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O Impronunciável

— Então é assim? — perguntei para o nada. Ao meu redor, o branco fofo das nuvens infantis. Uns prédios dourados, possivelmente de ouro. O som de milhões de harpas dedilhadas por anjos nus, mas sem sexo. Aquele lá ao fundo é Borges soterrado por uma biblioteca infinita?

Eu havia morrido e aquele era o Céu. Quem diria: as crianças é que estavam com a razão! Nuvens brancas, prédios de ouro, harpas. Só faltava me encontrar com…

— Deus?! — exclamei-perguntei. Era o Próprio. Um Senhor de barbas brancas e manto igualmente branco. Olhos profundamente azuis e mãos estranhamente calejadas que seguravam um cajado. Atrás de si, Deus deixava um rastro de galáxias.

— Meu Filho! — disse Ele. — Não esperava encontrá-lo tão cedo por aqui. Por que fizeste uma coisa destas?!

Era uma pergunta retórica, claro. Em sua onisciência, Deus sabia muito bem que eu tinha me matado. Um suicídio meio sem querer, mas ainda assim. Eu estava andando assim por um vale das sombras da morte que se abriu no meio da sala, tropecei em dois ou três comprimidos engolidos com a ajuda de um pouco de vodca e terminei com meu corpo balançando numa corda presa ao cano do chuveiro.

— Eu não queria… — comecei. E era verdade. Reconheço que o discurso suicida esteve bastante presente nos meus últimos anos de vida. Eu estava até monotemático. Mas, no fundo que não era nem tão fundo assim, o que eu queria era apenas viver uma vida tranquila, cujo sentido eu encontraria num silêncio sereno. Mas havia uma cartela de comprimidos no meio do caminho. E uma corda de pular na gaveta do armário.

— Eu sei, meu Filho. E é por isso que estou aqui diante de ti — disse Ele, com aquele tom de juiz que eu tanto temia em vida.

No espaço entre as frases, imaginei o inferno e o inferno que me aguardava era também o inferno das crianças: labaredas eternas a cauterizar sem anestesia todos os meus pecados. Sem pressa. Mas, antes que eu pedisse clemência, Deus se manifestou.

— Não se preocupe, Filho. Você ainda está longe daquele lugar — Deus bateu três vezes num toco de madeira que apareceu e desapareceu à frente Dele. — Vou lhe dar uma segunda oportunidade, Filho. Olhe ali — instruiu ele, apontando para um buraco nas nuvens.

Meu corpo jazia sobre a maca. O lençol sobre o rosto denunciava minha condição de cadáver. Só um milagre me faria ressuscitar e era justamente isso o que Deus me propunha. Mas quem disse que eu queria na morte o milagre que tanto pedi em vida? Cruzei os braços, franzi a testa e fiz bico de criança.

— Mas, Senhor… Com todo o respeito e vênias e o latinório necessário nessa hora, não sei se quero voltar para lá. Estou cansado. Eu não queria me matar, sabe? Até porque tinha medo… disso. Mas, já que me matei, talvez fosse o caso de tocar uma harpinha ou fazer companhia ali ao velho Borges…

— Não! — trovejou Ele, metamorfoseado em Júpiter. E vi que a Tempestade Eterna era, na verdade, uma garoa de alívio num dia de verão. — Como todas as pessoas, tu tens uma missão importante a cumprir. E vai!

— Mas, Senhor… Peço novamente desculpas pela insolência, mas milhares de pessoas…

— Milhões, Filho. Milhões.

— Que seja. Milhões de pessoas se matam todos os anos. E, até onde sei, nenhuma delas têm uma segunda chance. Por que eu…?

— Sua lógica humana não faz sentido aqui, Filho. Só Eu faço sentido aqui e estou dizendo que voltarás ao mundo dos vivos daqui a… vinte segundos.

— Mas, Senhor… Com todo o respeito do Universo, minha vida era uma merda, vai? Se eu voltar, é bem capaz de me matar novamente.

Deus riu como se eu fosse um anão escorregando numa casca de banana.

— Não vai, não, meu Filho. Não se souberes exatamente o que Eu quero de ti.

— Tipo… o sentido da vida?

