Skip to content

Cinco horas para ser pai

Eu tento me lembrar de como eram as manhãs anteriores àquele dia 12 de agosto de 2008, mas não consigo. Porque elas eram todas uma mesma manhã. Eu acordava, tomava um banho demorado e um café apressado, ligava a televisão num telejornal qualquer e começava a traduzir. E traduzia até a noite, parando aqui e ali para ter “deliciosas” dúvidas metafísicas. E os dias se sucediam assim, até que alguma dessas dúvidas me passava uma rasteira e eu caía prostrado na cama.

Naquela terça-feira não foi muito diferente. Acordei cansado de uma noite mal dormida, apesar do ansiolítico poderoso que jurava me levar ao reino de Morfeu pela via expressa. Resmungando, tomei um café simples, porque a empregada estava de férias. Arrastando os pés, me sentei no quartinho, liguei a televisão “só pra passar raiva” e me pus a traduzir Tudo Sobre Arte, de Stephen Farthing, pensando o mesmo pensamento de todos os dias: “Como esse cara deve ter sofrido na escola”.

E foi assim que passei a manhã. Se fazia frio ou calor, se o céu estava limpo ou nublado, não sei. Não tinha motivos para registrar esses detalhes do dia como hoje não tive motivo para registrar a cor do carro que me trouxe ao trabalho. Quando o telefone tocou, pouco antes do meio-dia, não me arrepiei nem tampouco imaginei alguma tragédia. O telefone costumava tocar a esse horário, com aquela conversa pequena que torna a vida suportável e talvez agradável.

Mas logo no “alô” percebi que havia algo de diferente na voz da minha mulher, hoje ex. “Aconteceu alguma coisa?”, perguntei, notando o tremor e imaginando as mais diferentes e sanguinolentas tragédias familiares. Ao que ela respondeu com as palavras que vão me acompanhar até o túmulo, sempre que eu olhar para aquele que hoje me chama de pai: “Acho que nosso filho chegou”.

Estávamos na fila da adoção. Um processo já cantado em verso e prosa por penas mais inspiradas e geralmente mais indignadas do que eu. Ao contrário do que se possa ler por aí, e levando em conta que tenho fobia de trâmites burocráticos, lembro-me do processo todo como algo extremamente tranquilo. Respondi a um formulário com algumas perguntas bem constrangedoras, assinei papéis quaisquer e passei por entrevistas, sempre achando que tinha dito algo de fundamental e irremediavelmente errado.

Depois de seis meses, talvez um pouco menos do que isso, recebi a notícia de que a nossa “habilitação” tinha saído. Isso significava que, a partir do dia 28 de julho de 2008, eu e minha mulher estávamos aptos, de acordo com o todo-poderoso Estado brasileiro, a adotar uma criança. Por um instante, imaginei que pudesse haver uma carteirinha me habilitando como pai do mesmo modo que o Detran me permite ser motorista. Mas o Estado não tem senso de humor, você sabe.

A decisão de adotar uma criança era algo que fomentávamos há algum tempo. Uma ideia dilapidada em incontáveis conversas ao longo de pelo menos dois anos. E aqui não faz sentido ficar fazendo proselitismo da adoção nem tampouco encontrando justificativas para a nossa decisão como casal. Decidimos ser pais, tiramos as cem mil cópias autenticadas e com firma reconhecida necessárias e esperamos. Como fazem todos os aspirantes a pais na mesma situação.

Antes daquela manhã, portanto, eu já era “habilitado”. A rigor, nosso filho poderia chegar a qualquer instante – e de qualquer lugar do Brasil. Se eu não estava ansioso, e não estava, era porque, uma semana antes, uma funcionária da Vara de Família havia dito à minha mulher que a espera por uma criança em condições de ser adotada em São Paulo durava dois anos. Foi uma decepção, por um lado, mas um alento por outro. Afinal, eu teria dois anos para me preparar. Para sair do casulo do menino e virar homem*. Para me acostumar com a ideia de ter um ser humano me chamando de pai.

Mas o telefone tocou pouco antes do meio-dia e era nosso filho. Tinha de ser. Minha mulher foi falando e eu registrava apenas as palavras-chave: menino, saudável, vinte dias, agora mesmo!, tenho o endereço, vamos lá? Deixei a televisão ligada, larguei a frase que traduzia pela metade e fui logo vestindo uma calça jeans apressadamente. “Estou pegando um táxi”, disse, já de dentro do táxi.

