Elogio da alienação

Há quem comemore a politização extrema do brasileiro contemporâneo. Não faltam aqueles que exaltam o “único lado bom” da atual crise política: o cidadão comum está tão imerso no debate político que sabe o nome de deputados, senadores e até dos ministros do Supremo. O que é, evidentemente, uma tragédia. Povo politizado não é só povo infeliz; é povo oprimido.

O mito do povo politizado faz parte, como não poderia deixar de ser, da narrativa da esquerda. Sempre foi assim. Ainda nos bancos escolares dos anos 1980 eu ouvia dizer que era importante se interessar por política. Fui obrigado a estudar num livro do Frei Betto (apesar de frequentar um colégio católico e de ter por professora de OSPB uma alemã seminazista) que celebrava o interesse popular por conceitos como meios de produção, cultura de massa e outras bobagens.

“Ah, mas brasileiro só gosta de carnaval, futebol e novela”, repetia a linda professora de história na minha oitava séria, o nojinho escorrendo pela boca. Em seu ideal lobotomizado, o povo (esta abstração monstruosa) deveria conhecer profundamente a Constituição de 1988 e, se calhar, até os meandros dos regimentos internos da Câmara, Senado e STF. O povo deveria abdicar da novela para discutir a reforma agrária, a legalização do aborto, a urgência dos banheiros trans.

Ora, se hoje até o cobrador de ônibus sabe quem é o presidente do Supremo (“aquele amigo no Lula, como é o nome? Lewistrowski, sei lá”) é porque vivemos uma verdadeira tragédia. As pessoas só se interessam pelo Governo quando o Estado se torna tão grande que seus tentáculos invadem as casas para assombrá-las. Num país decente, ninguém sabe o nome dos integrantes da Suprema Corte por um só motivo: isso não os afeta.

Povo feliz é povo tão desinteressado pela política que nem vota – até porque em nenhum país decente o voto é obrigatório. Povo feliz celebra o Dia da Marmota e outras efemérides surreais. Povo feliz ri despreocupadamente das comédias de Will Ferrell. Povo feliz bebe sua cachaça e come sua feijoada sem se importar em estar “se apropriando da cultura alheia”.

Faço aqui, pois, um elogio da alienação. Espero que, passada esta tempestade, possamos novamente discutir coisas tolas e triviais: o mais recente romance da Grande Promessa da Literatura Brasileira, as curvas deliciosas da protagonista da novela, o estado lamentável da zaga da seleção, o absurdo do churrasco de melancia. E que possamos continuar com a infindável polêmica: o certo é biscoito ou bolacha?

Share