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Meu Walden

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha, cheia daqueles compartimentos que em breve estarão pululando de vida. No momento ela está no meio da sala, desmontada, e assim permanecerá até que alguém com mais destreza no manejo de uma chave de fenda me ajude.

Ainda hoje pretendo comprar um traje próprio para apicultura. Daqueles que fazem você parecer um astronauta. Custa baratinho nas Americanas. Minha única dúvida é quanto ao tamanho. Meu otimismo me leva a cogitar um traje pequeno; a prudência me faz pensar num traje médio; mas a realidade me impõe um traje grande mesmo. Extra grande está fora de cogitação – por enquanto.

Ontem mesmo mandei várias cartas – cartas, meus amigos, aquela coisa velha com envelope e selo e a providencial lambida – para a Embrapa, Emater, Associação Brasileira dos Apicultores, Sebrai e Senai. Depois de receber as devidas orientações dos especialistas, vou comprar uma abelha-rainha e atrair operárias e zangões dissidentes de colmeias próximas.

Falta ainda a terra, claro. Seria ainda mais louco do que sou se criasse abelhas no apartamento. Fiz pesquisas e estou apaixonado por uma chácara ali em Morretes. Tem uma casinha de madeira caindo aos pedaços que me encanta, mata nativa, micos-leões, palmito e até um riachinho. Ontem pensei em comprar uma bateia a fim de procurar ouro naquelas águas geladas. Vai quê?

Com o mel que obtiver das minhas escravinhas aladas pretendo fabricar pão-de-mel. Se, nos próximos meses, você encontrar um homem de barba rala e esbranquiçada pelas ruas da cidadezinha oferecendo pães-de-mel a um preço absurdamente alto, sou eu. Enquanto isso, também vou pensar numa receita que envolva mel, palmito e carne de mico-leão.

Comprei uma caixa de abelhas. Linda, toda branquinha. Depois de montada (se um dia chegar a ser montada), e enquanto a papelada da terra não fica pronta, vou usá-la provisoriamente como criado-mudo. Empilharei livros de poesia sobre ela. Talvez até instale aquele abajur velho, se arranjar coragem para trocar a lâmpada há muito queimada. E, no frio dessa cidade que me oprime, usarei o traje de apicultor como pijama.

Nem gosto de pão-de-mel mesmo.

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Publicado comoCrônica