O caminho até o abrigo foi longo e tortuoso o bastante para que eu tivesse tempo para me encher de dúvidas. “Então eu vou ser pai?”, eu me perguntava. Hoje? Amanhã? Daqui a vinte dias? E como era possível que eu me tornasse pai se o Estado, em toda a sua onisciência, havia dito que a espera duraria dois anos?

Quando finalmente chegamos, precisei de uns segundos para me encher de coragem e sair do táxi como quem se lançava à praia durante o desembarque da Normandia. O abrigo era bem diferente de outros abrigos que eu tinha visitado. Era limpo e colorido, embora fosse silencioso demais para um lugar que eu acreditava estar cheio de crianças. A porta se abriu e entramos, e foi como se a própria imagem da gestação se invertesse: era eu quem entrava num útero para pegar meu filho no colo pela primeira vez**.

Fomos levados a uma salinha e recebidos por uma freira. “Ele já vem”, disse ela, dando início a uma conversa da qual só me restam retalhos. Algo a ver com o colégio de freiras onde estudei quando criança, minha formação religiosa e até minha ascendência russa. Eu falava sem parar, porque é assim que ainda hoje lido com o nervosismo. Até que ele chegou, interrompendo minha fala ansiosa e silenciando meu coração e meu superego que geralmente não me permite escrever coisas como “silenciando meu coração”.

Ele estava muito bem enrolado num cobertor. Levantei-me e uma moça anônima, antes de me entregar meu filho (porque naquele momento ele já era meu filho), me perguntou se eu realmente sabia como segurá-lo. Devo ter mentido que sim, porque um segundo mais tarde estava com aquele menino no colo. “Meu filho”, eu disse, compreensivamente sem conseguir pensar numa frase mais espirituosa ou erudita.

Alheio ao momento, o menino dormia. Estupidificado, olhei em volta e perguntei à freira por que o bebê não abria os olhos. No mesmo instante, como se me ouvisse ou como se previsse a vergonha que eu passaria ao narrar este momento docemente piegas, ele abriu os olhos e eu me derreti mais um pouco. “E então? Como fazemos?”, perguntei, tomado por um espírito pragmático.

Enquanto as providências burocráticas eram tomadas, saí da salinha para fazer uma ligação. Liguei para a empregada, que estava de férias, e pedi pelo amor de Deus que ela voltasse para nos ajudar. Eu e minha mulher vivíamos em São Paulo, sem família próxima e, pior, sem nenhuma experiência em como cuidar de um bebê de vinte dias. Ela se prontificou a nos ajudar imediatamente e, antes de desligar, me deu os parabéns pela paternidade. Que agradeci, incapaz de dar o devido peso àquela palavra.

Às 16h30, aproximadamente, saí do abrigo com o bebê nos braços. No táxi, eu e minha mulher nos revezávamos segurando nosso filho. Liguei para meus pais e para minha irmã – e notei que, do outro lado, eles não estavam acreditando muito no que eu dizia. “Meu filho chegou. Vocês vão ser avós. E tia”. E só então me permiti falar o nome dele em voz alta, como se evocasse algum poder transcendental. “Davi. O nome dele é Davi”.

Perto de casa, paramos numa farmácia para comprar itens de primeiríssima necessidade: mamadeira, leite em pó, fraldas. Me lembro de contar a novidade para o atendente e ouvir dele que eu era louco. Talvez eu fosse – e não me importava. Eu era louco e era pai.

Chegamos em casa por volta das cinco horas. Se chovia ou fazia sol, se caía granizo ou se um terremoto chacoalhava a cidade, jamais saberei. Davi mamou pouco e dormiu muito, às vezes no colo da mãe, às vezes no colo do pai. Minhas duas gatas estavam nervosas, correndo de um lado para o outro, sem entender o que era aquele ser embrulhado numa manta que de vez em quando emitia um miado estridente. Quando a noite chegou, me dei conta de que meu filho não tinha um berço. Aquela primeira noite Davi passou ao lado da mãe, numa espécie de manjedoura improvisada com futons.

Enquanto eu dormia, celebrando a morte do menino que fui até aquela manhã, quando finalmente me transformei, se não num homem, no pai do Davi Abreu Polzonoff.

 


*Se bem que um homem não escreveria uma frase dessas, né?

**Você está fazendo cara feia só porque a frase é minha. Se fosse filme do Lars von Trier você ia gostar.

Share
Let's talk