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Eu não vou mudar o mundo

Eu não vou mudar o mundo. Não vou mudar o mundo para mim, não vou mudar o mundo para minha família, não vou mudar o mundo para meu filho, não vou mudar o mundo para minha mulher, não vou mudar o mundo para o meu vizinho, não vou mudar o mundo para o tiozinho que mora do outro lado da rua. Não, eu não vou mudar o mundo para ninguém.

E isso é bom, mas também é ruim. É bom porque o mundo não seria necessariamente um lugar melhor se eu o mudasse. Imagine, por exemplo, que tedioso seria um mundo com escritores cheios de autocrítica, geniais só quando fossem realmente geniais e plenamente conscientes das coisas como a transitoriedade e o oblívio (fazia tempo que eu não usava “oblívio”). Imagine que desastre seria um mundo mais bem-humorado, com as pessoas gargalhando o tempo de piadas que misturam a inteligência de um Woody Allen com o espírito traquinas de um menino de dez anos.

Imagine que horrível seria o mundo como eu o imagino perfeito.

Levei quarenta anos e alguns passos sob uns ipês-rosas carregados para chegar a essa conclusão: não vou mudar o mundo. E não é por preguiça minha, de jeito nenhum. Esforço eu faço todos os dias para mudar o mundo – ou ao menos o mundo ao meu redor –, mas em vão. Coisas que, me dizem os livros de autoajuda, me farão deixar o mundo um tiquinho melhor. Dou bom dia, boa tarde e boa noite a todo mundo, escrevo essas e muitas outras mal traçadas para encorpar nossa memória coletiva (seja lá o que for isso) e diminuí meu banho de meia-hora em 10%, na esperança de fazer alguma diferença.

Mas não vou mudar o mundo porque o mundo não quer ser mudado. Não por mim. Pelo que noto, o mundo quer continuar assim do jeitão dele, sabe, turrão em alguns dias, cavalheiro noutros; generoso quando bate um vento quente, mesquinho quando esfria; capaz de me fascinar para além do que consigo pôr em palavras e capaz de me entediar a ponto de eu preferir a morte. O mundo quer continuar sendo este lugar que lhe rosna para pedir carinho.

O que faço agora, nesse mundo refratário à mudança que para mim é novo? Fico imóvel, na esperança de quebrar o menor número de cristais possível ou saio por aí rodopiando, na esperança de convencer o mundo, um mundo, de que quebrar uns cristais é necessário (além de muito divertido)?

Talvez o mundo seja um jogo de soma zero: tem sempre alguém piorando e sempre alguém melhorando em igual medida, equilibrando a coisa toda. Assim, a gente acaba compensando o dia em que destratou a atendente da NET com o dia em que ajudou a velhinha a atravessar a rua. E aquele comentário virulento que deixamos na foto da gordinha vaidosa do Instagram talvez seja compensado pela frase motivacional falsamente atribuída a Clarice Lispector publicada no grupo da família no Whatsapp.

Não, eu não vou mudar o mundo. E este texto que fala sobre a impossibilidade de se mudar o mundo não vai mudar o mundo daqueles que acreditam que o mundo possa ser mudado. Não vai mudar nada em quem se esforça para piorar o que encontrou aqui ao sair do ventre da mãe. Tampouco mudará algo para quem, no leito de morte, ri satisfeito da passagem efêmera e virtuosa por este mundo.

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