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Eu não sou besta pra tirar onda de herói

Não adianta. O canudo plástico caiu em desgraça e parece mesmo destinado à extinção. Aqui do conforto do meu apartamento no meio de uma metrópole, testemunho a extinção dos canudos sem saber se se sou a favor ou contra. Não é assunto que eu considere razoavelmente relevante. Mas, embora eu seja absolutamente contra o Estado se intrometendo nesse tipo de coisa, estou aberto, sim, à possibilidade de o canudinho representar um problema tão ameaçador ao meio-ambiente que justifique sua proibição sumária.

Vou dormir achando que a questão está encerrada, mas no dia seguinte me surpreendo com aquilo que chamarei de Revolta dos Cadeirantes – só porque eu posso. Um amigo, bancando o herói que acredita mesmo ser, ecoou, com cem mil pontos de exclamação e aquela indignação histérica característica dos aspirantes a heróis, a reclamação dos deficientes físicos que dizem que o canudo plástico é essencial para a existência deles.

De uma hora para outra, eu e todos que tínhamos alguma simpatia pela proibição (arght!) dos canudos plásticos fomos transformados em Canalhas Imediatos, só porque, aparentemente, somos insensíveis e reprováveis demais, uns verdadeiros pulhas incapazes de prever o impacto que uma medida dessas causaria na vida de tetraplégicos.

Meu amigo recebeu lá na rede social dele meia-dúzia de aplausos, o retuíte de um famosinho, a indignação solidária de um ou outro – e foi dormir herói da sua causa improvável, certamente embriagado da própria virtude. Eu, por minha vez, fiquei no meio da sala, assim apalermado, como me é característico, pensando nas virtudes, se é que há virtudes, em algumas pessoas que aprendemos a considerar heróis.

É uma dúvida que me persegue desde o caso Snowden. Lembra dele? O sujeito de repente virou um herói mundial por ter divulgado os planos de vigilância do governo norte-americano sobre seus cidadãos. Durante alguns meses (o equivalente a meia eternidade nos dias de hoje), não se falou sobre outra coisa. Pessoas foram demitidas, pessoas tiveram de dar explicações, pessoas ficaram trabalhando até mais tarde e talvez até pessoas tenham morrido – como deve ser em toda boa história de conspiração. E o resultado disso tudo? Nada.

Nada. Absolutamente nada. Snowden fugiu para a Rússia, virou documentário ganhador do Oscar e cinebiografia dirigida pelo diretor mais chato de Hollywood, Oliver Stone, e de vez em quando fala alguma bobagem no Twitter. Nenhuma vida foi salva pelo ato heroico de Snowden. Nenhum aspecto do Estado totalitário, controlador e invasivo foi mudado. E eu sou capaz de apostar a senha do meu wi-fi como o governo norte-americano continua a espionar seus cidadãos – e com ainda mais rigor.

Não que Snowden não tenha sido bem-intencionado lá do jeito dele. Todos os aspirantes a herói são. Fico imaginando o jovenzinho que assistiu a filmes de espionagem demais com todos aqueles arquivos comprometedores nas mãos, se encontrando com Glenn Greenwald em Hong Kong, numa cena sob direção de John Woo, se vendo assim como o grande Salvador da Privacidade Humana, digno de desfile em carro aberto pelas grandes metrópoles do mundo, estátua equestre e nosso agradecimento eterno.

Pena que a virtude de Snowden não resista a uma análise um pouco mais cuidadosa. Quem procurar heroísmo (com agá minúsculo mesmo, mas dito assim com ênfase e os olhos arregalados), quem procurar autossacrifício e altruísmo, corre o risco de, nesse e em outros casos, encontrar apenas ingenuidade e vaidade.

Outro herói do nosso tempo de cujas virtudes desconfio foi Stephen Hawking. E agora me ocorre, não sem uma pontinha de humor negro, que Stephen Hawking, vivo fosse, estaria usando sua voz digitalizada para se juntar à grita pela proibição da proibição dos canudos plásticos. Por motivos óbvios.

