, se andava me alimentando direito, se tinha voltado a beber refrigerante e se ainda a amava. Ficamos horas ao telefone, rindo de piadas que eu julgava terem perdido a graça há muito tempo, evocando as melhores memórias da nossa história e usando inconfessáveis vocativos cafonas. Em nenhum momento falamos do menino Ney, que ainda hoje é exaltado como um dos maiores artilheiros do futebol mundial e cuja estátua equestre sou obrigado a encarar todos os dias a caminho da padaria.

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