O indivíduo é mais
por Paulo Polzonoff Jr.
Hoje é feriado em algumas cidades do Brasil. Dia da Consciência Negra. Dizendo assim, parece ser um dia que o Estado nos reservou para que reflitamos: os negros porque são negros e os brancos porque os não-brancos são negros. É algo imoral, baixos e… racista.
Ser racista não é apenas pressupor que uma pessoa com certos traços físicos seja melhor, mais digna ou admirável do que outra com traços físicos diferentes. Não é apenas branco x negros e vice-versa. Ser racista é dar importância à raça. Qualquer uma. O homem que se julga especial por ser amarelo é racista, porque se identifica com sua raça.
Para mim, pai de um filho negro, o Dia da Consciência Negra serve para lembrar de ensiná-lo, tão logo seja possível, que ele é muito mais do que sua bela cor de pele, seus lindos olhos, nariz, boca e cabelo delicioso. Ele é um indivíduo complexo demais – e, assim, divino demais para ser reduzido (ou se reduzir) a uma raça.
O mesmo, aliás, serve para quaisquer reduções que nos impuseram nas últimas décadas. Tenho pena do homossexual que se identifica para o mundo apenas como homossexual, defendendo apenas causas homossexuais. Do mesmo jeito, tenho pena de alguns amigos jornalistas que se identificam para o mundo como jornalistas. E tenho pena porque sei: o homossexual ou jornalista é mais do que o grupo sexual e profissional a que pertence.
Pertencer a um grupo, seja ele racial, sexual, religioso ou profissional, pode ser um alívio. A gente sente que não está sozinho no mundo. Eu sei. Mas, em essência, somos indivíduos com zilhões de variáveis. Grupos tendem a aniquilar estas variáveis. Até porque a complexidade do ser humano nos assusta. Parte-se, pois, do pressuposto de que o grupo é mais. Não! O indivíduo é mais. Mais, mais, mais. Tão mais que nos amedronta. Tão mais que queremos aniquilá-lo, reduzindo-o a grupos.
Dia da Consciência Negra. Prefiro acreditar que haverá um dia em que as pessoas celebrarão o Dia da Consciência Individual. Quando, talvez, possamos aproveitar o feriado na praia pensando que somos muito mais do que brancos ou negros ou homo ou héteros ou jornalistas ou advogados. Somos únicos. Indivíduos.