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O pronome relativo ou: bola na trave não altera o placar

Na segunda ou terça-feira, li uma matéria dizendo que apenas oito porcento da população brasileira é capaz de ler e compreender um texto com fluência plena. Na quarta, comecei a escrever o texto sobre o ex-professor que me disse que meu estilo era dogmático demais. E, na sexta, tive um pequeno entrevero com alguém por causa de um pronome relativo.

Não foi coincidência, pois, que desde segunda-feira eu andasse meio irritado – com o mundo e comigo mesmo. Com o mundo porque ele é incapaz de compreender um texto em sua totalidade (quanto mais na sua beleza), e isso me incomoda. Comigo porque isso me incomoda. E não deveria incomodar.

Porque há algum tempo já eu fiz um pacto comigo mesmo. Foi um ritual divertido, embora um tanto quanto sujo. Fui à cozinha, peguei a faca mais pontuda que encontrei e fiz um furinho no dedo indicador da mão esquerda e no dedo indicador da mão direita. E esfreguei um no outro, o sangue pingando gordo no chão. Tudo isso para que eu me comprometesse comigo mesmo a jamais ceder à vaidade. Jamais.

Desde então, eu estava andando muito na linha. Escrevia umas bobagens e era injustamente acusado de algo ultrajante por alguém que não entendeu essa ou aquela conjunção adversativa e tudo bem. Até escrevi um texto trocando “círio” por “sírio”, provocando ainda mais o leitor majoritário, aquele que se orgulha do pequeno conhecimento, e reclamei mais do desprezo do que do dedo apontado em minha direção.

Mas aí aconteceu isso tudo. Na segunda, li a matéria sobre o analfabetismo funcional e meus senis pelos nas costas já se eriçaram todos. Não que a notícia fosse novidade para mim ou para qualquer pessoa que escreve nesse Brasilzão de Meu Deus. Sobretudo para quem escreve bem, está mais do que claro que o público leitor, além de raro, é incapaz de apreciar nossos dribles literários. Se a notícia me irritou, pois, é porque ela teimava em esfregar na minha cara uma realidade que eu… teimava em não ver.

Uma coisa leva a outra nos labirintos do inconsciente e lá fui eu escrever sobre meu ex-professor Cristóvão Tezza. Usei um bom milhar de palavras para contar a história de como fui acertadamente chamado de dogmático quando, na verdade, eu queria falar de outra coisa boa que o professor fez por mim. Mas, para tanto, peço licença para abrir um novo parágrafo.

Cheio das literatices na cabeça, lembro que certa vez escrevi um texto supostamente jornalístico cheio das elipses que aprendi a admirar em Dalton Trevisan. Assim, a frase “Se o político tivesse feito isso ou aquilo” virou “Tivesse feito isso ou aquilo, o político…” Meu exercício (ou seria prova?) voltou cheio de correções do gênero. E lá fui eu discutir com o professor que, daquele seu jeito calmo e sorridente, me deu outra lição que, percebo agora, eu deveria ter aprendido: eu não estava cometendo um erro, mas estava sendo… inconveniente.

Inconveniente porque em jornalismo não se escreve assim. Mas não só por isso. Inconveniente porque minha firula, meu drible, de alguma forma prejudicava o espetáculo para o leitor que evidentemente não apreciaria meu toque de letra (trocadilho!). Em alguns momentos, o mais conveniente e, portanto, social e culturalmente aceitável, é conter essa vaidadezinha idiota de mostrar o quanto você conhece de alguma coisa.

O que nos traz ao último elemento nessa sequência: o pequeno entrevero por conta de um pronome relativo. Resumindo, num texto profissional, comecei uma frase com um pronome relativo. Eu sei que, de acordo com os manuais, não posso fazer isso. Mas também sei que, de acordo com as leis que desgovernam a criatividade, eu posso. Que, na verdade, sempre dá para brincar. Com. A. Pontuação. E coisas do gênero.

Acontece que nem todo mundo é capaz de perceber a brincadeira. Só oito porcento, de acordo com a pesquisa que li na segunda-feira. E que, para os que são incapazes de perceber a brincadeira, tudo o que é diferente soa como erro. E erro é coisa de gente burra. E, por consequência, eu sou burro, mesmo não sendo.

Aí a vaidade, que não passa de medo de se ver a qualquer instante desmascarado, de ver reveladas todas as suas falhas, das mais evidentes às mais sutis, aí a vaidade apareceu, destruindo o pacto que eu tinha feito comigo mesmo numa sexta-feira treze de lua cheia. Não sou burro, quis gritar, explicar, convencer meu interlocutor que, no entanto, já estava convencido da minha estupidez.

Respirei fundo. Desisti. Fingi tranquilidade. Mas naquela noite não consegui dormir direito, pensando naquele e em tantos pronomes relativos que escrevi por aí sem respeitar o manual. Em todas as frases nominais. Em todas as elipses. Em todas as bolas que passei por baixo das pernas do zagueiro, na esperança de ser exaltado por uma torcida que, sei bem, mas insisto em esquecer, é educada para apreciar o toquinho de lado, aquela bola bem simples levantada no meio da área, na esperança de um gol chorado.

A raiva, que era mais de mim do que do mundo, passou. Acho. Mas, para ter certeza de que não acontecerá novamente, refiz o pacto, dessa vez com um corte profundo nas palmas das mãos, só para dar agonia no leitor. A vaidade, porém, deu lugar ao medo de jamais entrar em campo ou de, em entrando, ser vaiado pela matada no peito, o lençol no adversário e, mais importante, o chute certeiro no ângulo.

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