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Dissertação do não-beijo

ou
Teoria geral da natureza do homem
ou ainda
Um nome: o seu

Vamos chamá-lo de Sr. P.. Assim, com uma só letra, o suficiente para que ele, o Sr. P., não seja nem um anônimo nem seja confundido comigo, apesar de termos as mesmas iniciais. Afinal, o Sr. P. é muito diferente de mim — diria até que é o oposto. A não ser pelo detalhe de não sermos lá muito felizes em nossas vidas sentimentais, o que, diga-se de passagem, é a coisa mais comum do mundo.

Pois eu encontrei o Sr. P. ontem e ele estava alegríssimo, dizendo que finalmente terminara aquele poema épico sobre a árvore que deu origem à cruz usada na primeira missa realizada no Brasil. Como podem ver, o Sr. P. é um homem de idéias estranhas, porém elevadas. Tive uma ponta de curiosidade em ler o poema do Sr. P., mas desisti no átimo seguinte; era muita erudição para meu gosto.

O Sr. P. é alto, tem quase dois metros de altura, o que não o impede de ser um homem elegante e bastante comedido em seus gestos. Pode passar despercebido num bar, desde que esteja sentado e bebendo seu bourbon enquanto conversa sobre temas que podem ir da qualidade da costela ali servida à nova teoria sobre a domesticação das formigas. Tido como um amigo exemplar, o Sr. P. quase nunca está só, no sentido menor da palavra; há sempre ao redor dele homens e mulheres interessados em aprender alguma coisa.

Só que o Sr. P. não é lá um homem de muitas mulheres. Não se sabe ao certo por quê. Alguns dizem que ele é homossexual mas não sabe ou finge não saber; há quem credite a solidão ao amor que o Sr. P. sente pelas artes mais obscuras; outros dizem simplesmente que ele não é um cara atraente para a maioria das mulheres.

Engana-se, contudo, quem pensa que a solidão incomoda o Sr. P.. Ao contrário, este homem tem por ela especial afeição. Costuma ele dizer que é graças à solidão que é o que é. Convenhamos: é uma frase enigmática, eu diria até vazia, mas dita assim pelo Sr. P., depois de dois bourbons, até que soa a mais alta das filosofias.

Ontem ele estava numa mesa contando sobre como finalmente terminara seu poema épico quando eu resolvi investigar um pouco a vida sentimental do Sr. P.. Não que eu seja um amante das fofocas, em absoluto, mas me interessa sobremaneira como as pessoas se portam diante deste sentimento confuso e contraditório que é o amor. Sem se importar com o teor íntimo do assunto, e mostrando-se surpreendentemente capaz de envergar uma conversa sobre sua vida para muitos obscura, exibindo-se até, o Sr. P. começou a contar sua vida por um prisma que eu jamais ouvira entre homens, em bares: o da frustração.

Não era o tipo de conversa que deixava a gente para baixo, não; era uma conversa bastante animada, com a qual todos nós, homens, nos identificamos. Era uma história simples de uma vida que estava por nascer, ao que parecia. De tal modo era a sinceridade de Sr. P. ao falar de suas frustrações amorosas que um outro homem na mesa, que chamaremos aqui de Sr. A., começou a chorar porque súbito descobriu não ser o único desgraçado em todo o planeta Terra. Não nominaremos o Sr. A. porque sua aparição nesta história termina aqui.

Começou o Sr. P. dizendo que para nós, homens, o beijo não é um ato tão-somente libidinoso, como pensam a maioria das mulheres e muitos homens que jamais olharam para dentro de si, com medo do vazio. Para nós, homens, dissertou ele, o beijo é um dos últimos vínculos com a selva, com o nosso senso de conquista, de caça, de poderio sobre os demais seres, inclusive os da nossa espécie. Não havia nenhum tipo de impostura machista neste conceito. Sr. P. afirmava apenas que éramos animais e que no beijo residia o mais sublime dos lados desta selvageria latente. Por isso, nada mais natural que um homem, ao longo de sua vida, beijasse tantas mulheres quanto fosse possível. Fracassar neste item era mais do que um sinal de fraqueza e o início de uma grande frustração ou talvez até mesmo de um câncer; era, segundo o Sr. P., a própria negação da masculinidade ou, pior ainda, a negação da humanidade do ser. Sem este vínculo com a selva, através do beijo, o homem passava a se considerar algo superior e por isso mesmo inferior ao meio em que vivia. Arrematou estes preâmbulos iniciais com uma frase que chocou a todos: dizia isso porque ele próprio considerava-se um ser externo e menor a seu meio. Assim como eu e como muitos dos que me lêem, o Sr. P. era um homem de poucos beijos em sua vida.

A história do Sr. P. é singela e exemplifica esta relação conflituosa que o homem tem com o beijo, motivo até de brigas entre os próprios homens. Mostrando humildade, qualidade nele sempre muito visível, irritantemente visível, diria eu, o Sr. P. narrou sua primeira tentativa frustrada de beijar uma mulher, ou melhor, uma menina. Tinha ele inacreditáveis cinco anos de idade e esta menina ficou gravada em sua memória sem nem mesmo ter um nome, passados tantos anos. Ele a recriou, por assim dizer, para poder torná-la exemplo: era loira e tão pequena que ele morria de medo de machucá-la; era mais ou menos como um duende, ainda que mais bonita e nada mística. Com cinco anos ele sentiu um impulso que na hora não soube explicar a si próprio e sobre ela lançou-se. Não obteve êxito. Morreu ali o primeiro beijo do Sr. P.

