Gazeta, mon amour (também uma confissão)

 

A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim.

A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um filho perfeito, ainda que, para compra-lo, eu tenha pegado dinheiro sem permissão da carteira do meu pai. Ele nunca reclamou.

Além de me dar as tirinhas do Garfield, as fotos-legendas de lugares peculiares de um mundo pré-Internet e as brincadeiras da Gazetinha (sem falar em um ou outro encarte das Lojas Americanas, Pernambucanas ou Mesbla com as mulheres trajando deliciosas, digo, lindas lingeries), a Gazeta do Povo foi a responsável por parte da minha formação intelectual, com as colunas de Paulo Francis, aquela seção de fotos antigas do Cid Destefani e matérias e críticas do Caderno G.

Quando passei no vestibular, corri para a sede do jornal para pegar o exemplar com meu nomezinho orgulhosamente estampado. Foi como um primeiro beijo. Até que, logo depois, acontecesse a ruptura que, hoje sei, foi uma falsa ruptura: entrei para a faculdade de jornalismo e nela descobri que não era de bom tom ler a Gazeta. Muito menos declarar qualquer amor pela Gazeta. Meus professores diziam que tudo ali era manipulado e aprendi a ver os jornalistas como seres maquiavélicos, destinados a, numa galé de máquinas-de-escrever, criar um mundo dividido entre oprimidos e opressores. Essa bobajada toda que a gente “aprende” na faculdade.

(Mas que, com sorte, esquece logo depois).

Tive uma carreira profissional bastante interessante. Rápida. Meteórica, como se diz. Trabalhei nos vários lugares onde meu currículo diz que trabalhei. Mas nunca trabalhei na Gazeta do Povo. E esta é uma ferida que o fechamento do jornal escancara. Para minha própria surpresa, aliás. Fecho os olhos e me lembro das boas casas que me acolheram, mas nesta imagem falta sempre meu lugar ali na sede da praça Carlos Gomes. No final das contas, percebi recentemente que não fiz faculdade para ser jornalista; fiz faculdade para trabalhar na Gazeta.

Se me permito, pois, flertar com a nostalgia e me demorar num inútil momento de autocomiseração, é porque ela, a Gazeta da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, acabou sem jamais me dar a mão. Sinto-me como aqueles personagens de romances de aventura que vivem milhares de coisas em todos os lugares possíveis para descobrirem que a felicidade simples estava ali perto, em casa mesmo. Só que, neste caso, a minha casa um tornado digital derrubou.

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