Desarranjo de ossos

Também eu de minha mansarda, com as paredes precisando de pintura e os vidros quebrados pelo vento, vejo na rua as almas todas sem metafísica, sem imaginar que caminha em seu passo lento, lento demais, lento como se avançasse para o próprio túmulo, ali na calçada de pedras cortadas por mãos escravas, mas livres, necessariamente livres na minha idealização e dor, o homem que tampouco será e que ao céu pergunta.

E você, Senhor, que as nuvens misteriosamente sustenta e que nos deu as cores e este calor insuportável, e você, será que cuida da vida daquela que vem na contramão e daquele que atrás dela buzina e pragueja? Tem misericórdia dele e do outro, o do nariz grande que tantos fez chorar – e que no silêncio da alma convicta grita para si mesmo suas virtudes? Vai, Senhor, zelar pelo homem na bicicleta? Ao lixeiro também dá importância? E àquela ali, que jamais cortejou as mansardas mofadas e as teias de aranha de suas memórias, traumas, dúvidas e decepções?

Digo que sinto nos ossos a gravidade – riem de mim, sou louco. Mas não sou: a gravidade é leve; graças a ela me mantenho unido em mim, coeso, uma areia movediça finita dos meus átomos, das células que, sinto, reproduzem-se como suicidas na alta sacada – por que de mim não cuida, Senhor?

Por acaso minha oração é menos sincera? Ou meu sofrimento é menos sofrimento só porque os dentes exibo-os todos? Ou minha fé está maculada pelos pecados indignos do perdão?

A mulher que espera o ônibus está enlutada. Dá pra sentir a terra tremer aos soluços dela. Morreu-lhe o marido, o pai ou o filho? Ou talvez tenha sido de si mesma que descobriu a morte.

Quem vai chorar a partida daquele homem de bermuda azul que de um lado para outro anda, vagando sabe-se onde no salar de seus piores pensamentos e primitivos impulsos? Não o coveiro, que tem lá seus choros próprios, suas almas pelas quais nutrir o mais infantil afeto.

Quem?!

Aqui de minha mansarda fiz promessas, esperei milagres como criança admirando as acrobacias do acaso. Nada. Ou algo que não consegui identificar – e me pune, assim, a distração.

Se Deus tirar de mim o que não tenho, restarei o que de fato sou: um desarranjo de ossos.

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