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Escrever é dois-pontos

Escrever é estar quase dormindo, quase mesmo, naquela fronteira entre o despertar e o sono que nada mais é do que uma versão cotidiana da fronteira entre a vida e a morte, só que mais barulhenta por causa do cachorro do vizinho, ter uma ideia, uma coisinha à toa que atravessa sua visão de olhos fechados, se vira para você e manda beijinho antes de se transformar num monstro, uma ideia que nem é tão bonita assim, você pensa, enquanto ela lhe mostra os seios e diz vem, seu safado, vem me comer todinha, rir um risinho entre o infantil e o pervertido para o quarto escuro, se levantar meio cambaleando ao som das molas ensacadas, o que quer que seja isso, beber água do copo estrategicamente deixado no criado-mudo, pensando na tragédia que seria derramar água sobre o Kindle ou o livro ou o caderninho no qual você anota as ideias, mas não essa, porque essa é grande demais e você tem preguiça e os dedos doem ao escrever, meu Deus, como é possível que quando criança eu escrevesse tanto e os dedos não doessem?, dar o primeiro passo e cogitar voltar para a cama quentinha porque a ideia não vale tanto assim, mas vale, mas talvez valha, mas ninguém vai ler, mas alguém vai ler, mas pelo menos seu filho vai ler, droga!, ouvir o vento uivando e se enojar diante do lugar-comum, e ouvir e a ele conferir beleza, ao vento, digo, não ao lugar-comum, dar outros passos tomando o cuidado para não bater com o joelho na quina da cama nem acordar a mulher que ronca o delicado ronco feminino, abrir a porta bem devagar, falhando miseravelmente porque as dobradiças estão com algum problema, preciso passar lubrificante, já passei, não adiantou, talvez amanhã eu ligue para alguém vir resolver isso, talvez não, não, fechar a porta na esperança de que as dobradiças percebam o quanto incomodam e irritam com suas lamúrias de metal, ganhar a escuridão da sala e evitar olhar para os espelhos por causa daquele filme de terror a que você assistiu há três semanas, mas não esqueceu, se sentar na cadeira desconfortável e pensar que precisa comprar uma boa cadeira, sempre comprar, comprar, comprar, caramba, você não consegue viver sem comprar?, Shakespeare provavelmente escrevia sentado num monte de feno, seu idiota, deixe de ser mimado, abrir o computador, ligá-lo e esperar e amaldiçoar Bill Gates num momento só para se maravilhar diante da máquina que tudo contém e da possibilidade de acrescentar uma partícula toda sua a esse infinito, se apavorar diante da possibilidade de ter se esquecido da ideia, procurá-la nos bolsos do pijama e se dar conta de que está sem pijama, se aliviar ao descobrir a ideia agora tatuada em alguma parte remota do cérebro, fechar os olhos diante do branco da tela e rir um pouquinho da escritora chata que insistia em dizer que sofrer é escrever ou escrever é sofrer, uma ova!, puxar o teclado para perto e digitar demoradamente o ê, o esse, o cê, o erre, o ê de novo (ou seria “é”?), o vê, o ê e o erre mais uma vez e finalmente a barra de espaço, e rir satisfeito da obra pronta e salvar no disco rígido e na nuvem, rezando para que não haja uma explosão solar daquelas capazes de apagar todos os dados armazenados nos discos rígidos do mundo e voltar a dormir com a esperança de ter feito alguém rir, chorar ou, no mínimo, se irritar porque ao texto faltam pontos-finais, exceto por este.

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