Efeitos colaterais da posteridade

por Paulo Polzonoff Jr.

Não sei o que meu pai pensava sobre os assuntos do seu tempo. Meu filho, contudo, saberá o que eu penso e pensava a respeito de tudo – ou quase tudo. Desde 2001 mantenho um registro das minhas opiniões sobre os mais variados assuntos cotidianos, do conflito no Oriente Médio à recente manifestação de barbárie numa faculdade de São Paulo.

Fico me perguntando que diferença faria se eu soubesse quais eram as opiniões do meu pai sobre, sei lá, o AI-5, a queda do avião da Varig em Paris, a inauguração da ponte Rio-Niterói, etc. Será que isto me ajudaria a compor um retrato diferente do meu pai? Imagino como seria fazer esta arqueologia se houvesse coisas como blogs e Twitter nas décadas de 1960 e 1970.
A disseminação da opinião era, há até bem pouco tempo, algo reservado à elite da elite intelectual. Só ela é que tinha a possibilidade de ser lida/ouvida por centenas, milhares e milhões. Meu pai, como a imensa maioria da população, tinha uma plateia restritíssima: seus amigos, família, o pessoal do clube.

Comigo é diferente. Minha opinião não só é registrada como também pode ser lida por qualquer pessoa que tenha acesso à internet e algum domínio (não muito) da língua portuguesa. No Twitter, por exemplo, cerca de 600 pessoas ficam sabendo, em tempo real, o que penso sobre a morte da bezerra, tadinha. E, no futuro, é provável que, no meio desta audiência, esteja meu filho.

Construí o retrato do meu pai com base naquilo que dele ouvi. Já meu filho provavelmente terá muito mais elementos para construir um retrato de mim. Elementos ambíguos. Não serei apenas a voz dentro de casa, no presente; serei também uma voz pública, presente e pretérita.

Confesso que este registro quase extremo de opiniões sobre tudo é algo que me assusta. Não só por seus possíveis efeitos colaterais no meu filho. Me assusta pensar na monstruosidade que é registrar todos os nossos pensamentos, sobretudo os mais voláteis, coisas que passam na nossa cabeça num minuto e das quais nos esquecemos no minuto seguinte. E se depois de amanhã ou daqui a dez anos eu for confrontado por algo que registrei às 17h45 do dia 23 de fevereiro de 2009 – algo de que, evidentemente, não me lembro mais?

Acho que deixar rastros da nossa existência é muito mais fácil hoje em dia. O problema é que não costumamos pensar se queremos mesmo deixar alguns rastros. E não estou me referindo, aqui, apenas a rastros de coisas das quais nos envergonhamos. O assustador é, repito, o registro do banal, do pequeno, do cotidiano – que, quando alimentado por uma imaginação fértil, pode se transformar, sim, num monstro.