Com o perdão pelas hipérboles

by Paulo Polzonoff Jr. on September 16, 2016

 

Não vou me surpreender se Até Você Saber Quem É (Record), de Diogo Rosas G., ganhar todos os prêmios da literatura brasileira. Não só é o melhor livro escrito por aqui em anos como também de alguns componentes que costumam agradar os jurados velhos de guerra destes prêmios. Algo me diz, porém, e peço desculpas pela pretensão, que o romance vai ganhar os prêmios por todos os motivos errados. Mas é sempre assim, não é?

Não que eu ou qualquer outro leitor possa um dia almejar ter o dom da leitura certa. Nada disso. A questão é que romances com Até Você Saber Quem É escondem, sob um manto de muitas qualidades óbvias (obviedades que rendem reconhecimento e prêmios, como metalinguagem, intertextualidade, aquela coisa toda), uma espécie de “faísca primordial” que é praticamente incomunicável e, por isso mesmo, irreconhecível e impossível de premiar.

(E, sim, este é o maior elogio que faço a um livro em muito tempo).

Esta faísca, por sinal, quase me escapa. Por puro e tolo preconceito. Quando o autor, para mim um desconhecido dos meios literários com o qual eu interagia remotamente em redes sociais, me disse que tinha lançado um livro e sobre o que era o livro, confesso que fui o mais babaca possível. Revirei os olhos, fiz carinha de enfado para o apartamento vazio. Já no obscuro O Cabotino eu falo da repulsa que sinto por estas historinhas de escritores frustrados falando da vidinha pequena deles. Para minha sorte e para a sorte de quem ousar atravessar as páginas do romance, porém, acho que dá para dizer que Até Você Saber Quem É é uma pequena obra-prima envolta neste falso clichê. Não seja babaca como eu, leitor.

Ao acompanhar a vida, obra, glória e desgraça de Daniel Hauptmann e seu fiel escudeiro, Roberto, o leitor avançará na tentativa de compreender o que aconteceu numa fatídica noite de morte, isto é, na tentativa de compreender os fatos que levaram a tal desfecho, só para descobrir que os fatos não importam muito. Até porque “glória” é uma palavra associada ao divino que o autor habilmente disseca até encontrar sua raiz inequivocamente diabólica.

No meio dessa travessia, contudo, não há veredas margeadas por buritis, e sim calçadas de petit-pavé pontuadas por araucárias. Diogo Rosas G. constrói uma Curitiba que é bem diferente da “província, cárcere e lar” de Dalton Trevisan ou do nascedouro de trocadilhos de Paulo Leminski. Curitiba é um inferno espiritual e intelectual de onde só se pode fugir (nem sempre fisicamente) fazendo um pacto com o diabo.

Disfarçado como romance de formação que alguns até mesmo pensarão ser policial, Até Você Saber Quem É exige que o leitor duvide dos personagens e de si mesmo o tempo todo. E há algo de profundamente divino nisso. Ao transferir para o leitor a ambição tola, ilusória e fadada ao fracasso da autodescoberta, o romance desabrocha como uma das obras mais ambiciosas que tive o prazer de ler neste cenário árido que é a literatura brasileira contemporânea.

Até mesmo aquilo que no meio da leitura cheguei (num arroubo de Aracy de Almeida que me é peculiar) a considerar um defeito, isto é, o estilo quadrado, quase uma aula de catequese gramatical, acaba por se revelar como uma qualidade do romance. Ao se despir da sintaxe cheia de firulas, o autor acaba por criar um canhão de luz que obriga o leitor a atentar para o que realmente importa: a danação dos personagens.

Pareço impressionado? Talvez impressionado demais? Posso até pedir perdão (não muito) pelas hipérboles. Que o leitor, porém, não ignore meu aplauso entusiasmado: Até Você Saber Quem É é literatura como raramente se escreve por aqui.