Skip to content

Meu velho

Oi, Paulo.

 

Estou aqui para lhe dar, antes de mais nada, os parabéns. Porque apesar de tudo, das depressões adolescentes, das crises profissionais, das noites mal dormidas, das dúvidas profundas, do luto por amigos que se foram cedo, do medo de consultar o extrato bancário; apesar do excesso de Coca Zero, do sedentarismo incorrigível, da ojeriza a médicos e exames de quaisquer tipos; apesar da crença de que o futuro era escasso e de que a morte o aguardava em cada esquina você chegou aos oitenta anos.

Aqui do conforto dos nossos quarenta anos me esforço para imaginar o mundo e o Brasil de 2057, mas falho miseravelmente. Na nossa juventude era muito mais fácil, né? Porque tínhamos aquele delírio pré-anos 2000 de que o futuro era mágico, com carros voadores, teletransporte, passeios pelos anéis de Saturno, refeições deliciosas em pílulas e tudo o mais que a tecnologia fosse capaz de nos dar. Confesso, meu caro, que o (me) imagino cercado por tranqueiras inúteis aí neste seu longínquo aniversário; e num mundo que não tem como ser melhor do que este horrível ano de 2018.

Não sei se você se lembra, mas acabamos de enfrentar uma anacrônica greve de caminhoneiros. Isso depois de impeachment, prisão de ex-presidente, essa coisa toda. Aqui do alto de seus quarenta anos você é um homem que ainda se dá ao luxo de se importar com essas coisas e de considerá-las minimamente relevantes. Mas aí do alto mais alto dos nossos oitenta anos você deve ter finalmente percebido que, a despeito de quaisquer convicções políticas, o que importa mesmo é acordar todas as manhãs, ouvir o ronco dos motores nas ruas (não me diga que os motores elétricos são comuns aí no futuro!), respirar o ar poluído da cidade e se sentir um privilegiado por ainda ser capaz de saborear essa deliciosa abstração chamada vida.

Ontem, meu velho, estávamos observando um Júpiter muito brilhante no céu limpo de inverno. Desde então, se meus cálculos não estiverem errados, o planetão deu 3,333333 voltas ao redor do Sol. Nós demos 40. Nestes quarenta anos, me pergunto quantas vezes nós nos demos ao luxo de olhar para o céu numa noite de inverno, com greve de caminhoneiros e o escambau, para admirar o poderoso Júpiter, gigante gasoso que uma amiga há tempos disse ser o sinal de que teríamos muita sorte na vida? Ah, não me diga que viagens a Júpiter agora são tão comuns quanto um passeio à Disney! Ou me diga, sei lá. Diga tudo o que vai me decepcionar, confirme minhas previsões mais catastrofistas. Assim quem sabe podemos ao menos comprar ações da Tesla a fim de nos garantir um octoaniversário opulento.

Sou obrigado a perguntar o que você faz aí no futuro. Não me diga que ainda estamos escrevendo. E que ainda estamos escrevendo para ninguém. Hahahahaha. Você se lembra de como éramos frustrados por causa disso aos quarenta anos? Que bobagem. O que me consola é saber que, aí na velhice, você já entendeu e fez as pazes com essa estranha… sina. Ou não fez?! Aprenda de uma vez por todas, velho: sua passagem pela existência está marcada numa pedra minúscula no meio do deserto. Existe, aqui e ali, a possibilidade de alguém tropeçar na pedra e ver nela as impressões muito particulares desse nosso espírito. Mas também existe a possibilidade maior de alguém pegar a pedra e jogá-la no laguinho do esquecimento, só por diversão. E nisso também há algo de divino.

É, meu caro. Sei que estamos chegando perto da Temida. Se bem nos conheço, você deve pensar nisso todos os dias, né? Acalme-se daí que eu me acalmo daqui. Lembre-se de que, aos quarenta anos, você tinha certeza de que a morte o abraçaria num momento de distração, sem maiores dramas. Vai ser assim e, de alguma forma, vai ser maravilhoso. Porque vamos partir com a sensação do dever cumprido. Pelo menos é o que penso aqui, quarenta revoluções solares antes do momento em que você abriu essa carta e a leu com um quê de autodesprezo e um sorrisinho no canto da boca banguela. Amamos e fomos amados, sofremos e rimos em igual medida, pensamos bobagens e coisas sérias, escrevemos e fizemos desenhos que penduramos nas paredes como se fossem Arte, dormimos noites longas embalados pela estranha certeza de que tudo é perfeito, para além da nossa compreensão. Se isso não é uma vida plena, então não sei o que é. (E deixe de ser rabugento. Você sabe que tenho razão. Sempre).

Mas agora é hora de me despedir. Tenho de continuar com a tradução aqui. Ganhar o pão de cada dia a fim de conseguir receber e ler esta carta nos nossos oitenta anos. E também porque não sei mais o que escrever ao velho em que me transformei.

Mande um beijo apaixonado na Dani e um abraço apertado no Davi (Eu disse que ele iria crescer e se transformar num grande homem!).

 

Paulo

Curitiba, 28 de maio de 2018.

Share
Let's talk