Dois anos mais tarde, encontraria ele outro ser que lhe despertaria os desejos primitivos do beijo. Outro nome perdido nos confins da memória vultuosa do Sr. P. e outro beijo que morreu a uns poucos centímetros da boca alheia. Segundo o Sr. P., neste momento, aos sete anos de idade, começava a morrer a criança para nascer o homem.

Beijo mesmo o Sr. P. só conheceu muito mais tarde, com uma mulher em desenvolvimento (eufemismo que gerou risadas esparsas na mesa que, talvez fosse impressão minha, ficou mais e mais cheia) chamada Consuelo. Rangeram os dentes, as línguas se tocaram antes mesmo dos lábios. Durou longos segundos aquele beijo, inesquecível, apesar de Consuelo também se ter perdido em labirintos. Naquela mesma noite, o Sr. P. foi presenteado com mais uma caça à disposição. Este segundo beijo numa só noite, disse o Sr. P., foi muito mais elaborado e o levou direto para as profundezas de seu eu-animal. Aquele vínculo, por mais que demorasse a ser atingido novamente, jamais se extinguiu por completo, porque criou em Sr. P. raízes ou, como preferia ele, fincou-lhe garras duradouras.

Outras histórias de beijos foram ocultadas para dar vazão ao verdadeiro objeto de dissertação naquele momento de mágica poesia. O garçom nos trouxe mais algumas cervejas, dispostas a esmo na mesa, e enquanto nos servíamos escutamos naquela voz velha e cansada apesar da jovialidade temporal algumas palavras de imensa poesia e dramaticidade.

Ali, entre tantos nomes, estava um homem revelando-se inferior aos seus pela sua incapacidade de conquista. Todas as batalhas perdidas, narradas uma a uma como se fossem feitos de bravura, quando foram, no máximo, momento de maior covardia e temor que um homem pode e não deve enfrentar em sua vida. Simone, Carla, Juliana; outra Juliana, uma mulher sentada no ônibus, outra anônima que com ele esbarrou na rua; todo um alfabeto de nomes que por vezes se repetiam era o repertório de não-beijos contados pelo Sr. P. Destes, guardei com especial carinho a história de Carla, lindíssima mulher por quem ele se apaixonou e por quem — surpresa! — foi correspondido. Atrás da árvore, como um gatinho encolhido pelo frio, como um verdadeiro rato acuado por uma vassoura assassina, deste modo escondeu-se o Sr. P. de Carla quando marcaram um encontro que selaria aquele início de namoro com um beijo. E depois, então, no caminho de volta para casa, sentindo-se um derrotado, com sangue a verter-lhe sobre o braço como se tivesse sido ferido por uma besta-fera. Carla foi o pior não-beijo na vida do Sr. P, segundo o próprio nos contou naquela noite, naquele bar.

O leitor ou leitora pode imaginar que dele caçoávamos enquanto nos contava as proezas de sua vida. Enganam-se; venerávamos o Sr. P. pela ousadia de se expor deste modo a homens sedentos por sentirem-se superiores a eles próprios. Paradoxalmente, ao narrar suas desventuras que o tornava, aos olhos dos demais, um não-homem, crescia o Sr. P. em masculinidade, de modo que começamos a sentir uma ponta de inveja daquele grande e maravilhoso perdedor.

Era alta madrugada já e estávamos cansados das histórias do Sr. P.. Introspectivos, vasculhávamos nossas vidas atrás de algo parecido com aquilo. E invariavelmente encontrávamos o que estávamos procurando. E nos surpreendíamos ao perceber beleza em todas aquelas derrotas. Intumescidos pela poesia do fracasso, os homens foram saindo da mesa, indo para suas casas, beijar suas mulheres ou namoradas, ou rememorar os beijos jamais selados.

Entre estes, que saíram sem ouvir o final da preleção do Sr. P., estava eu. Amargurado mas não exatamente deprimido, selecionei alguns nomes na enormidade de mulheres que habitavam minha vida pretérita de humilhação, fracasso e, na maioria das vezes, uma autocomiseração doentia. Claro que havia muitos nomes coincidentes com os do Sr. P., mas as que mais me tocavam pela minha própria incapacidade de ser homem eram mulheres de quem eu pouco sabia e menos ainda lembrava, geralmente pedestres que acompanhei por uns poucos passos na rua ou com quem viajei em ônibus entupidos.

Ter saído daquela mesa sem ouvir a conclusão da história do Sr. P. me deu uma sensação nada equivocada de reticências. Talvez fosse isso mesmo o que queria provocar o meu amigo: reticências na alma do interlocutor. Um vazio inexplicável de sentido para aquilo que estávamos acostumados a entender como a Natureza Humana, sem que prestássemos atenção de onde vinha esta tal Natureza. Obviamente que vinha das profundezas verdes da ancestralidade animal.

Depois de ouvir o Sr. P., vim direto para o computador, para pensar no maior beijo jamais concebido por mim em sua forma física, em seu contorno palpável. O nome de meu maior fracasso, de minha humilhação mais constante, de meu reflexo não-humano mais horroroso. A mulher que jamais beijei e que jamais beijarei e que ao mesmo tempo tantas vezes beijei naquilo que me torna superior aos demais animais e, talvez, aos semelhantes: a imaginação. O nome permanecerá oculto, claro, impronunciável diante da grandeza que é não tê-la beijado jamais.

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Publicado comoCrônica