O chato

Eu sou um chato. Por quaisquer medidas que se escolha, Fahrenreit, Kelvin e sobretudo Watts. Na opinião de qualquer pessoa e certamente de alguns felinos mais arredios. Até para os fãs de U2 ou Radiohead ou, meu Deus!, Ivan Lins eu sou um chato. Só de ver o primeiro pê do meu nome, sem falar no segundo e no às vezes esquecido “Jr.”, do outro lado há alguém dizendo ou, pior, lembrando: que chato! E de que serve este parágrafo inicial senão como prova inegável: chato, chato, chato!

Se às seis da tarde alguém comete a besteira de perguntar como foi meu dia, respondo que foi tudo bem – e por isso sou chato. Se digo que foi tudo mal e explico, ressaltando a diferença entre mau e mal, sou ainda mais. Um chato, ah, um chato de galocha do tipo que não sabe o que é galocha e vai pesquisar e volta com alguma curiosidade desinteressante: a galocha foi usada e popularizada por Arthur Wellesley, Duque de Wellington. O produto, uma novidade, foi adotada como vestimenta de caça pela aristocracia britânica do século XIX, etc.

Meus Deus! Como sou chato. Um chato que morre de receio de ser chato e que, de tão chato, tem coragem de explicitar isso para o amigo que, entre bocejos, responde: então não seja.

Pior tipo de chato, aliás, é aquele que acredita ter algo a dizer. E diz. E faz piada. E trocadilho. E usa aquela metáfora esperta que só os chatos reconhecem e só os mais chatos ainda realmente consideram esperta. Sou o chato que ri da piada indevida e o chato que reproduz a piada, na esperança de encontrar no outro alguém que bata no peito (figurativamente, isto é) para se dizer contra essa coisa chata de politicamente correto.

E um chato que no banho matinal, antes mesmo do primeiro gole de café e de escovar os dentes, ri sozinho da própria piada e se pergunta para o vazio tomado pelo vapor: como foi que ninguém pensou nisso antes?! (Alguém sempre pensou nisso antes, eu sei).

Sou um chato que, aparentemente, não gosta de nada e que ao mesmo tempo se esforça para encontrar algo de genial (um chato que usa a palavra “genial” a contragosto) em tudo de que gosta. Um chato que está em dúvida quanto a essa regência, mas que vai arriscar mesmo assim, não sem antes se perguntar mil vezes se “o que gosta” não soaria melhor.

Sou um chato que sempre tem uma observação a fazer, um “mas” na ponta da língua. Alguém que acredita, veja só, que o diálogo, mesmo o virtual, só acrescenta. O chato que compartilha trechos de livros no Goodreads na esperança de encontrar interlocutor. Que convida para um café na esperança de encontrar um Amigo. (E que faz distinção entre amigo e Amigo). Que tenta ser o mais educado possível nas suas interações pessoais na esperança de que lhe reconheçam alguma nobreza cotidiana. Sou o chato que acredita que nossas conversas, essas mesmas interrompidas pelo Grande Silêncio que se segue sempre que você me reconhece como chato, serão de alguma forma evocadas quando morrermos.

Sou o chato que não consegue decidir o que jaz no próprio túmulo. Afinal, o que jaz aqui senão um chato?

Sou o chato que ama demais, de perto, intensamente. E que assim espera ser amado de volta. Chato que acha que nunca é demais sorrir, mesmo com os dentes amarelados, que todas as palavras são necessárias e que a vida, absurdo dos absurdos, é feita de cotidianos. Sou o chato que vê valor, nem que seja irônico, em platitudes como essa.

Sou chato que lê poesia. E que acha que você deveria ler também. Por quê? Por isso e por aquilo. E, depois, me diga o que achou.

Sou o chato que nunca percebe que você tem mais o que fazer, que está ocupado demais preenchendo o formulário do Imposto de Renda, que não tem tempo agora, mais tarde te ligo, não, não, ainda não tive tempo de ler o que você escreveu.

Sou o chato que faz a mesma piada de sempre com a caixa da loja de bebidas (“Vocês trocam produto com defeito? Se eu beber e não ficar bêbado o bastante posso vir aqui trocar?”) só para vê-la sorrir, na esperança tola (e chata) de tornar aqueles segundos um pouco melhores do que os resmungos curitibanos que a coitada tem de ouvir. Que canta Legião Urbana no meio da farmácia, que começa a dançar ao ouvir Steve Wonder. O chato que para o filme no meio a fim de pesquisar na Wikipedia a bibliografia de Ismail Kadaré e que meia hora mais tarde ainda está falando disso.

Sou o chato tão chato que as pessoas me usam como referência geográfica. “Onde fica o banheiro?” “Tá vendo aquele careca atrás do anão e ao lado do careca? Tem um corredor ali que leva ao banheiro”.

Sou o chato que está achando que você riu disso. Uma risadinha contida. De leve.

Sou o chato que escreveu este texto na esperança – e a esperança do chato é sempre vã – de que alguém apareça para previsível e melancolicamente dizer: “não, você não é chato”. Sou o chato que, veja´só, acredita que alguém realmente chegou até aqui.

Pior de tudo: sou um chato com um espelho cruel que diariamente me grita: você é chato. E que, diante de minha reação, emenda, naquele tom filosófico que só os espelhos sabem evocar: o pior chato, meu amigo, é aquele que não sabe ser diferente.

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