Nestas estrelas, nada é por acaso

The_Fault_in_Our_Stars

Para @lisandro e Aline

Li The Fault In Our Stars (A Culpa é das Estrelas) e escrevi um texto conclamando os amigos sensíveis ao choro. O tempo passou e o normal seria que livros deste tipo caíssem no esquecimento daquelas experiências tão marcantes quanto passageiras. Mas não foi o que aconteceu. Levado a repensar o livro depois de assistir à adaptação cinematográfica, ocorreu-me que The Fault In Our Star é melhor do que eu supunha.

O romance de John Green, contudo e entretanto (sic), parece ser vítima de um fenômeno muito comum entre leitores de grandes obras e/ou intelectuais: o sucesso comercial dele serviria como prova inequívoca de que é um livro ruim. Afinal, algo escrito para as massas não pode ter qualidades que só nós (eu não; eles!), espíritos elevados, somos capazes de compreender.

Besteira, claro. Que o diga a própria biografia do autor, John Green. Ora, quem me conhece um pouquinho sabe que defendo o desprezo quase total ao autor de qualquer livro. Evito ao máximo que a obra seja contaminada pelo autor. Eu não tinha ideia de quem era John Green até que, há alguns dias, uma amiga me disse que ele era um dos responsáveis por um canal educativo no Youtube. Fui conferir e fiquei abismado – mas não muito. John Green “leciona” literatura para jovens em vídeos curtos. E, ali, comprova minha teoria instintiva: há muito mais em The Fault In Our Stars do que você supõe.

A começar pelo título, que eu insisto em mencionar no original em inglês. Não, não estou querendo bancar o fodão poliglota (até porque não sou). Cito o título em inglês porque na tradução algo bastante interessante se perde. Numa tradução literal, o título do romance deveria ser “a culpa em nossas estrelas”, e não “a culpa é das estrelas”. Não entendo o motivo da adaptação.

O título faz referência à peça Júlio Cesar, de Shakespeare. Nela, Cássio diz:

“The fault, dear Brutus, is not in our stars,

But in ourselves, that we are underlings.”

 

O detalhe é que esses versos parecem sugerir justamente o contrário do que diz o título em português. Isto é, a culpa não é das estrelas, e sim da própria condição humana. Nossa vida, com seus amores e dissabores, não tem a ver, portanto, de algo determinado pela disposição das estrelas (astrologia); a felicidade e o sofrimento são coisas inerentes à nossa mortalidade.

O título também pode fazer referência ao peso que o acaso tem sobre nossas vidas. Somos feitos de matéria estelar e, assim como as estrelas, também temos um ciclo de vida marcado pela inevitável mortalidade e por “acidentes celestes”. É por acaso que as estrelas nascem, crescem, se chocam, se fundem, são abduzidas por buracos negros, etc. Da mesma forma, é por puro acaso que as células do nosso corpo (matéria estelar, vale insistir) se reproduzem de alguma forma equivocada, dando origem ao câncer – tema tangencial do romance.

 

*

 

Ora, muito se falou sobre a inverossimilhança de personagens adolescentes que falam como adultos sábios. Besteira. Verossimilhança por verossimilhança, qualquer livro com personagens adolescentes seria ilegível e vazio, simplesmente porque a confusão é uma das características desta fase. John Green, pois, se utiliza de um artifício bastante eficiente para compor personagens que têm não só carisma como personalidade.

O que vale a pena destacar aqui é a postura estoica da protagonista, Hazel. A postura dela diante do câncer, do que resta da vida e do amor beira ao budismo, por assim dizer. Hazel contempla a vida, a morte e o amor como nenhuma adolescente seria capaz de contemplar. John Green retrata muito bem esta postura ao narrar a experiência de quase morte de Hazel, quando a mãe dela, aos prantos (da personagem, leitores e espectadores), lhe diz para “descansar”, isto é, morrer.

Se aceitar a própria morte é algo complicado, imagine aceitar a morte da filha única! O estoicismo de Hazel, pois, parece ter origem familiar – o que é apenas especulação da minha parte e nada acrescenta ao romance. O importante, isto sim, é dar atenção à postura dela em relação a todos os acontecimentos do livro. A alguns pode parecer que Hazel assume uma postura blasé. Besteira. Hazel sabe que vai morrer e, mais do que qualquer um, sabe que tudo é efêmero.

Daí a incrível passagem, no livro (no filme a cena perde força), da experiência sexual de Hazel e Augustus. Não se trata de algo arrebatador, como seria de se esperar de um escritor menor, propenso aos lugares-comuns. John Green, contudo, sabe que aquele momento é (como tudo!) transitório e efêmero. Sob uma perspectiva estoica, apenas uma experiência a mais para Hazel, diminuta em relação ao assustador gozo da morte.

Os exemplos de desapego se sucedem. Por que você acha que o autor dá tanta ênfase à venda do balanço, por exemplo? E, na narrativa, qual a função do menino cego que leva um pé na bunda da namorada se não a de criar um contraponto ao estoicismo de Hazel?

 

*

 

Por fim, um detalhe para o qual atentei somente depois de assistir à adaptação cinematográfica: o revoltante escritor Van Houten, fonte de muito ódio durante a leitura do romance. Afinal, qual a função dele no livro? Claramente não é oferecer uma visão “nua e crua” do câncer; a própria Hazel se encarrega disso. Ela nunca se faz de vítima.

Numa leitura superficial, pode-se pensar que Van Houten personifica a autodestruição, isto é, alguém que escolheu uma vida de sofrimento, em oposição a Hazel e Augustus, jovens aos quais o sofrimento teria sido imposto pelo câncer. Pode ser, mas… surpresa! Não é.

Quem, então, é Van Houter?

Prepare-se porque a resposta não é muito fácil de engolir.

Van Houten é, no romance, ninguém mais ninguém menos do que Deus. Não à toa Hazel se refere a Uma Aflição Imperial, livro de Houten, como uma espécie de Bíblia que norteia seus passos. Houten é, a princípio, a “Voz Que Tudo Sabe”. Mas também é o “Mistério”, já que escreveu um livro que termina aparentemente sem mais nem menos, dando origem a um enigma que, para Hazel, é maior do que a própria morte que se aproxima.

A dúvida “o que aconteceu com os personagens de Uma Aflição Imperial” é a própria dúvida do que existe depois da morte. Daí porque o encontro dos jovens com o escritor nos parece tão frustrante. John Green não responde à dúvida de Hazel, simplesmente porque é impossível respondê-la.

(E, se você é um leitor esperto, deve agora estar dando gargalhadas do fato de Van Housen ouvir rap sueco! Ora, como poderia ser diferente se Deus se comunica com a gente por meio de sinais muitas vezes ininteligíveis?)

No fim do romance, Van Housen reaparece no funeral de Augustus (nada mau para um ser Onipresente). Ele tenta estabelecer um diálogo com Hazel, mas é repelido. É o golpe de mestre de John Green: o estoicismo de Hazel se sobrepõe aos devaneios infantis de alguém que quer descobrir o que há depois do ponto final de um livro qualquer. Ela despreza Deus, digo, Van Housen, para dar atenção à única Graça terrena de que dispõe, isto é, às palavras finais de Augustus.

E a eulogia de Augustus é aquilo que se traduz em lágrimas (no meio caso, muitas lágrimas, soluços e até gritos desesperados): Hazel é abençoada o suficiente para ter, em vida, o reconhecimento que a maioria das pessoas só obtém depois de mortas.

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