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Elogio da Alienação

 

Um dos piores legados do petismo é a politização exagerada das pessoas. Não aguento mais – e sei que você também não. Hoje em dia, fala-se de política o tempo todo – e não só na Internet, como podem pensar alguns. Acabei de pegar um ônibus e lá estavam duas velhinhas discutindo o impeachment, as manifestações populares, a esquerda e a direita. Há vinte anos, provavelmente estariam trocando moldes de costura ou analisando o comportamento da mocinha da novela das oito.

É deprimente. E olha que sou do tempo em que os professores reclamavam da baixa politização da população. Meus professores diziam que o Brasil só melhoraria, sairia da crise (qualquer crise) e viraria um país do Primeiro Mundo quando as pessoas deixassem de se importar com futebol e novela e passassem a se importar mais com política. Mentira, claro. Mais uma entre tantas, aprendi mais tarde.

Nos últimos anos, o brasileiro aprendeu a acordar e dormir ouvindo notícias políticas. Até o futebol se tornou politizado. Torcedores do Fluminense são de direita e flamenguistas, de esquerda. Ou coisa assim. As novelas viraram temas de campanhas políticas: sem-terra, transexuais, favelados e, claro, os sempre malvados milionários do Leblon que votam no Bolsonaro e são a favor de prender crianças pobres. Nem ao Chaves é possível assistir sem ouvir alguém proferindo alguma tese sobre a exploração do menino que mora no barril.

Como disse, nem sempre foi assim. E tenho a impressão de que éramos mais felizes. Ora, desde que me entendo por gente o Brasil está em crise econômica e/ou política. Vivi a hiperinflação dos anos 1980 e o impeachment de Collor no início da década de 1990. Mas tínhamos outras preocupações que não a política. No centro acadêmico da faculdade de comunicação social (1996), conversávamos sobre Forrest Gump x Pulp Fiction, sobre Friends e, claro, sexo. Se bem me lembro, o movimento estudantil era só uma forma de socialização, não de socialismo.

Politização só traz infelicidade. O Brasil (ou qualquer país do mundo) só será um lugar minimamente agradável quando as pessoas deixarem de falar sobre política. Quando forem realmente alienadas. Quando o governo deixar de se intrometer tanto na vida da gente. Quando os políticos forem discretos a ponto de os ignorarmos quase que completamente.

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Publicado comoCrônicaPolítica