Pois Stephen Hawking morreu e logo em seguida li obituários e mais obituários exaltando as virtudes do físico inglês. Não pude deixar de notar que todos os textos que tive a oportunidade de ler mencionavam mais a terrível doença do cientista, esclerose lateral amiotrófica, do que seus feitos acadêmicos. “Suas [dele] descobertas mudaram a forma como vemos o Universo”, repetiram os jornais impressos, as rádios e as televisões. Mas será que mudaram mesmo? O quanto suas teorias sobre buracos negros, Big Bang e sei lá mais o que impactaram realmente a vida das pessoas?

Tenho dificuldades para encontrar outro sinal de heroísmo em Hawking que não o de sobreviver por décadas sobre uma cadeira de rodas, o corpo todo deformado por conta de uma doença horrível. Você pode argumentar que é esse mesmo o heroísmo, mas neste caso sou obrigado a engrossar a voz: mas então todos os sobreviventes de graves doenças motoras são dignas do epíteto “herói”? Ou teria sido Hawkins tão-somente um personagem pop, a tétrica personificação do gênio enclausurado ao próprio corpo, ao próprio intelecto?

O que nos traz à última personagem deste texto, a mais contemporânea e inegavelmente pop delas: Malala Yousafzai, por acaso de passagem pelo Brasil. Onde, ao que parece, a moça causou certa celeuma por aí ao se dizer antiarmamentista e, contraditoriamente (dizem), andar com dezesseis guarda-costas fortemente armados. Mas essa discussão não me interessa nem tampouco serve ao propósito deste texto.

A história de Malala, contudo, me interessa e serve. A essa altura todo mundo já sabe que ela levou três tiros na cabeça por causa de sua militância em defesa da educação das meninas sob o regime Talibã. E, neste sentido, a história dela é tão ou mais horrível do que a do cientista preso à cadeira de rodas. Deve ser muito ruim levar um tiro, quanto mais três, e, até por conta da minha condição de homem privilegiado, nem imagino as coisas pelas quais Malala teve de passar a fim de aprender a fazer divisão com dois algarismos na chave.

Mas, novamente, tenho dificuldades para entender o lado heroico da sobrevivência (não no sentido metafísico, veja bem). Para mim, a virtude que compõe um herói digno do nome é sempre um ato intencional de bondade em todas as suas múltiplas manifestações (compaixão, solidariedade, coragem, desapego e até genialidade). Malala foi, sim, mais corajosa do que Snowden ao desafiar os fundamentalistas muçulmanos. Afinal, ele não levou nenhum tiro. Mas no que essa coragem realmente se traduziu? Foi a atuação de Malala que melhorou a vida das meninas naquela região ou foi a atuação militar do Ocidente? Pior: será que a vida das meninas daquela região do planeta realmente melhorou?

Calma. Não se irrite. Não ainda. Porque não estou menosprezando os feitos de Malala, Stephen Hawking e Snowden. Aos 21 anos, Malala é hoje uma autoridade em… em… uma autoridade em alguma coisa. Hawking, além de enfrentar a doença, desenvolveu uma teoria que pode não ter mudado na vida das pessoas, mas que me faz ter pesadelos com a singularidade todas as noites. E Snowden me fez cobrir a câmera do laptop com um pedaço de esparadrapo – só por garantia, sabe como é.

Mas há um quê de ridículo em todo esse apregoado heroísmo. Uma credulidade infantil naquele mundo retratado em Imagine: sem governo, sem Deus ou religiões, com todo mundo de mãos dadas lutando pelo dia em que viveremos à base de poesia e energias positivas, guiados por líderes como Snowden, Hawking e Malala. Que, pensando bem, não são muito diferentes daquele meu amigo que se considerava (e ainda se considera) o mais virtuoso dos heróis por defender o direito dos tetraplégicos de usar canudos plásticos em lugares públicos.

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