Neste exato momento

Neste exato momento alguém começou um texto. E neste exato momento outro alguém começou a ler um texto escrito agora ou há muito. O texto começa dizendo que neste exato momento alguém está nascendo e outro alguém está morrendo… morreu. Neste exato momento uma célula se dividiu. E outra se dividiu errado. E mais uma. E mais. Neste exato momento alguém recebeu um diagnóstico. E respirou aliviado. Ou se viu pela primeira vez diante da Fatídica.

Neste exato momento alguém está fazendo sexo. Com outro alguém que está fazendo amor. Neste exato momento uma criança está sendo gerada. Indesejada? Talvez. Amada porque… por que não? Neste exato momento alguém está tergiversando. E pensando no casal que neste exato momento faz sexo/amor. E neste exato momento alguém está se perdendo, fechando os olhos, tentando recuperar o fio da meada.

Neste exato momento alguém freou. Tarde mais. Porque neste exato momento (na verdade, um pouco antes, mas vamos manter assim pelo bem do texto, sim?) alguém furou o sinal vermelho e atingiu o outro carro – aquele que freava, lembra? – em cheio. Neste exato momento alguém levou a mão à testa, sentiu o corte e rezou apressadamente um Pai Nosso. Neste exato momento alguém percebeu que está vivo e que os momentos, exatos ou não, são finitos.

Neste exato momento alguém está aprendendo a Fórmula de Báscara (Bhaskara uma ova!) e se perguntando por que tem de aprender a maldita Fórmula de Báscara. Neste exato momento alguém está usando a Fórmula de Báscara para algo que escapa a nós, pobres mortais. Neste exato momento alguém está esquecendo a Fórmula de Báscara e, na verdade, tudo o mais, até não restar lembrança capaz de fazê-lo puxar o ar ou mandar o coração continuar batendo. Neste exato momento o que mesmo?

Neste momento alguém está se matando. E outro alguém está sendo matado. Neste exato momento há estupros, sequestros, roubos. Neste exato momento alguém está gritando “perdeu! perdeu!” para um otário que falava ao celular distraidamente. Neste exato momento alguém está sendo preso. E neste exato momento alguém está sendo solto, para ser preso num momento posterior, mas não muito. Neste exato momento alguém escreve uma tese de sociologia sobre violência, população carcerária, taxa de reincidência, essa coisa toda. Neste exato momento alguém deixa para amanhã.

Neste exato momento alguém não entende a frase acima, relê, se pergunta o que foi deixado para amanhã. E segue adiante, balançando a cabeça, achando que foi feito de palhaço (mas não). Neste exato momento alguém leva o garfo à boca, tira os olhos do texto para consultar o relógio, pensa que está na hora de fazer alguma coisa – qualquer coisa que não ler este texto. Neste exato momento a garfada chega ao estômago, mandando sinais complexos e confusos e inegavelmente prazerosos ao cérebro. Neste exato momento alguém olha para o prato e pensa que precisa comer melhor, entrar para a academia, talvez fazer ioga e meditar. Neste. Exato. Momento.

Neste exato momento alguém buscar dar um sentido maior à sua vida escrevendo esses textos que neste exato momento alguém está lendo. E neste exato momento alguém se dá conta de que tem trabalho a fazer, trabalho remunerado, digo, então é melhor parar por aqui. Porque não há sentido maior na vida do que o de observar atentamente cada momento, todos os momentos, neste exato momento.

Neste exato momento alguém põe um ponto-final no texto.

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