Como me rendi a Maria Bethânia

by Paulo Polzonoff Jr. on October 8, 2002

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Nunca havia ido a um show de Maria Bethânia. Eis que, pelas mãos da produtora Verinha Walflor, cai-me nas mãos um par de ingressos para o show Maricotinha, que agora está sendo lançado em CD pela gravadora Biscoito Fino, numa edição primorosa. Na verdade, antes de entrar no Teatro Guaíra, estava ressabiado quanto ao show. É que sou um crítico bastante intolerante da chamada Máfia do Dendê, que engloba Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e… Maria Bethânia.

Além disso, um amigo meu tinha feito algumas observações que, não fosse por um encontro já marcado para o mesmo show, ter-me-ia feito ficar em casa, com uma mesóclise destas pendurada no pescoço. Segundo ele, Bethânia tinha um péssimo costume de declamar poemas no meio do show. Aí eu fiz algumas associações mentais, que passavam pela visualização de bichos-grilos vendendo livros artesanais de poesia na XV e quase desisti. Dei uma olhada no programa e lá estava toda a Máfia do Dendê. Teimoso, porém, insisti, porque tinha um encontro marcado para o mesmo show.

Maria Bethânia entrou e foi aquele estrondo. Mau sinal. Péssimo sinal. Esperava, sinceramente, uma platéia mais contida. Urros e aplausos. Como não conheço a primeira música do repertório, Dionísia Número 1, fico a admirar a força da voz de Maria Bethânia. Arrumo-me na cadeira, percebendo, antevendo que quando acabasse o show estaria envolvido por aquela mulher de vasta cabeleira. É algo que não tem explicação na voz de qualquer outra cantora brasileira que conheço. Bethânia, a despeito de ser irmã de quem é, de ter as posições políticas que tem — e principalmente a despeito de seus fãs —, revela-se a mim como uma voz hipnótica.

Não tive o prazer de escutar Elis Regina cantar e nem quero cair aqui na velha discussão de qual das duas é melhor. Até porque não tem sentido. Bethânia é muito mais teatral e penso dar-se melhor com o palco. Tanto é assim que estou escrevendo sobre o disco Maricotinha e não consigo dissociá-lo do show.

Com quatro minutos de show, Bethânia me põe à prova cantado O Quereres, do mano Caê. Por Deus! O que é aquilo? Reviro na cadeira, qual um demônio sendo exorcizado. Quero porque quero, quero, quero desgostar daquilo, mas não consigo. A imagem de Caetano definitivamente havia sumido daquela canção por ela entoada. E havia ganhado uma nova dimensão naquela voz poderosa. Acho que este foi o princípio da minha admiração por Bethânia.

Antes disso ela já havia lido um texto, um poema de Fernando Pessoa, Sou Eu Mesmo Trocado. Meu amigo estava completamente enganado. A capacidade de declamar o poeta português (bem como outros poetas) não encontra similar na minha parca memória.

Até mesmo músicas gravadas ad infinitum e por isso um tanto quanto gastas, como Fotografia, de Tom Jobim, ganham um outro sentido na voz de Bethânia. Ela não é como Marisa Monte & similares, que têm somente na voz o patrimônio; por outra, ela é capaz de entrar na música e (sei que a imagem é gasta, mas) dar-lhe vida. A seguir, o golpe de misericórdia naquele que ainda tinha alguma espécie de receio para com Maria Bethânia:Anos Dourados, de Chico Buarque e Tom Jobim.

Com a declamação do texto Eu Queria Ser Possuída por Você, de José Vicente, Bethânia tira urros da platéia por seu apelo sexual. Logo a seguir, canta Sobre Todas as Coisas, mais uma de Chico Buarque, desta vez em parceria com Edu Lobo. Sobreviver a isso já é um feito e tanto, mas o pior (melhor!) ainda estava por vir.

Primeiro, uma música perdida nos confins de minha memória, Casinha Branca, de Gilson e Joran (?). Acho que naquele momento uma máquina do tempo se abrira na minha frente, me transportando para uma idade imberbe. Depois, o golpe de misericórdia, antes do fim do primeiro ato: o Poema do Menino de Jesus, de Fernando Pessoa, belissimamente por ela recitado. Quem não se emocionar não é humano.

O segundo ato começa com um momento que muitos críticos especializados disseram ser “polêmico”: a inclusão, no repertório, de Rita Lee. No primeiro ato, Bethânia já havia cantado Todo Amor que Houver Nesta Vida, de Cazuza, outro ponto considerado polêmico. Uma besteira sem tamanho. Isso porque descobri ser verdadeiro um lugar-comum em se tratando de Bethânia: ela consegue despersonificar as canções. Isso pode muito bem ser constatado na gravação de É o Amor, de Zezé di Camargo e Luciano, incluída no disco-show Diamante Verdadeiro.

Assim, as músicas se sucedem no disco, como no show, com um rabugento ouvinte numa poltrona aveludada desdenhando para a autoria das canções, sejam elas de Gilberto Gil, Lenini, Adriana Calcanhoto ou Caetano Veloso. Isso porque, vale a pena aqui repetir, a voz de Bethânia não tem autoria que não a dela mesma.

Os pontos altos do segundo ato são a versão deliciosa (sim, eu escrevi deliciosa) de Nossa Canção, de Luiz Ayrão, Apesar de Você e Rosa dos Ventos, ambas de Chico Buarque, e Ronda, de Paulo Vanzolini. Isso sem contar a deliciosa leitura de Quem é essa agora? , de Lya Luft.

Saio do show, assim como desligo agora o CD-player, estupefato. Olho em torno, com certa vergonha ainda. Sabe como é: não quero ser confundido com um mero fã de Maria Bethânia. Suspiro. Penso nas péssimas lembranças que, por motivos outros, estão ligadas a este show. E, desdenhando para tudo, coloco novamente o disco na bandeja.