Give thy thoughts no tongue

(desobedecendo Polônio)

Give thy thoughts no tongue header image 3

Uma Introdução Hiperbólica

Este livro nasceu da idéia natimorta de um guia. Depois, evoluiu para um livro de reportagens. Adiante, recebeu os rótulos incômodos de ensaios e crônicas. Este livro é isto tudo e não é nada disso. É um livro sobre a experiência de morar em Nova York, com um pouco de serviço para aqueles que se interessarem em conhecer alguns dos lugares aqui descritos. Mas é, sobretudo, um livro sobre o homem num ambiente não raro hostil.

Calma. Não sou sociólogo e não me daria ao trabalho de escrever um livro com um enfoque antropológico. Tampouco tenho talento para mago, por isso é improvável que o leitor encontre aqui vôos espirituais de galinha. No final, tudo é muito mais simples do que qualquer rótulo que se queira pôr na capa: este é um livro sobre um homem, com nome, sobrenome, cpf, signo, ascendente e lua, numa cidade, com latitude e longitude.

Poderia ser Paris. Ou Pequim. Calhou de ser Nova York. Cidade mítica, símbolo do século XX e, até agora, do século XXI. A Roma moderna. Decadente numa esquina, opulenta em outra. Vulgar na Times Square, elegante na Quinta Avenida. Com suas casas mal-assombradas e os mortos que vêm se sentar no Central Park. Com a enorme cratera que o mundo viu se abrir depois que dois aviões foram jogados contra duas torres de 120 andares.

Evitar o lugar-comum foi meu norte na organização deste livro. Não quis escrever mais um livro sobre Gotham ou a Big Apple, seus encantos e desencantos – arght! Por isso, você não vai encontrar nas páginas que se seguem a história de brasileiros que venceram em Nova York, à custa de muito suor e pratos lavados; nem tampouco vou levar você, leitor, para conhecer a Estátua da Liberdade ou para ver a cidade do alto do Empire State Building.

Por outro lado, evitei também o ar blasé que parece se apoderar de todos os que respiram o ar poluído entre os rios Hudson e East. Perder a fascinação é a coisa mais triste que pode acontecer a um homem. Confesso que, às vezes, temo ter dado vazão ao meu lado jeca.

No princípio, também evitei quaisquer comparações com o Brasil-sil-sil. Mas, sinceramente, não deu. O Brasil está presente demais na minha vida para eu ignorá-lo. Além do mais, que sentido há em fazer uma viagem ao redor do mundo se não for para compará-lo com sua aldeia? Neste ponto, já aviso: rio e tripudio sobre o Brasil e os eventuais brasileiros que atravessaram meu caminho nestes meses. Até porque nada é mais ridículo do que um brasileiro em Nova York pagando o ingresso sugerido do Metropolitan Museum of Art com moedas de centavos.

E eu não consigo ficar quieto ao ver isso – você conseguiria?

Não sou blasé. Tampouco faço um relatório de minhas andanças pela cidade. Sou subjetivo até a medula. No entanto, tenho ojeriza à celebração de mim mesmo, o que evito a todo custo. Sou bastante impressionável, como uma criança, mas não deslumbrado como um caipira diante de uma escada rolante de madeira da Macy’s (só às vezes). Sou complicado sem ser confuso, sou exagerado e hiperbólico. Ler meus textos não significa chegar a nenhum ponto, muito menos aprender nada. Significa, isto sim, compartilhar de uma experiência: a de morar na cidade mais importante do planeta.

Seja bem-vindo à minha Nova York.