Marielle Bandida

(Leia antes de espernear)

A ideia lhe veio como um milagre mal disfarçado de acaso. Ele se levantou e se amaldiçoou por não ter papel e caneta por perto. Quem foi que pegou minhas coisas, quem mexeu na minha bagunça?, perguntou ele para o apartamento vazio. E a cada segundo o medo de que o milagre se cansasse da fantasia e saísse, entre o tédio e exaustão, do decadente Salão das Ideias Festivas.

Ao encontrar finalmente – e no lugar de sempre – a caneta e o caderninho surrado de anotações estéreis, ele hesitou antes de dar concretude ao milagre ainda fresquinho. Imaginou ali a ideia solta, sem contexto, toda órfã do tempo em que foi concebida, toda despida da pretensa relevância, flutuando num futuro de suposições perversas, para ser lida por uma gente que nem nasceu e que lá da antessala da vida mesmo talvez já tenha uma opinião sobre ele: canalha!

Que se foda!, concluiu ele com a obviedade das pálpebras pesadas. E, por respeito a si e ao milagre cuja coroa já lhe rasgava as entranhas, anotou com a caligrafia apressada da genialidade madrugueira: “Marielle puta!”.

Já ia deixando o caderninho de lado para se afundar no travesseiro das ideias natimortas (uns milagres mancos, estropiados, aos quais faltavam dentes e vida) quando, incomodado pela pulga da vaidade, acendeu de novo a luz do abajur, abriu o caderninho, municiou-se da caneta e, sem esperar pelas ordens do general Superego, foi logo rabiscando o recém-anotado, esculpindo no milagre (na verdade, sob o milagre) uma forma menos virulenta. “Marielle bandida”, escreveu, aliviado*. E, como já estivesse ali semiacordado e abençoado, achou por bem desbastar um pouco mais o mármore.

Assim nasceu Tonhão do Cavaco, um sambista polaco gente boa cujo sobrenome verdadeiro era uma casca de vogais recheada por consoantes. Gordo como se não houvesse amanhã, o sorriso sempre aberto para as piadas menos engraçadas, a voz rouca de cigarros que lhe davam o devido ar boêmio e, claro, o irônico cavaco no nome de um analfabeto instrumental, Tonhão era um desses gênios que só os aficionados por samba conheciam. E morreria assim e seria enterrado ao som de uma cuíca triste numa gaveta do cemitério Água Verde, não fosse por um detalhe: Tonhão do Cavaco era agora também protagonista de uma história infame. Ficcional, nunca nos esqueçamos, mas infame.

Ele (não Tonhão, o outro) levou a caneta à boca, pensativo. Tonhão do Cavaco, personagem que é parte memória, lhe apareceu lá no fundo (da mente!), rindo aquele sorriso cheio de tolice e autoengano, cercado por duas mulheres que ele sonha mas nunca vai comer, vociferando platitudes para um bando de puxa-sacos de seu sobrenome, acurralado pela própria vaidade. Ele (não Tonhão, o outro) quase teve pena do destino que daria a seu personagem.

Quase. Porque, sim, é quase bem provável que ele quase escrevesse a quase história cujo quase argumento rascunhava no caderninho. Mas quase mais provável ainda é que quase tudo quase ficasse quase confinado quase à quase fantasia de uma noite insone, sem maiores consequências para ele, autor, para os leitores e muito menos para o pobre-diabo do Tonhão do Cavaco, que Deus o tenha!

Não dessa vez! Lá fora, sem que nosso autor visse, um taxista distraído entrou na preferencial sem olhar e, por isso, recebeu uma buzinada indescritível (como é que se descreve uma buzinada, meu Deus?!) de outro motorista qualquer, atento e nervoso demais para aquela hora. O barulho acabou por afugentar os íncubos e súcubos que tentavam de todas as formas levá-lo ao Reino do Sono, Condado da Desistência, Vila de Nossa Senhora da Procrastinação.

E ele se pôs a anotar retalhos que no dia seguinte pretendia coser (!) num texto provocativo, conciso-mas-eloquente, sereno-mas-indignado e inteligente-mas-nem-tanto. Um texto que sua (dele) irmã vai ler, mas não vai entender (e se entender não vai gostar e vai me ligar perguntando se eu acho que ela é burra e incapaz de entender o texto), que um tiozinho velho vai curtir sem ler e que sua namorada vai chamar ironicamente de instigante, antes de um delicioso ataque de riso.

Naqueles rabiscos estaria tudo de que ele precisaria na manhã seguinte (ou na outra, ou na outra, ou nunca): o título (“Marielle bandida”), o protagonista (Tonhão do Cavaco), o argumento e a estrutura: o sambista acorda todo feliz e tranquilo, sem se importar com o celular que não para de tocar. Assim que entra no banho, Tonhão ouve a campainha, seguida por batidas violentas na porta. Ele mal tem tempo de se enrolar na toalha quando ouve a porta sendo arrombada por uma turba enfurecida acompanhada por um policial meio entediado e claramente constrangido que o manda se vestir para poder prendê-lo com alguma dignidade.

Papo vai, papo vem, Tonhão fica sabendo que está sendo preso por difamar a honra de uma tal Marielle Franco, você não assistiu ao Jornal Nacional, não?!

— Não. Eu fui dormir cedo ontem e…

— Dormir cedo? Como alguém pode dormir cedo quando as pessoas estão morrendo nesse sistema capitalista opressor das minorias?! Isso só piora sua situação! O senhor não tem vergonha de ser uma marionete? Um alienado? – pergunta o Delegado Indignado. – Você é um pulha, seu… seu… Tonhão do Cavaco.

— Mas qual foi meu crime? – pergunta Tonhão, numa referência ridiculamente explícita ao pesadelo kafkiano.

— O nome Marielle não significa nada para o senhor? Marielle Bandida, por acaso?

E é assim que o personagem bonachão, distraído, alienado e meio retardado fica sabendo que seu crime foi ter composto, com o finado Simeão do Alto Boqueirão, o samba “Marielle Bandida”, história em fá maior de uma secretária executiva, Marielle, que rouba o coração do Everaldo, chefão do jogo do bicho. O samba foi gravado por um grupo de sambacore chamado “Os Diáconos do Pandeiro”. Dizia o refrão:

Marielle bandida,

Saudade infinita,

Meu coração você roubou.

Posso ser contraventor

Mas você é bandida,

Marielle bandida.

Tonhão é preso, enviado para uma penitenciária clandestina na Amazônia (referência clara ao clássico Papillon), acaba espancado e violentado por um traficante metaleiro que odeia samba e é solto três meses depois, sem alarde nem maiores consequências. Marielle Bandida cai na obscuridade, de onde, aliás, nunca tinha realmente saído.

Mas, disse algo dentro dele. Mas, mas, mas. Havia tantos mas. E alguns entretantos e uns poréns – se bem que nenhum todavia. Mas para que se dar ao trabalho? Mas e se um amigo lhe mandar uma mensagem indignada com seu oportunismo disfarçado de ousadia? Mas para que se incomodar? Mas o que realmente você espera com isso? Mas você não tem coisa melhor para fazer? Mas e se você tiver toda a sua inexistência esfregada em sua cara mais uma vez – não a última?

Em parte cedendo ao peso das adversativas e em parte se rendendo ao cansaço, ele deixou as anotações de lado, apagou a luz e dormiu, não sem antes compor e cantarolar mentalmente “Marielle Bandida” e pensar num final para o texto, algo que expressasse uma característica curiosa sua, como o fim abrupto assim.

 


*  E depois acrescentou “(Leia antes de espernear)”. Porque nunca se sabe.

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