— Pode chamar como quiser. Só uns poucos privilegiados sabem o sentido da vida. E você será um deles. — Deus olhou para trás e estalou os dedos. De repente, um homem de feições serenas e ligeiramente enfadadas apareceu ao lado Dele. — Você certamente reconhece meu amigo…

— Sim, sim. Eu o conheço. — Era um escritor cuja obra eu lera há alguns anos. Lembro-me de fechar o livro e me sentir tocado por uma espécie de Vento Divino e de, naquela noite, ter ido dormir pensando que havia chegado perto, perigosamente perto, do tal sentido da vida. —Mas ajudaria uma coisa mais definida, sabe? Faça isso e faça aquilo. Fale com aquela pessoa, mande um e-mail. Eu trabalho bem com metas e prazos. É isso. Me dê uma meta a cumprir. E um prazo. E condições de cumpri-la, claro. O Senhor não se arrependerá.

— Nunca me arrependo, Filho. — E eu pensei imediatamente em Hitler. Deus, que de bobo não tem nada, leu meu pensamento e foi logo emendando: —Meu único arrependimento em bilhões de anos.

Rimos e não me surpreendi por Deus saber rir de si mesmo.

— O que você, Filho, chama de “metas”, aqui no Céu chamamos de “O Impronunciável”. É aquilo que só eu digo e que uns poucos têm o dom de ouvir.

— Mas, Senhor… O Senhor me livre da heresia! Mas se a coisa é impronunciável, como é que o Senhor a pronuncia? E como alguém ouve o que é impronunciável?

Deus ignorou minha filosofia de botequim, se abaixou e, na mais linda das vozes e com um hálito de lavanda e capim-limão, Ele sussurrou o Impronunciável no meu ouvido.

— E então? —perguntou Deus. Não que minha opinião fosse fazer alguma diferença, porque se Deus decidiu está decidido, isso qualquer vigário do interior sabe. Mas admirei-O ainda mais pela cortesia.

— Uau. E, sim, isso eu faria com prazer.

— “Faria” não, Filho. Você fará! — disse Deus, daquele jeitão todo magnânimo.

— Só tem um probleminha… — eu disse.

— Qual? — perguntou Deus (e vale lembrar aqui que a pergunta é sempre retórica, por causa da onisciência, onipotência, onipresença, coisa e tal).

— É que eu me matei, lembra? — E do meu corpo lá embaixo já subia um cheirinho azedo.

— Ah, mas isso é fácil de resolver, Filho. Voltaremos no tempo. Ou melhor, você voltará no tempo, já que, para Mim, o tempo é um conceito inexistente. Em vez de se matar, você acordará de um sono muito profundo causado pelos remédios. E se lembrará remotamente deste episódio como um sonho.

— O Senhor não acha meio clichê isso?

— Seria clichê se você não tivesse também se enforcado, Filho. Então é melhor chamarmos de milagre mesmo.

— Se o Senhor prefere. Mas, novamente, tem um probleminha nessa coisa toda. E, antes que o Senhor pergunte “qual”, mesmo sabendo a resposta, eu mesmo esclareço: o Senhor sabe muito bem que não acredito nos meus sonhos.

— Claro que sei. E continuará não acreditando. Mas, neste caso… — Soaram tambores. Ou teria sido uma pilha everéstica de livros que desabou sobre um felicíssimo Borges? — Neste caso, a dúvida bastará.

Olhei ao meu redor. Deus falava como se discursasse para uma multidão invisível. Ficamos ali em silêncio por alguns segundos, como se eu tivesse mesmo poder de decisão. Não tinha. Tudo estava definido por Ele, desde sempre.

— Agora vá! — disse Deus. — E transforme o Impronunciável em realidade.

Abri os olhos, confuso como se saísse de um sono artificial. Tirei o lençol do rosto, levantei um pouco a cabeça, olhei em volta e me faltaram pontos de exclamação para expressar meu espanto. Eu estava na morgue de um hospital. Logo eu, que morro de medo de fantasma! Me levantei com a agilidade temerosa de uma criança que riscou a parede da sala e sabe que será punida por isso. E saí pelo corredor silencioso, não sem antes tomar o cuidado de enrolar minha brancura de ex-defunto no lençol que cobria a vergonha do meu quase-fim.

E fui.

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